Atualidade
Barcelos recebe RallySpirit Altice 2023
Oitava edição vai para a estrada de 2 a 4 de junho
Com partida e chegada à cidade de Barcelos, realiza-se, no decorrer do próximo fim de semana, sexta, sábado e domingo, a oitava edição do RallySpirit Altice. Segundo a organização, esta prova leva para a estrada “máquinas de outros tempos, como os carros de Grupo A, Kit-Car e WRC, os 15 Grupo B, entre outros”, que se juntam “num dos maiores Rally-Legends europeus, que, há muito, se transformou também num dos mais apreciados espetáculos de desportos motorizados, em Portugal”.
A edição deste ano conta com duas espetaculares novas classificativas: Terras de Bouro (com início no centro da vila) e Vila Verde – esta última, também completamente nova, apesar de manter o nome da de 2022.
Outro destaque entre as estreias desta edição é a Assistência Remota em Mixões da Serra, entre as classificativas de Terras de Bouro e Vila Verde, num revivalismo dos ralis “à moda antiga”, em que os carros paravam na berma da estrada de ligação para eventuais reparações.
Logo após a terceira especial, pelas 17h24, há o reagrupamento no Jardim da Praça da República de Vila Verde, para que todos possam desfrutar, mais uma vez, da presença próxima de carros e pilotos.
No programa de sábado, as classificativas são iguais às da edição de 2022, com dupla passagem pelos troços de Barcelos Oeste e Barcelos Sul, antes de a comitiva se dirigir ao Porto, com passagem obrigatória em frente à Câmara Municipal de Famalicão. Segue-se o reagrupamento na Praça do Município da “cidade dos Jesuítas”, antes dos 4,69 km da PE Santo Tirso e do posterior rumo à Foz do Rio Douro para a “Sunset Party”.
No domingo, a partida do Porto (Jardim das Sobreiras) está marcada para as 09h00, antes da disputa, às 11h03, da penúltima especial (SS10-Bacelos Norte). O RallySpirit 2023 volta a encerrar com os 10,23 km da especial Boucles de Barcelos (com início às 11h36), que privilegia, acima de tudo, o espetáculo e que é disputada com várias equipas em perseguição dentro do traçado.
Carros lendários para todos os gostos
O RallySpirit 2023 volta a ser uma autêntica viagem no tempo através da qual vamos poder ver, entre o Grupo B, preciosidades da dimensão de um Lancia Delta S4 e de um Lancia Rally 037, ambos com a famosa decoração da Martini Racing, dos Audi Quattro S1 E2, do Peugeot 205 T16, do MG Metro 6R4, do Toyota Celica Twincam Turbo ou do Porsche 911 SCRS, sem esquecer o Opel Manta 400, os dois últimos também com as famosas cores da Rothmans.
Destaque, ainda, para uma verdadeira montra histórica de carros de ralis míticos de todas as eras, que vão desde os Opel Ascona 400, Ford Escort MK2 RS 1800, Ford Sierra RS Cosworth ou BMW M3 dos anos 1980, passando pelos Grupo A dos anos 1990, como os Lancia Delta Integrale, Subaru Impreza 555, Ford Escort Cosworth e Mitsubishi Lancer Evo, até aos Peugeot 306 Maxi e Renault Megane Maxi ou os sonoros Kit Car como os Seat Ibiza, Fiat Punto ou Citroën Saxo, sem esquecer os impressionantes WRC, como o Toyota Corolla.
Mas não podemos perder de vista as “curiosas” participações do Trabant RS800, do Fiat 127, do belíssimo Volvo P 544 amarelo, do Datsun 1200 e dos Ford Escort MK1.
Condicionamento de trânsito
A realização do RallySpirit vai obrigar a um conjunto de condicionamentos de trânsito, tanto no perímetro urbano da cidade de Barcelos, como em algumas freguesias do concelho. A organização solicita aos automobilistas que sigam as indicações dos comissários da organização e das forças de segurança – PSP e GNR.
Assim, a partir das 17 horas da próxima quinta-feira e até domingo às 17 horas, o Campo da República (Campo da Feira) está integralmente dedicado a receber a acolher a logística e os veículos participantes na prova.
