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“Portugal não termina nas suas fronteiras, continua onde existir um português”
No âmbito do IV Encontro da Federação das Associações da Diáspora (FAD), realizado em Viseu, no centro-norte de Portugal, entre os dias 8 e 9 de agosto, o primeiro-secretário da FAD, João Paulo Rocha, defendeu uma visão da diáspora assente na criação de pontes entre Portugal e os portugueses espalhados pelo mundo.
Foi precisamente a partir deste entendimento sobre o papel da diáspora que, em entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis, João Paulo Rocha revisitou o seu percurso pessoal, profissional e associativo, iniciado aos 17 anos e meio no setor ferroviário e desenvolvido ao longo de 37 anos, em paralelo com uma crescente intervenção cívica ligada à FAD, à Câmara de Comércio e Indústria Luso-Balear, à Casa de Portugal de Maiorca e ao movimento confrádico.
Ao longo da conversa, o responsável abordou ainda os desafios da renovação geracional do associativismo, a criação de uma rede internacional de mandatários da FAD, o potencial económico da diáspora, a preservação da cultura e das tradições portuguesas, a importância da música na aproximação às novas gerações e os projetos de cooperação com entidades associativas e culturais, defendendo uma diáspora capaz de transformar a dispersão geográfica numa verdadeira rede internacional.
O seu percurso teve início na área ligada às infraestruturas, correto?
Sim, ao sector ferroviário, onde aos 17 anos e meio iniciei na área da topografia, tendo passado pelas expropriações, gestão de frota, apoio a área internacional e com uma pequena passagem pela comunicação e área operacional onde ainda hoje me insiro, são 37 anos dedicados a uma área de grande sensibilidade e de enorme importância para o país e alias uma área que tem um lema com o qual me identifico e trabalho diariamente pro bono que é a de “ligar destinos”.
O seu percurso enquanto dirigente associativo cruza atualmente diferentes áreas: gestão, a diáspora, a economia e a cultura. Como se define enquanto dirigente e gestor?
Talvez, acima de tudo, como alguém que acredita na capacidade de criar pontes. Pontes entre pessoas, instituições, empresas, associações e comunidades. Portugal tem uma realidade muito particular: somos um país pequeno em território, mas enorme na sua presença no mundo. A nossa diáspora é uma extensão natural de Portugal e deve ser encarada como uma força, não apenas como uma realidade distante. É precisamente nessa perspetiva que tenho procurado desenvolver a minha atividade “pro bono público” na Casa de Portugal de Maiorca onde sou sócio e representante em Portugal, Federação das Associações da Diáspora onde sou primeiro-secretário, no Sindicato SNTF onde sou membro da mesa do concelho fiscal, mas também através da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Balear onde desempenho a função de Secretário-Geral e mais recentemente a minha ligação ao movimento confrádico entre outras.
É atualmente primeiro-secretário da Direção da FAD. O que significou assumir essa responsabilidade?
É uma grande responsabilidade, pois significa ter a capacidade de criar ordem a partir do caos, lançar luz sobre os caminhos e contribuir para a construção de um propósito comum. No que à FAD diz respeito, temos perante nós um desafio muito importante: representar, aproximar e dar voz às associações da diáspora, mas também ajudar a preparar o associativismo para o futuro. Não podemos continuar a olhar para as comunidades portuguesas apenas através dos modelos de há 30 ou 40 anos. Torna-se necessário construir novas pontes, fortalecer os laços que nos unem e preparar, com espírito de união e fraternidade, os caminhos que queremos deixar às próximas gerações. As comunidades mudaram, os portugueses mudaram e as novas gerações têm outras formas de comunicar, de participar e de se relacionar com Portugal. A Federação tem de acompanhar essa transformação.
No “IV Encontro da FAD”, em Viseu, nas últimas semanas, falou precisamente da necessidade de renovação…
Sim. A renovação geracional é um dos grandes desafios que temos pela frente. Muitas associações foram construídas com enorme sacrifício por homens e mulheres que emigraram há décadas. Devemos-lhes muito. Mas temos de garantir que esse trabalho não termina com essas gerações. Precisamos de criar espaço para os jovens, ouvir as suas ideias e dar-lhes responsabilidades. Não podemos pedir-lhes simplesmente que continuem a fazer aquilo que os seus pais e avós fizeram. Temos de lhes permitir construir o associativismo do seu tempo.
Disse em Viseu uma frase que acabou por marcar o encontro: “Portugal não termina nas suas fronteiras. Portugal continua onde existir um português”. O que quis transmitir?
