Atualidade
“Tenho algum cuidado com a palavra “referência”, mas também não fujo ao que venho construindo”, explicou cantautor português Eddie
O percurso de Eddie, nome artístico de Edgar Pinto, ultrapassa há muito a dimensão de um “simples” cantor. Ao longo de mais de 20 anos, construiu uma carreira como compositor, produtor, fundador da EP-Produções Musicais e membro de algumas das mais prestigiadas instituições ligadas à indústria musical, acumulando distinções internacionais em Madrid, Hollywood, Los Angeles e, mais recentemente, Nova Iorque (Distinção Especial “Artista Influente na Música e Cultura Latina”). No centro desse percurso continua, contudo, a mesma convicção: o sucesso resulta de tempo, disciplina, trabalho e autenticidade.
Em entrevista à Agência Incomparáveis, o artista português revisitou os bastidores da construção do álbum “Todo a Su Tiempo”, fala das renúncias e escolhas que marcaram a sua carreira, reflete sobre a forma como encara o reconhecimento internacional e explica por que motivo continua a privilegiar a humildade e a aprendizagem permanente, mesmo depois de alcançar um lugar de destaque no panorama musical ibero-americano.
Ao longo da conversa, Eddie sublinhou ainda a relação entre Portugal, Espanha, a Lusofonia e a América Latina, o papel da produção musical no seu percurso, a responsabilidade de integrar organismos internacionais como a Recording Academy e a Latin Recording Academy e os desafios que continua a estabelecer para o futuro, numa carreira que considera estar longe de concluída.
O projeto “Todo a Su Tiempo” levou cinco anos a ser construído e chegou a mais de 20 milhões de plays, streams e visualizações. Quando olha para este percurso, que parte da caminhada considera que o público ainda não conhece: o trabalho, as renúncias, os silêncios ou as decisões que ficaram fora dos palcos?
Hoje é difícil falar do público como uma entidade única e estanque. Há públicos diferentes: quem acompanha há anos, quem chega por uma canção, quem descobre o trabalho por um vídeo, uma rádio, uma entrevista ou um palco. O alcance pode ser grande e, ao mesmo tempo, muito parcial. Mesmo depois de uma longa jornada, continuo a chegar a novos ouvintes. Posso ter tocado numa sala importante ou passado por uma rádio, uma televisão ou um festival e, no dia seguinte, noutro contexto, haver pessoas a ouvir-me pela primeira vez. Isso agrada-me, mantém-me atento, vivo e com os pés no chão. Por isso, quando olho para este percurso, penso sobretudo na parte que se vê de fora: as canções, os vídeos, os concertos, as entrevistas, os prémios e os resultados. Por trás de tudo isto existe uma parte menos exposta, que é a do silêncio. “Todo a Su Tiempo” levou cinco anos a ser construído, mas esses cinco anos não nasceram do nada. Trazem uma história de vida, muitos anos de música, estúdio, palco, viagens, investimento pessoal, dúvidas, escolhas difíceis e muita aprendizagem. Este álbum tem esse nome por alguma razão. Não foi feito à pressa, nem para responder a uma moda ou a uma tendência. Houve músicas que ficaram para trás, ideias que precisaram de amadurecer e momentos em que tive de parar para perceber se cada passo fazia sentido para mim. Também houve renúncias: tempo pessoal, tranquilidade, oportunidades e até alguns caminhos que talvez fossem mais rápidos, mas não eram necessariamente os meus. Talvez a parte menos conhecida seja essa: continuar a construir quando ainda não há aplauso, quando ainda não há palco, quando ainda não há números para mostrar. No meu caso, muita coisa também se construiu nesses dias em que ninguém estava a ver. Quem escuta a canção pode não conhecer todos os bastidores, mas percebe quando ela não nasceu por acaso.