No domingo, dia 4, a partir das 9h00 até às 15h00, para a realização da classificativa “Boucles de Barcelos”, o trânsito vai estar cortado na Rua da Olivença, entre a Rotunda da Estação e a Rotunda das Calçadas e na Variante entre a Rotunda da Central da Camionagem e a Rotunda do Galo.
Fora da Zona Urbana Citadina, vão desenrolar-se 4 classificativas:
Dia 2 – Sexta-feira à tarde – Barcelos Norte (Alvito S. Pedro, Panque, Cossourado e Ardigão, no concelho de Ponte de Lima);
Dia 3 – Sábado ao longo do dia – Barcelos Oeste 1 (Paradela, S. Pedro de Rates, Courel e Macieira de Rates), e Barcelos Sul 1 (Chorente, Carvalhas, Goios, Remelhe e Rio Covo St. ª Eulália);
Dia 4 – Domingo de manhã – Barcelos Norte (Alvito S. Pedro, Panque, Cossourado e Ardigão, no concelho de Ponte de Lima).
Imagem: DR.
Atualidade
“Tenho algum cuidado com a palavra “referência”, mas também não fujo ao que venho construindo”, explicou cantautor português Eddie
O percurso de Eddie, nome artístico de Edgar Pinto, ultrapassa há muito a dimensão de um “simples” cantor. Ao longo de mais de 20 anos, construiu uma carreira como compositor, produtor, fundador da EP-Produções Musicais e membro de algumas das mais prestigiadas instituições ligadas à indústria musical, acumulando distinções internacionais em Madrid, Hollywood, Los Angeles e, mais recentemente, Nova Iorque (Distinção Especial “Artista Influente na Música e Cultura Latina”). No centro desse percurso continua, contudo, a mesma convicção: o sucesso resulta de tempo, disciplina, trabalho e autenticidade.
Em entrevista à Agência Incomparáveis, o artista português revisitou os bastidores da construção do álbum “Todo a Su Tiempo”, fala das renúncias e escolhas que marcaram a sua carreira, reflete sobre a forma como encara o reconhecimento internacional e explica por que motivo continua a privilegiar a humildade e a aprendizagem permanente, mesmo depois de alcançar um lugar de destaque no panorama musical ibero-americano.
Ao longo da conversa, Eddie sublinhou ainda a relação entre Portugal, Espanha, a Lusofonia e a América Latina, o papel da produção musical no seu percurso, a responsabilidade de integrar organismos internacionais como a Recording Academy e a Latin Recording Academy e os desafios que continua a estabelecer para o futuro, numa carreira que considera estar longe de concluída.
O projeto “Todo a Su Tiempo” levou cinco anos a ser construído e chegou a mais de 20 milhões de plays, streams e visualizações. Quando olha para este percurso, que parte da caminhada considera que o público ainda não conhece: o trabalho, as renúncias, os silêncios ou as decisões que ficaram fora dos palcos?
Hoje é difícil falar do público como uma entidade única e estanque. Há públicos diferentes: quem acompanha há anos, quem chega por uma canção, quem descobre o trabalho por um vídeo, uma rádio, uma entrevista ou um palco. O alcance pode ser grande e, ao mesmo tempo, muito parcial. Mesmo depois de uma longa jornada, continuo a chegar a novos ouvintes. Posso ter tocado numa sala importante ou passado por uma rádio, uma televisão ou um festival e, no dia seguinte, noutro contexto, haver pessoas a ouvir-me pela primeira vez. Isso agrada-me, mantém-me atento, vivo e com os pés no chão. Por isso, quando olho para este percurso, penso sobretudo na parte que se vê de fora: as canções, os vídeos, os concertos, as entrevistas, os prémios e os resultados. Por trás de tudo isto existe uma parte menos exposta, que é a do silêncio. “Todo a Su Tiempo” levou cinco anos a ser construído, mas esses cinco anos não nasceram do nada. Trazem uma história de vida, muitos anos de música, estúdio, palco, viagens, investimento pessoal, dúvidas, escolhas difíceis e muita aprendizagem. Este álbum tem esse nome por alguma razão. Não foi feito à pressa, nem para responder a uma moda ou a uma tendência. Houve músicas que ficaram para trás, ideias que precisaram de amadurecer e momentos em que tive de parar para perceber se cada passo fazia sentido para mim. Também houve renúncias: tempo pessoal, tranquilidade, oportunidades e até alguns caminhos que talvez fossem mais rápidos, mas não eram necessariamente os meus. Talvez a parte menos conhecida seja essa: continuar a construir quando ainda não há aplauso, quando ainda não há palco, quando ainda não há números para mostrar. No meu caso, muita coisa também se construiu nesses dias em que ninguém estava a ver. Quem escuta a canção pode não conhecer todos os bastidores, mas percebe quando ela não nasceu por acaso.