Quis transmitir uma ideia muito simples: a comunidade portuguesa não acaba quando alguém atravessa uma fronteira. Um português que vive em França, na Alemanha, no Luxemburgo, no Brasil, nos Estados Unidos, na Venezuela ou nas Baleares continua a fazer parte de Portugal. A diáspora não deve ser vista apenas como algo que está fora. É uma parte de nós. Portugal não termina nas suas fronteiras. Continua onde existir um português.
Uma das apostas da FAD passa pela criação de uma rede internacional de mandatários. Por quê?
Porque uma Federação que pretende representar associações espalhadas pelo mundo não pode estar distante delas. Precisamos de pessoas no terreno, que conheçam as comunidades, que conheçam as associações, que percebam as suas dificuldades e que possam estabelecer uma ligação permanente com a direção da FAD. A rede de mandatários pretende precisamente criar essa proximidade. Queremos que a FAD esteja presente na Europa, na América do Norte e do Sul, em África, na Ásia e na Oceânia. Não queremos uma rede apenas no papel. Queremos uma rede humana, feita de pessoas que tenham vontade de servir as comunidades.
A sua atividade passa também pela Câmara de Comércio e Indústria Luso-Balear como secretário-geral. Como é que a economia se relaciona com a diáspora?
A diáspora tem uma enorme dimensão económica que nem sempre é suficientemente valorizada. Os portugueses espalhados pelo mundo são empresários, profissionais, investidores e empreendedores. Existem relações comerciais, conhecimentos, contactos e oportunidades que podem ser potenciados. O mundo global não são só os mercados mais apetecíveis, existem janelas de oportunidade que estão muito mal exploradas porque, por vezes, o que consideramos estar mais perto não exploramos e o mercado balear é um mercado dinâmico internacional e uma base importante no mercado da bacia do Mediterrâneo, que temos de explorar. Na CCLB procuramos precisamente aproximar Portugal das Ilhas Baleares e criar condições para que empresas, empresários e instituições possam encontrar interesses comuns. A assinatura do protocolo de cooperação entre a FAD e a CCLB representa também essa vontade de aproximar o associativismo da dimensão económica.
Portanto, a diáspora pode ser também uma plataforma económica, certo?
Sem dúvida, ela já o é em alguns países e, embora os números de portugueses não sejam tão expressivos nas Baleares como no resto da nossa diáspora, sempre são perto de 6000, e se contarmos com os residentes da CPLP aí o número de consumidores do mercado português sobe consideravelmente. Mas não devemos reduzir a diáspora à economia. A economia é uma das suas dimensões. A diáspora é cultura, é língua, é memória, é identidade, mas também é conhecimento, capacidade empresarial e relações internacionais. Quando conseguimos juntar essas dimensões, podemos criar projetos muito interessantes.
Há ainda uma dimensão cultural no seu percurso, através da Confraria de Saberes e Sabores da Beira “Grão Vasco”…
A cultura é absolutamente fundamental, porque é através dela que compreendemos quem somos, de onde vimos e que caminho queremos construir para o futuro. Nascido em Viseu, na então Casa de São Mateus, hoje Hospital Particular, na afamada Reta do Caçador, tenho, desde sempre, uma ligação muito forte e afetiva a esta região. Foi, contudo, numa aldeia do concelho de Vouzela, Cambra, que vivi a minha meninice até aos 12 anos. Como acontece com muitos portugueses, fui registado numa outra aldeia do mesmo concelho, Vermilhas, também conhecida por Carvalhal de Vermilhas, hoje geminada, do ponto de vista autárquico, com a aldeia onde cresci. Foi também a Cambra que regressei durante grande parte dos fins de semana e onde passei muitas das minhas férias. É ali que continuam a viver os meus pais, que procuro visitar sempre que me é possível, assim como os amigos e as pessoas que fizeram parte da minha infância e que continuam ligados à minha vida. Toda esta região, integrada em Lafões e no distrito de Viseu, representa muito mais do que um lugar de origem. São terras que guardam as minhas primeiras memórias, que contribuíram para a minha formação enquanto pessoa e que, inevitavelmente, fazem parte da minha identidade. É nesta paisagem humana e geográfica, entre Viseu, Vouzela, Cambra e Vermilhas, que encontro uma parte essencial das minhas raízes, das minhas memórias e do sentimento de pertença que continuo a transportar comigo, mesmo quando a vida me leva para outros caminhos. Esta ligação à cultura e às tradições começa na própria família. O meu avô paterno foi dirigente associativo de uma Banda Filarmónica e o meu avô materno foi regedor. Mais recentemente, os meus próprios pais fizeram também parte, durante alguns anos, de um grupo de cantares tradicionais. Portanto, a cultura, a tradição, a música e o associativismo não são para mim apenas conceitos ou temas sobre os quais falo: fazem parte da minha história familiar e da minha própria identidade. Costumo dizer que somos a súmula de um passado, de um presente que vivemos e das aprendizagens que nos projetam para o futuro. Somos aquilo que recebemos, mas também aquilo que aprendemos com os outros e aquilo que somos capazes de transmitir às gerações seguintes. É nessa aprendizagem permanente, feita de experiências, de pessoas, de histórias e de territórios, que conseguimos compreender melhor as necessidades reais do nosso país e da nossa sociedade. Foi nesse espírito que, no dia 9 de agosto, fui elevado a Confrade. Recebo esta distinção com enorme honra, mas sobretudo com um profundo sentido de responsabilidade. O movimento confrádico desempenha um papel muito importante na preservação dos saberes, dos sabores, das tradições e da memória coletiva. A nossa identidade não está apenas nos livros, nos arquivos ou nos monumentos. Está também na gastronomia, nos produtos da nossa terra, na música, nas tradições, nas pessoas e nas histórias que passam de geração em geração. E esta identidade assume uma importância ainda maior quando falamos da diáspora portuguesa. Para quem vive longe de Portugal, a cultura é muitas vezes uma das pontes mais fortes com a terra de origem. É através da gastronomia, da música, das tradições, da língua, das memórias familiares e das comunidades que se mantém vivo esse sentimento de pertença. Aliás, a Confraria de Saberes e Sabores da Beira “Grão Vasco”, com sede em Viseu, é um excelente exemplo desta capacidade de levar a cultura portuguesa para além-fronteiras. A Confraria tem vindo a expandir a sua presença internacional através de delegações, núcleos e protocolos com associações da diáspora, nomeadamente em França, no Brasil, na Suíça e, mais recentemente, no Reino Unido. Este trabalho demonstra que a cultura não conhece fronteiras e que as nossas tradições podem ser, simultaneamente, uma forma de preservar as nossas raízes e de aproximar comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Preservar a cultura não significa ficar preso ao passado. Significa compreender o passado para valorizar o presente e construir melhor o futuro. É manter viva a memória, mas também saber reinventá-la e transmiti-la às novas gerações, de uma forma que continue a fazer sentido num mundo em permanente transformação. É também por isso que considero que o movimento confrádico, o associativismo e a diáspora podem caminhar lado a lado. Todos têm a capacidade de preservar a nossa identidade, aproximar pessoas, criar pontes entre Portugal e as suas comunidades no estrangeiro e transmitir às novas gerações aquilo que recebemos das anteriores. Afinal, somos verdadeiramente a súmula de um passado, de um presente e de um futuro que estamos, todos os dias, a ajudar a construir. E talvez seja essa uma das maiores responsabilidades que temos: receber o legado daqueles que nos antecederam, valorizá-lo no presente e entregá-lo às gerações futuras ainda mais vivo, mais forte e mais universal. E essa identidade tem uma importância muito particular quando falamos da diáspora.
Por quê?
Porque quando um português leva consigo a sua cultura para outro país, leva também uma parte de Portugal. A gastronomia, a música, as tradições e a língua são instrumentos extraordinários de ligação. Por isso acredito que o movimento associativo e o movimento confrádico podem trabalhar muito mais em conjunto.
É essa ideia que está por detrás de alguns dos projetos que está a desenvolver?
Exatamente. Este é, aliás, um caminho que também estamos a procurar aprofundar através da própria diáspora. No passado dia 8 de agosto, durante o 4.º Encontro das Associações da Diáspora, a Federação das Associações da Diáspora (FAD) assinou um protocolo de cooperação com a Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto (CPCCRD), reforçando uma relação que pretende aproximar instituições, associações e comunidades em torno da cultura, do associativismo e da valorização da nossa identidade. Neste momento, estamos também a iniciar um projeto conjunto entre a Federação das Associações da Diáspora, a Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto e a Casa Portuguesa de Maiorca, com o objetivo de levar a cultura portuguesa às Ilhas Baleares. Queremos que este seja mais do que um projeto cultural: queremos que seja uma verdadeira ponte entre Portugal e a sua diáspora, criando oportunidades para divulgar os nossos saberes, sabores, tradições, música, património e identidade.
Por quê começar pela música?