Ao longo de mais de duas décadas de carreira, passou por estúdios, palcos, rádios, televisões, prémios e reconhecimento internacional. Que sacrifícios foram necessários para chegar a este patamar sem perder o controlo criativo, a identidade artística e a ligação às suas origens?
Mais do que falar de sacrifícios de forma dramática, prefiro falar de escolhas exigentes. No meu caso, estes anos não se fizeram apenas de inspiração. Houve disciplina, investimento, persistência e foco, mesmo quando a visibilidade e o retorno nem sempre corresponderam ao esforço colocado. Sendo artista, compositor, produtor e tendo passado tantos anos dentro de estúdios, acabei por olhar para cada projeto como um todo. Não penso apenas na canção isoladamente; penso na produção, interpretação, imagem, direção artística e na forma como tudo chega ao público. Isso dá-me autonomia, mas também aumenta muito a responsabilidade. O lado criativo e de estúdio é talvez o que me surge de forma mais natural. O lado mais exigente é muitas vezes a gestão humana e operacional de um projeto independente: coordenar pessoas, prazos, sensibilidades, decisões e recursos. Nem sempre existe uma estrutura grande por trás, e isso leva-me a estar em muitas frentes. Houve momentos em que foi preciso abdicar de descanso, tempo pessoal e tranquilidade para proteger uma visão. Não vejo isso como queixa. Faz parte da escolha. A música tem-me dado muito, mas pede entrega, consistência e capacidade de não me dispersar. Talvez um dos maiores desafios tenha sido manter foco e identidade sem fechar a minha música numa só linguagem. Ao longo do meu percurso cruzei-me com projetos, estilos, artistas e sensibilidades muito diferentes, e tudo isso alargou a minha forma de ouvir, criar e pensar a música. O meu caminho tem sido encontrar coerência dentro dessa diversidade, sem transformar a música numa fórmula.
Os prémios recebidos em Madrid, Hollywood, Los Angeles e Nova Iorque colocaram o seu trabalho num circuito internacional onde estão alguns dos grandes nomes da música. Como gere esse reconhecimento sem o transformar em vaidade, mantendo a humildade e a consciência de que a carreira continua em construção?
Reconheço o valor desses prémios e tenho orgulho neles. Não os vejo como um detalhe: dão peso ao percurso, reforçam credibilidade e mostram que o trabalho conseguiu sair do seu lugar de origem para ser escutado noutros contextos. Ao mesmo tempo, nenhuma distinção encerra uma carreira; faz-me continuar com mais critério. Também sei que ganhar um prémio não significa que toda a gente fique automaticamente a saber. A atenção está muito fragmentada entre públicos, países, meios e plataformas. Para mim, o reconhecimento também existe fora dos prémios: numa rádio, em palco, entrevistas, colaborações ou no respeito de alguém do meio artístico que reconhece valor no projeto. Ter passado tantos anos em estúdio e ter-me cruzado com grandes nomes da música ajuda-me a pôr as coisas em perspetiva. Por mais importante que seja uma etapa, há sempre trabalho a fazer: na canção seguinte, no próximo palco, no próximo projeto.
“Todo a Su Tiempo” parece traduzir uma ideia de maturação, paciência e persistência. Em que medida este álbum representa não apenas uma fase musical, mas também uma forma de estar na vida e na indústria, num tempo em que muitos artistas são pressionados a produzir depressa e a responder ao algoritmo?