Porque a música tem uma capacidade extraordinária de unir pessoas. Um coro pode juntar gerações, associações e comunidades. Não é necessário falar a mesma língua para compreender uma canção. E quando falamos de comunidades portuguesas, os coros podem ser também uma forma de aproximar os mais jovens da nossa cultura.
Esse projeto poderá ser replicado noutros países?
Essa é precisamente a nossa intenção. Maiorca pode ser um primeiro passo. Se conseguirmos criar um modelo de cooperação entre associações, instituições culturais e comunidades portuguesas, podemos depois levá-lo a outros países. A FAD deve ser também um espaço onde os projetos possam nascer, ser experimentados e depois replicados.
Voltamos, assim, à ideia de “ponte”…
Sim. É uma palavra que me acompanha muito. Uma ponte não existe para ficar parada. Existe para permitir que as pessoas passem de um lado para o outro. É isso que devemos fazer enquanto dirigentes: aproximar Portugal das comunidades e aproximar as comunidades de Portugal.
E como se consegue envolver os jovens nesse processo?
Primeiro, temos de os ouvir. Não podemos falar permanentemente sobre os jovens sem falar com eles. Depois temos de lhes dar espaço. Se queremos que participem, temos de lhes confiar responsabilidades. E temos de utilizar as ferramentas que eles utilizam. A comunicação digital, as redes sociais, os projetos internacionais, a música, a cultura, o empreendedorismo e a inovação podem ser portas de entrada para uma nova participação associativa. O associativismo do futuro terá necessariamente de ser mais aberto, mais digital e mais internacional.
Há quem diga que o movimento associativo português atravessa uma crise. Concorda?
Eu prefiro falar de transformação. Existem dificuldades, naturalmente. Algumas associações envelheceram, outras perderam capacidade de mobilização e muitas enfrentam dificuldades para encontrar dirigentes e voluntários. Mas também vejo oportunidades enormes. Temos uma nova geração de portugueses altamente qualificados, ligados digitalmente ao mundo e com uma relação muito forte com Portugal. O nosso trabalho deve ser criar condições para que essa geração descubra no associativismo uma ferramenta para participar e não apenas uma obrigação herdada.
Que papel deve ter a FAD nesse processo?
A FAD deve ser uma plataforma. Uma plataforma de ligação, de cooperação e de conhecimento. Não queremos substituir as associações. Queremos fortalecê-las. Queremos que uma associação portuguesa na Alemanha possa beneficiar da experiência de outra no Luxemburgo; que uma associação em Maiorca possa conhecer um projeto desenvolvido em França; que uma coletividade no Brasil possa estabelecer uma parceria com uma entidade em Portugal. Temos de transformar a dispersão numa rede.
E qual é, afinal, o futuro que imagina para a diáspora portuguesa?
Imagino uma diáspora mais ligada, mais participativa e mais reconhecida. Uma diáspora onde os jovens tenham voz, onde as associações trabalhem em rede, onde a cultura e a economia possam caminhar lado a lado e onde Portugal compreenda que os portugueses espalhados pelo mundo são uma enorme mais-valia. Não podemos olhar para a diáspora apenas como uma consequência da emigração. Devemos olhar para ela como uma das grandes forças de Portugal no mundo.
Se tivesse de resumir o seu próprio compromisso numa frase, qual seria?
Diria que quero ajudar a construir pontes. Pontes entre Portugal e a diáspora. Entre gerações. Entre associações. Entre cultura e economia. Entre tradição e futuro. Porque acredito que temos uma enorme responsabilidade: preservar aquilo que recebemos, mas sobretudo criar condições para que aqueles que vêm depois de nós tenham vontade de continuar. E, no fundo, é isso que significa servir a diáspora: não falar apenas dos portugueses que estão longe, mas trabalhar para que, onde quer que estejam, continuem a sentir que Portugal também é deles.
Ígor Lopes
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CIM Alto Minho assinala 18 anos ao serviço do território
A Comunidade Intermunicipal do Alto Minho (CIM Alto Minho) assinala hoje, 15 de outubro, 18 anos de atividade, uma maioridade marcada pelo reforço da cooperação entre os dez municípios do território, pela mobilização de investimento e pela promoção de estratégias conjuntas de desenvolvimento regional.
Ao longo deste percurso, a CIM Alto Minho afirmou-se como uma plataforma de trabalho conjunto, com um papel relevante na valorização dos recursos do território, na captação de fundos europeus, na concretização de projetos e iniciativas intermunicipais e no reforço da cooperação transfronteiriça com a Galiza. A sua intervenção em áreas como a mobilidade, a cultura, o turismo, a inovação, o desenvolvimento social e económico, a sustentabilidade ambiental e a proteção civil tem contribuído para responder a desafios comuns e criar novas oportunidades para a região. Mais recentemente, assumiu novas responsabilidades, nomeadamente enquanto Autoridade de Transportes, e passou a gerir o Contrato de Desenvolvimento e Coesão Territorial, que mobiliza cerca de 128 milhões de euros para o território.