“Todo a Su Tiempo” tem muito de vida antes de ser apenas um título de álbum. Eu acredito no trabalho, na preparação, na persistência e em fazer a minha parte. Ainda assim, há coisas que só acontecem quando encontram o momento certo. Na música sinto o mesmo: cada canção tem a sua maturação e a sua razão para chegar. Tenho uma relação muito própria com os discos e as canções. Não gosto de lançar só para cumprir calendário ou alimentar plataformas. Hoje é preciso comunicar, estar presente, perceber a indústria e acompanhar o ritmo das coisas. Faço parte dessa realidade, procuro apenas que a pressa não mande mais do que a própria música. Para mim, uma música chega melhor quando sinto que está pronta e que a posso levar ao público com convicção. Nem sempre é possível controlar todos os calendários, porque também há oportunidades, compromissos e pressões naturais do mercado. Ainda assim, tento não perder esse critério. Prefiro que uma canção chegue um pouco mais tarde, mas chegue com sentido.
O seu percurso cruza Portugal, Espanha, a Lusofonia e a América Latina, com uma identidade luso-ibérica que não procura “folclorizar” a origem nem diluí-la no mercado global. Como encontra esse equilíbrio entre pertencer a um território cultural e, ao mesmo tempo, dialogar com públicos de vários países?
Reconheço-me muito nesse cruzamento e nessa ideia de ponte entre lugares, culturas, línguas e formas diferentes de sentir a música. Nasci em Portugal, mas o meu percurso não ficou fechado ao lugar onde nasci. Fui vivendo, viajando, trabalhando e criando em contacto com outros lugares, sobretudo Espanha, com uma ligação forte a Madrid e à Andaluzia, e também com a Lusofonia e o universo latino. Não nasceu de uma estratégia; faz parte da minha vida. A Lusofonia tem uma dimensão familiar, afetiva e musical. Espanha entrou no meu percurso por presença real, trabalho, amizade, palco, estúdio e tempo vivido. A América Latina foi surgindo pela língua, pelas canções, pelos media, pelas colaborações e pelo diálogo natural com públicos que sentem a música de forma próxima. O equilíbrio está em deixar que essa vida apareça naturalmente na música.
Além de cantautor, é produtor, fundador da EP-Produções Musicais, membro votante da Recording Academy e da Latin Recording Academy, integra a Academia de la Música de España e a Sociedade Portuguesa de Autores. Como vive a responsabilidade de ser referência em várias esferas da música sem perder a inquietação de quem continua a aprender?
Vejo essa dimensão como parte do percurso que tenho vindo a construir. São mais de duas décadas de estúdio, produção, canções, palco, trabalho com outros artistas, academias e contacto com vários lados da música. Reconheço o peso desse caminho, mas prefiro vivê-lo como responsabilidade e não como estatuto. Tenho algum cuidado com a palavra “referência”, mas também não fujo ao que venho construindo. A EP-Produções Musicais foi decisiva nessa história. Não foi apenas um estúdio, embora essa tenha sido a face mais visível. A partir de 2006 aproximou-me da indústria musical e fez com que muitos artistas, editoras e profissionais conhecessem melhor o meu trabalho como produtor e a minha forma de acompanhar projetos. Mais tarde, esse percurso também alimentou a minha fase autoral e artística. Produzir passa muito por ouvir, perceber o que cada canção pede e criar as condições certas para que a música aconteça. As academias e associações acrescentam outra dimensão, porque ser membro votante e participar em estruturas ligadas a compositores, produtores, engenheiros e autores faz-me olhar para a música para além do meu próprio trabalho: a autoria, a qualidade técnica, os direitos dos criadores e as novas gerações. A inquietação continua porque a forma de fazer, produzir e comunicar música está em constante transformação. As tecnologias, o mercado e as formas de chegar ao público obrigam-me a rever formas de trabalhar sem perder critério. Cada canção e cada colaboração trazem uma dinâmica própria. Posso ter mais estrada e experiência acumulada, mas isso não me dispensa de estar atento e, muitas vezes, recomeçar.
Depois de prémios, reconhecimento internacional, milhões de visualizações e uma trajetória construída com tempo, que novos desafios ainda o movem? O que falta conquistar, não apenas em números ou distinções, mas em verdade artística, impacto cultural e legado?