“Celebrar 18 anos é reconhecer o caminho percorrido e poder afirmar, com orgulho, que o Alto Minho aprendeu a trabalhar em conjunto. É também reafirmar a ambição de construir um Alto Minho mais coeso, competitivo e sustentável. Os desafios que temos pela frente exigem uma cooperação cada vez mais forte entre os municípios, capacidade de inovação e uma visão partilhada para valorizar o território e melhorar a qualidade de vida das populações”, afirma o presidente da CIM Alto Minho, António Barbosa.
Com 18 anos de história, a CIM Alto Minho pretende continuar a aprofundar o trabalho em rede, a promover a articulação entre os municípios e a desenvolver respostas conjuntas aos desafios regionais, promovendo um território mais coeso e competitivo, com melhores oportunidades de desenvolvimento e qualidade de vida para as populações.
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Ronezete Antolini partilha em Lausanne experiência de maternidade atípica e cuidado emocional
Ronezete Antolini, 55 anos, vive em Zurique há 32 anos e construiu na Suíça um percurso que cruza experiência pessoal, maternidade, fé e acompanhamento emocional. Com dupla nacionalidade, brasileira e suíça, começou a trajetória profissional na gastronomia e trabalhou também como cuidadora, antes de direcionar a atividade para a área terapêutica. Atualmente, atua como Master Terapeuta e terapeuta emocional, com formação em Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG) e estudos relacionados com traumas, fobias, psicossomática e leitura corporal e comportamental, além da atividade como missionária e palestrante.
Foi a partir desta experiência que participou, no dia 26 de setembro, no “Conexão Global Suíça”, em Lausanne, integrado na edição “Setembro Amarelo de 2026”, evento realizado entre 24 e 27 de setembro nas instalações da Église du Centre. Na sua intervenção, Ronezete colocou a saúde mental no centro da reflexão, recorrendo à própria história para falar das marcas emocionais da infância, da procura de apoio terapêutico e da maternidade atípica. A mensagem que levou ao público partiu de uma aprendizagem pessoal: “para cuidar de outras pessoas, é necessário reconhecer também a necessidade de cuidar de si”.
A participação incluiu ainda um painel dedicado à saúde mental, no qual foram abordadas questões como depressão, síndrome do pânico, atendimento ao paciente, prevenção e procura de ajuda profissional. Ronezete integrou a conversa com o médico especialista Francisco Fernández e outras terapeutas, num espaço de perguntas e partilha de conhecimento. Em entrevista à Agência Incomparáveis, esta terapeuta faz um balanço da passagem por Lausanne, explica o trabalho que desenvolve atualmente através da TRG e deixa uma mensagem dirigida à comunidade lusófona sobre a importância de reconhecer o sofrimento emocional, procurar apoio qualificado e criar redes de acolhimento, sobretudo entre quem vive longe do país de origem.
Como foi a sua participação no “Conexão Global Suíça, edição Setembro Amarelo – Conectar é acolher”, em Lausanne?
Participei como palestrante no dia 26 de setembro de 2026, durante a programação da edição “Setembro Amarelo”, com o tema “Conectar é acolher”. O evento em Lausanne foi organizado pela empresária Ana Poltera, em conjunto com a “Conexão Global Suíça”. Também participei num painel de debate com o médico Francisco Fernández, no qual eu e outras terapeutas colocámos perguntas. Foi uma experiência especial de acolhimento e partilha de conhecimentos. Encontrar mulheres fortes, de diferentes profissões e com tantas histórias para partilhar, tornou este encontro marcante para mim.
Qual foi o tema central da sua palestra ou participação?
O “Setembro Amarelo” orientou o conjunto das palestras do evento. Na minha participação, abordei a saúde mental através da minha própria história. Partilhei os desafios da infância, as marcas emocionais que carreguei e as mudanças que vivi ao procurar apoio terapêutico. Falei também sobre a maternidade atípica e sobre como as necessidades da minha família me levaram à terapia. Nesse caminho, compreendi que precisava de cuidar primeiro de mim para poder cuidar de outras pessoas com responsabilidade e acolhimento. Quis mostrar a importância de olhar para a nossa mente, para as nossas emoções e para a nossa história com atenção e respeito. Encerrei com uma mensagem de esperança: a minha trajetória poderia inspirar outras pessoas a reconhecerem as suas possibilidades, procurarem apoio e darem os seus próprios passos.