O que me move é continuar a crescer, aprender, viajar, tocar, criar e levar o meu trabalho a novos lugares. Tudo o que já aconteceu até aqui conta, mas não substitui a vontade de fazer mais e melhor.
Depois de uma canção estar produzida e chegar ao público, começa outra etapa: perceber como ela vive depois, por uma rádio, um palco, outro país ou na memória de quem a recebe. Esse impacto interessa-me muito, porque nem tudo o que conta cabe numa estatística.
Sendo artista independente, tenho consciência de que nem sempre os recursos acompanham a dimensão das ideias. Gostava de poder levar algumas produções mais longe, com maior impacto cénico, mais estrutura e mais presença ao vivo. Tenho também muita vontade de ir em promoção e em concerto a mais países da Lusofonia, especialmente ao Brasil, onde sinto uma relação bonita através das redes e de algumas canções que tiveram muito boa receção. Também gostava de aprofundar ligações na América Latina e nos Estados Unidos, com alguns pontos naturais como Miami, Puerto Rico ou Nashville, e, mais à frente, regressar à Ásia.
Quanto ao legado, não penso nisso como monumento. Gostava que um dia, quem olhasse para o conjunto das minhas canções, discos, imagens, colaborações e produção percebesse uma história real, com fases, línguas e influências diferentes, mas reconhecível como minha.
Ígor Lopes
Atualidade
“Portugal atrai perfis muito diferentes de estudantes internacionais”, afirma estudante brasileiro em Portugal
A integração no ensino superior português constitui um dos principais desafios para quem chega ao país para iniciar uma formação académica na Europa, envolvendo não apenas a adaptação aos métodos de ensino, mas também a construção de relações com colegas e a inserção num novo ambiente social e cultural.
É a partir da sua própria experiência enquanto estudante brasileiro em Portugal que Bruno Miranda e Silva, 20 anos, natural de Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais, e residente em Lisboa, tem acompanhado estas questões, conciliando os estudos no terceiro ano do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa com as funções de coordenador de política internacional na Associação Académica de Ciências Económicas e Políticas (AACEP) e de coordenador do Comité Jovem da Câmara de Comércio-Indústria Luso-Brasileira.
Em entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis, este responsável abordou os desafios de integração dos estudantes internacionais, os fatores que devem pesar na escolha de uma universidade portuguesa, as diferenças entre os sistemas de ensino superior de Portugal e do Brasil e a importância da participação em estruturas académicas, associativas e jornalísticas.
Na perspetiva de um estudante estrangeiro, quais são as principais dúvidas antes de iniciar uma licenciatura em Portugal e que preparativos considera indispensáveis para a adaptação académica e pessoal?
Antes de iniciar qualquer curso em Portugal, é indispensável que se verifique a estrutura do curso e o tipo de pessoas que lá estudam. A questão envolve sempre o problema da integração entre os estudantes da faculdade, ou seja, as relações que lá serão cultivadas. Quando entrei na faculdade, tinha grandes dúvidas da forma com a qual seria tratado, até com duvidas de se a própria faculdade que escolhi seria a certa para mim. Logo, quando o ano letivo começou, fiz questão de andar com as pessoas que se vestiam igual a mim, mesmo assim, as primeiras semanas da faculdade implicam uma tentativa de integração similar àquela de entrar em uma escola nova, onde não se conhece ninguém.
Que perfis de estudantes internacionais procuram atualmente as universidades portuguesas e quais são os principais fatores que pesam na escolha de Portugal como destino de formação?
Creio que Portugal atrai perfis muito diferentes de estudantes internacionais. No caso dos brasileiros, pesa bastante a língua, a proximidade cultural, a segurança, a qualidade de vida e a possibilidade de estudar numa universidade europeia sem diferença de língua gritante como no restante da europa. Além disso, muitos jovens procuram Portugal já pensando numa trajetória mais internacional, seja através de intercâmbios, de um mestrado ou de uma futura experiência profissional na Europa. Já, acho importante não escolher Portugal apenas porque parece ser um destino mais fácil para quem fala português. A decisão deveria ter em consideração a qualidade da universidade, se o curso for do seu agrado e as oportunidades que são dadas pela faculdade. A escolha da faculdade é tão importante quanto a escolha do próprio país.
Com base na sua experiência, o que funciona bem no acolhimento e na integração dos estudantes estrangeiros nas instituições de ensino superior portuguesas e o que ainda precisa de ser melhorado?
Isto tende a depender da instituição. Muitas faculdades dão liberdade aos estudantes de formarem os seus núcleos, seja de estudantes de determinados países como o Brasil ou de cariz político. No meu caso, a minha faculdade acredita que isso é contraproducente, quando falamos de núcleos de estudantes brasileiros, com o objetivo de os integrar, cria uma dinâmica onde não se integram, uma endogamia social, fazendo com que fiquem todos juntos, assim, terminam por não se integrar. Creio que esta é uma visão compreensível, onde a faculdade, por não deixar que isto aconteça, faz uma ‘arquitetura da escolha’, criando a oportunidade para que os alunos tenham que conviver uns com os outros, além dos seus moldes sociais, culturais ou mesmo de suas preferências pessoais (politicas ou hobbies).
Qual é a importância de concluir os estudos superiores em Portugal para o percurso académico, profissional e internacional de um estudante brasileiro?
Há uma grande importância em terminar os estudos superiores em Portugal. Mas a questão do Mestrado é muito mais importante. Aqui em Portugal, se se tenciona aqui ficar, é um dos mais importantes diplomas de ter, há uma grande competitividade para os empregos nas áreas escolhidas pelo aluno. Já, se os estudantes brasileiros tencionam voltar ao Brasil, um diploma Português tem um peso elevado, em comparação ao título de igual valor no Brasil, já que o universitário tem experiência no exterior, assim tendo mais competitividade no mercado de trabalho brasileiro.
Que diferenças identifica entre os sistemas de ensino superior de Portugal e do Brasil, nomeadamente nos métodos de avaliação, na relação com os docentes, na carga de trabalho e na participação dos estudantes?
Em Portugal, o ensino superior demanda bastante autonomia por parte do estudante, tanto na organização das leituras como na preparação para provas, trabalhos e apresentações. A relação com os professores costuma ser próxima e a participação do aluno depende muito da sua iniciativa, seja em associações, conferências, jornais universitários ou outras atividades fora da universidade (no seu cotidiano). Uma diferença em relação ao Brasil está também no financiamento do ensino superior. No Brasil, as universidades públicas não cobram ‘propinas’ (mensalidade, em português do Brasil), enquanto em Portugal mesmo as instituições públicas cobram ‘propinas’, e os valores podem ser mais elevados para estudantes internacionais, chegando a 12.500 euros por ano. Para quem vem de fora, esse custo deve ser levado em conta juntamente com as despesas de moradia, transporte e alimentação.
Na sua opinião, que ideias preconcebidas sobre estudar em Portugal não correspondem à realidade e que informação deveria ser transmitida aos jovens antes de tomarem essa decisão?
Creio que as ideias concebidas sobre o estudo em Portugal estão ligadas à inclusão das pessoas. Não foram raras as vezes que estudantes brasileiros foram vítimas de xenofobia ou preconceitos, mas nem todos os professores e nem todos os alunos são assim, longe disso. A maior parte dos estudantes portugueses tem um fascínio sobre a cultura brasileira, e acolhem de braços abertos todos os alunos que estudam em solo luso. Os portugueses são um povo aberto por natureza, logo, não são mal-humorados como se acredita no Brasil ou no restante dos países da lusofonia.
Fale-nos sobre a sua experiência ao escrever para o jornal da faculdade e por pertencer ao diretório académico.
Escrever para o jornal da faculdade é uma bênção, ter a oportunidade de me expressar sobre temas diversos, debatendo e discutindo assuntos que são caros para mim, recomendo a todos. No jornal da faculdade, me foco principalmente sobre questões ligadas à América Latina, com um olhar especial pelo Brasil e pelos processos internos, mesmo assim, comento de vez em quando, sobre os resultados eleitorais nos países da América Latina. Quanto à Associação Académica de Ciências Económicas e Políticas (AACEP) da Universidade Católica Portuguesa, como coordenador de política internacional, o meu foco vai além das fronteiras da América Latina, comentando ou organizando eventos e publicações sobre assuntos de interesse. A participação em um espaço que engloba todas as faculdades de Portugal, assim tendo já viajado para o sul do país com o objetivo de promover iniciativas da nossa Associação Académica, com, neste caso, foco na Europa.