Qual foi o retorno do público à sua palestra?
O retorno foi excelente. As pessoas pararam para ouvir a minha história com muita atenção e senti uma ligação forte com o público. Partilhar a minha trajetória e perceber esse acolhimento foi muito emocionante. Foi um momento marcante para mim.
E como foi a sua participação no painel de debate, especificamente?
Durante o encontro, participei num painel sobre saúde mental, no qual discutimos depressão, síndrome do pânico e atendimento ao paciente. Eu e outras profissionais colocámos perguntas ao médico Francisco Fernández, que respondeu às nossas questões. Foi uma partilha de conhecimentos muito enriquecedora e uma oportunidade para refletir sobre o cuidado e o acolhimento de quem procura ajuda.
Como foi a sua participação no “Fórum SABE” e que assunto abordou na entrevista com Aline Brandi?
Fui entrevistada por Aline Brandi no “Fórum SABE”, onde abordei o congelamento emocional. Conversámos sobre situações em que a pessoa sente que o corpo bloqueia, mesmo com o coração acelerado e uma intensa reação interna. Falámos sobre como experiências da infância podem influenciar as emoções e as reações na vida adulta, sobre o inconsciente e sobre o papel da terapia no cuidado emocional. Aline colocou várias perguntas e pude esclarecer o tema com exemplos e uma linguagem acessível. Foi uma oportunidade especial para trazer compreensão a uma experiência que muitas pessoas vivem, mas que nem sempre conseguem identificar ou explicar.
Que balanço faz desta edição do “Conexão Global Suíça” e da resposta do público às questões relacionadas com saúde emocional, acolhimento e prevenção abordadas durante os três dias?
Faço um balanço muito positivo. Ao longo dos três dias, o público demonstrou interesse e acolheu muito bem as conversas sobre saúde emocional, relações de casal, acolhimento e prevenção. Dentro da proposta do “Setembro Amarelo”, a prevenção do suicídio trouxe uma reflexão essencial: precisamos de estar atentos ao sofrimento do próximo, ouvir com respeito e ajudar a pessoa a procurar apoio profissional adequado. Para mim, o encontro reforçou a importância de falar sobre estes assuntos com sensibilidade e responsabilidade. Foi uma oportunidade para ampliar a consciencialização e lembrar que cada um de nós pode contribuir para que alguém se sinta acolhido e encontre ajuda.
Enquanto Master Terapeuta em TRG, que trabalho desenvolve atualmente e que tipo de situações procura acompanhar através desta abordagem terapêutica?
Atualmente, desenvolvo atendimento terapêutico emocional online através da Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG). Acolho pessoas que procuram apoio para lidar com marcas de experiências difíceis, traumas, medos, fobias, ansiedade, dependência emocional e bloqueios que afetam a sua vida e os seus relacionamentos. Também acompanho pessoas que apresentam sofrimento relacionado com rejeição, abandono, experiências de abuso e repetição de padrões emocionais. Tenho um olhar especialmente sensível para as mulheres e as mães atípicas, pela minha própria vivência, respeitando sempre a realidade de cada pessoa. Na TRG, o trabalho concentra-se no reprocessamento de experiências e respostas emocionais associadas ao sofrimento, sem depender apenas do relato detalhado dessas vivências. Procuro compreender a necessidade de cada pessoa e conduzir o acompanhamento com acolhimento, ética e respeito pelo seu ritmo. O meu compromisso é trabalhar dentro dos limites da minha atuação e reconhecer quando existe necessidade de outros cuidados profissionais.
A partir da sua experiência profissional, que resultados tem observado nas pessoas que acompanha e de que forma avalia a evolução de cada processo terapêutico?
Tenho observado mudanças positivas na forma como as pessoas compreendem as suas emoções e lidam com situações que antes lhes causavam sofrimento. Muitas reconhecem essa evolução e partilham comigo as diferenças que percebem no próprio dia a dia. Cada pessoa é única e o processo terapêutico precisa de respeitar a sua história, as suas necessidades e o seu ritmo. Avalio a evolução através da escuta, dos relatos da pessoa e das mudanças que observo ao longo das sessões. Considero como ela se sente perante as questões que a levaram a procurar atendimento e como essas questões passam a afetar a sua vida. Esse acompanhamento é contínuo: conversamos sobre os avanços e sobre aquilo que ainda precisa de atenção, ajustando o trabalho quando necessário. A evolução não acontece da mesma forma nem no mesmo tempo para todos. O meu compromisso é oferecer um cuidado ético, atento e dedicado, vendo a pessoa para além das suas dificuldades e respeitando a sua individualidade.
Depois da experiência em Lausanne, que mensagem considera importante deixar à comunidade de língua portuguesa no mundo sobre a procura de apoio emocional e a importância de reconhecer quando é necessário acompanhamento profissional?
A mensagem que desejo deixar é que cuidar da saúde emocional merece a mesma atenção que damos à saúde física. Procurar apoio é um gesto de coragem e de cuidado connosco próprios. Não precisamos de esperar que o sofrimento se torne insuportável para pedir ajuda. É importante reconhecer quando as dificuldades emocionais começam a afetar o sono, os relacionamentos, o trabalho ou as atividades do dia a dia. Quando sentimos que não conseguimos lidar sozinhos com aquilo que estamos a viver, procurar um profissional qualificado pode ser um passo importante. Para quem vive fora do seu país, a saudade, a adaptação cultural e as dificuldades com o idioma também podem trazer desafios emocionais. Poder expressar aquilo que sentimos na nossa língua e encontrar alguém que compreenda a nossa realidade pode facilitar essa procura por apoio. A família, os amigos e a comunidade têm um papel importante no acolhimento. Ouvir sem julgar, levar o sofrimento a sério e incentivar a procura de ajuda são atitudes que podem fazer a diferença. A fé é uma fonte de força na minha vida e pode caminhar lado a lado com o cuidado profissional. Não precisa de enfrentar tudo sozinho. A sua história merece respeito, a sua dor merece atenção e merece encontrar um espaço seguro para receber ajuda.
De que forma o público pode conhecer o seu trabalho?
As pessoas podem visitar o meu Instagram: @ronezeteantolini_
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Lufthansa entra na TAP com operação de 1,2 mil milhões de euros e aposta no Atlântico Sul
O Governo português selecionou esta quarta-feira, 14 de outubro, o Grupo Lufthansa para a privatização parcial da TAP Air Portugal, numa operação que poderá atingir 1.201 milhões de euros pela aquisição de até 49,9% do capital da companhia. A decisão foi tomada em Conselho de Ministros, depois da análise das propostas finais apresentadas pela Lufthansa e pela Air France-KLM, os dois grupos que chegaram à fase decisiva do processo.
O modelo prevê a aquisição de 44,9% da TAP pelo grupo alemão, podendo a participação chegar aos 49,9% caso os trabalhadores não exerçam o direito de aquisição dos 5% que lhes estão reservados. Nesta primeira fase, o Estado português manterá 50,1% da companhia. A conclusão da operação está prevista para o início de 2028, dependendo ainda da assinatura dos contratos e das aprovações regulatórias, incluindo o processo junto da Comissão Europeia.
A componente financeira teve peso na decisão. Segundo os dados apresentados pelo Governo, a proposta da Lufthansa superou em 163 milhões de euros a oferta da Air France-KLM. O Executivo considerou que as propostas dos dois concorrentes apresentavam condições técnicas e estratégicas próximas, tendo a diferença financeira contribuído para a escolha do grupo alemão.
Para a Lufthansa, a entrada na TAP reforça uma estratégia centrada no Atlântico. O grupo alemão destacou a posição da companhia portuguesa nas ligações entre a Europa, o Brasil e outros mercados da América Latina e manifestou a intenção de apoiar o crescimento da transportadora sem alterar, nesta fase, a sua identidade portuguesa.
“TAP Air Portugal é uma companhia aérea forte e rentável, nossa parceira de longa data na Star Alliance e internacionalmente bem-sucedida como transportadora de referência nas rotas do Atlântico Sul”, afirmou Carsten Spohr, presidente executivo da Deutsche Lufthansa AG, após o anúncio da decisão.
O responsável considerou que a escolha do Governo português abre caminho para a continuação do desenvolvimento da TAP integrada numa estrutura empresarial com maior dimensão internacional. A Lufthansa tem também assumido que participações maioritárias permitem aprofundar os benefícios de integração entre companhias, deixando aberta uma discussão futura sobre a estrutura acionista da transportadora portuguesa. Qualquer eventual segunda fase terá, contudo, de decorrer num processo autónomo.
A TAP também reagiu à decisão, dando as boas-vindas ao Grupo Lufthansa e considerando que a futura entrada do parceiro alemão permitirá beneficiar da dimensão, experiência e rede internacional de um dos maiores grupos de aviação da Europa.