Ígor Lopes
Atualidade
Conselheiros das Comunidades Portuguesas da América Central e da América do Sul recebem obra que documenta a presença histórica de Portugal no Uruguai
A obra “Huellas de Portugal en Uruguay”, da autoria de Augusto Antonio Guerra, com investigação complementar de Carlos Texeira Varesi dedicada às “Raízes Portuguesas de la Ciudad de Salto”, foi entregue aos membros do Conselho Regional das Comunidades Portuguesas da América Central e da América do Sul (CRACS), durante a reunião realizada nos dias 10 e 11 de abril, na Casa de Portugal de Montevideu, passando igualmente a integrar o acervo documental da instituição, presidida por Inês Guerra.
A entrega da publicação constituiu um dos momentos de maior simbolismo cultural da reunião do Conselho Regional, reforçando a importância da preservação da memória histórica das comunidades portuguesas na América Latina e do reconhecimento do contributo dos emigrantes portugueses para a construção da identidade uruguaia.
Da autoria do antigo conselheiro das Comunidades Portuguesas Augusto Antonio Guerra, a publicação reúne um vasto conjunto de informações sobre a presença portuguesa em diferentes regiões do Uruguai, procurando “identificar vestígios materiais, documentais e humanos da emigração lusa, desde os primeiros povoamentos até às comunidades que continuam hoje a preservar esse património”. A publicação percorre “diferentes momentos da presença portuguesa no Uruguai”, documentando a “participação dos emigrantes no desenvolvimento económico, comercial e social do país”, bem como a “criação de associações, clubes, espaços culturais e instituições” que “ajudaram a preservar a identidade portuguesa ao longo de várias gerações”.
Entre os temas abordados encontram-se diversos locais associados ao património luso, incluindo edifícios históricos, memoriais, placas evocativas e outros testemunhos da presença portuguesa no Uruguai, com foco em cidades como Montevideu e Salto.
Em paralelo, a investigação desenvolvida por Carlos Texeira Varesi dedica especial atenção à cidade de Salto, no noroeste do país, na fronteira com a Argentina, identificando famílias de origem portuguesa, edifícios, monumentos, instituições e episódios históricos que testemunham a influência da comunidade portuguesa naquela região uruguaia.
Segundo apurámos, o objetivo da obra passa por “reunir, de forma sintética, as pegadas de Portugal e dos portugueses no território uruguaio”, oferecendo um “instrumento de consulta” destinado tanto aos descendentes de portugueses como a investigadores, estudantes e todos os interessados na história da emigração portuguesa na América do Sul.
A obra evidencia ainda a importância das instituições portuguesas na preservação da língua, das tradições e da memória coletiva, destacando o papel desempenhado pela Casa de Portugal de Montevideu e por outras organizações da comunidade ao longo das últimas décadas.
A distribuição da obra junto dos representantes eleitos das comunidades portuguesas pretende também incentivar a divulgação deste património histórico junto das diferentes comunidades da diáspora, reforçando o conhecimento sobre um capítulo muitas vezes pouco conhecido da presença portuguesa na América do Sul.
Deste modo, ao reunir investigação histórica, documentação patrimonial e testemunhos da emigração portuguesa, “Huellas de Portugal en Uruguay” ou “Marcas de Portugal no Uruguai”, em tradição livre, e “Raízes Portuguesas de la Ciudad de Salto” ou “Raízes portuguesas da cidade de Salto”, também em tradução livre, assume-se como “uma das mais recentes contribuições para o estudo das comunidades lusas no continente americano, com foco no universo “Portugal Luso-Oriental Uruguai”, preservando a memória de gerações de portugueses e luso-descendentes que ajudaram a construir parte da história do Uruguai”.
Ígor Lopes
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