A proposta escolhida mantém a marca TAP, a sede em Portugal e o hub de Lisboa. O plano prevê ainda o desenvolvimento da operação no Porto, onde poderão ficar baseadas oito aeronaves, além do reforço da frota e da atividade de Manutenção & Engenharia. A TAP deverá permanecer na Star Alliance, aliança aérea da qual faz parte desde 2005.
“Mais do que a entrada de um novo acionista, importa assegurar que esta parceria se traduz em oportunidades concretas de crescimento, numa TAP mais forte e competitiva e na criação de valor para Portugal”, afirmou Carlos Oliveira, presidente do Conselho de Administração da TAP.
Uma das principais vertentes do acordo está relacionada com o Atlântico Sul. A integração permitirá à Lufthansa aumentar a exposição ao mercado latino-americano através da rede da TAP, particularmente no Brasil. Segundo as projeções apresentadas pelo Governo, a quota conjunta de passageiros na América Latina poderá passar dos atuais 9% da Lufthansa para cerca de 20% quando considerada a operação combinada com a transportadora portuguesa.
A TAP deverá assumir, neste modelo, uma posição central nas ligações do grupo com o Brasil e com outros mercados de língua portuguesa. A companhia portuguesa é atualmente uma das principais operadoras aéreas entre a Europa e o Brasil e mantém também uma rede relevante para África, característica que esteve entre os ativos estratégicos valorizados ao longo da privatização.
A dimensão da operação terá igualmente impacto na posição do grupo no mercado internacional. De acordo com as projeções apresentadas pelo Executivo, a combinação entre Lufthansa e TAP poderá representar cerca de 47 mil milhões de euros em receitas, o que colocaria o conjunto como o maior grupo europeu de aviação em receitas e o quarto a nível mundial. Estes números representam uma projeção baseada na integração das atuais operações e não uma nova companhia já constituída.
Em número de passageiros, o conjunto poderá transportar cerca de 168 milhões de pessoas e reunir uma frota próxima das 942 aeronaves. O plano apresentado prevê que a frota própria da TAP aumente para 117 aviões até 2035 e possa chegar aos 130 após essa data, acompanhando também a futura entrada em funcionamento do novo aeroporto de Lisboa.
O crescimento projetado poderá representar entre três e quatro mil milhões de euros de investimento adicional na frota. Está ainda prevista a possibilidade de transferência de até oito Airbus A350-900 para a TAP depois de 2030, além da modernização da frota regional operada pela Portugália.
Outra componente da proposta incide sobre a manutenção aeronáutica. O plano prevê a integração da TAP Manutenção e Engenharia na rede da Lufthansa Technik e um investimento de cerca de 300 milhões de euros numa unidade industrial em Santa Maria da Feira, com a criação estimada de 700 postos de trabalho. Está também prevista uma iniciativa relacionada com formação aeronáutica em Tancos.
No mercado transatlântico norte, a TAP deverá beneficiar de uma futura integração na joint venture A++, estrutura de cooperação comercial que envolve companhias do universo Lufthansa e parceiros como a United Airlines e a Air Canada. A operação poderá ampliar as possibilidades de articulação de horários, ligações e distribuição no mercado entre a Europa e a América do Norte.
O Governo salientou ainda a preservação das ligações às regiões autónomas e aos países lusófonos, dois elementos que integravam as condições estratégicas estabelecidas para o processo de reprivatização. O reforço do Porto, o crescimento da frota e a manutenção das áreas industriais em Portugal também estiveram entre os critérios avaliados.
Apesar da decisão anunciada, a entrada da Lufthansa no capital da TAP não será imediata. O processo terá agora de passar pelas etapas contratuais e regulatórias. O Governo já admitiu que a análise por parte das autoridades europeias poderá prolongar-se entre 18 e 24 meses, razão pela qual a conclusão da primeira fase é apontada para o início de 2028.
Até lá, a TAP continuará a executar o plano estratégico definido para o período 2026-2035. A companhia chega a esta etapa depois de um processo de reestruturação apoiado pelo Estado português, que injetou cerca de 3,2 mil milhões de euros na transportadora ao longo da última década.
A escolha da Lufthansa encerra a fase competitiva entre os dois grupos europeus e inicia uma etapa centrada na negociação contratual, na avaliação regulatória e na preparação da entrada efetiva do novo acionista. Para a TAP, o processo coloca no horizonte uma integração numa estrutura aérea de maior escala, mantendo, nesta primeira fase, a maioria do capital nas mãos do Estado português e atribuindo ao Atlântico, ao Brasil e aos mercados lusófonos uma posição central na estratégia apresentada para os próximos anos.
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