Ao longo de mais de duas décadas de carreira, passou por estúdios, palcos, rádios, televisões, prémios e reconhecimento internacional. Que sacrifícios foram necessários para chegar a este patamar sem perder o controlo criativo, a identidade artística e a ligação às suas origens?
Mais do que falar de sacrifícios de forma dramática, prefiro falar de escolhas exigentes. No meu caso, estes anos não se fizeram apenas de inspiração. Houve disciplina, investimento, persistência e foco, mesmo quando a visibilidade e o retorno nem sempre corresponderam ao esforço colocado. Sendo artista, compositor, produtor e tendo passado tantos anos dentro de estúdios, acabei por olhar para cada projeto como um todo. Não penso apenas na canção isoladamente; penso na produção, interpretação, imagem, direção artística e na forma como tudo chega ao público. Isso dá-me autonomia, mas também aumenta muito a responsabilidade. O lado criativo e de estúdio é talvez o que me surge de forma mais natural. O lado mais exigente é muitas vezes a gestão humana e operacional de um projeto independente: coordenar pessoas, prazos, sensibilidades, decisões e recursos. Nem sempre existe uma estrutura grande por trás, e isso leva-me a estar em muitas frentes. Houve momentos em que foi preciso abdicar de descanso, tempo pessoal e tranquilidade para proteger uma visão. Não vejo isso como queixa. Faz parte da escolha. A música tem-me dado muito, mas pede entrega, consistência e capacidade de não me dispersar. Talvez um dos maiores desafios tenha sido manter foco e identidade sem fechar a minha música numa só linguagem. Ao longo do meu percurso cruzei-me com projetos, estilos, artistas e sensibilidades muito diferentes, e tudo isso alargou a minha forma de ouvir, criar e pensar a música. O meu caminho tem sido encontrar coerência dentro dessa diversidade, sem transformar a música numa fórmula.
Os prémios recebidos em Madrid, Hollywood, Los Angeles e Nova Iorque colocaram o seu trabalho num circuito internacional onde estão alguns dos grandes nomes da música. Como gere esse reconhecimento sem o transformar em vaidade, mantendo a humildade e a consciência de que a carreira continua em construção?
Reconheço o valor desses prémios e tenho orgulho neles. Não os vejo como um detalhe: dão peso ao percurso, reforçam credibilidade e mostram que o trabalho conseguiu sair do seu lugar de origem para ser escutado noutros contextos. Ao mesmo tempo, nenhuma distinção encerra uma carreira; faz-me continuar com mais critério. Também sei que ganhar um prémio não significa que toda a gente fique automaticamente a saber. A atenção está muito fragmentada entre públicos, países, meios e plataformas. Para mim, o reconhecimento também existe fora dos prémios: numa rádio, em palco, entrevistas, colaborações ou no respeito de alguém do meio artístico que reconhece valor no projeto. Ter passado tantos anos em estúdio e ter-me cruzado com grandes nomes da música ajuda-me a pôr as coisas em perspetiva. Por mais importante que seja uma etapa, há sempre trabalho a fazer: na canção seguinte, no próximo palco, no próximo projeto.
“Todo a Su Tiempo” parece traduzir uma ideia de maturação, paciência e persistência. Em que medida este álbum representa não apenas uma fase musical, mas também uma forma de estar na vida e na indústria, num tempo em que muitos artistas são pressionados a produzir depressa e a responder ao algoritmo?
“Todo a Su Tiempo” tem muito de vida antes de ser apenas um título de álbum. Eu acredito no trabalho, na preparação, na persistência e em fazer a minha parte. Ainda assim, há coisas que só acontecem quando encontram o momento certo. Na música sinto o mesmo: cada canção tem a sua maturação e a sua razão para chegar. Tenho uma relação muito própria com os discos e as canções. Não gosto de lançar só para cumprir calendário ou alimentar plataformas. Hoje é preciso comunicar, estar presente, perceber a indústria e acompanhar o ritmo das coisas. Faço parte dessa realidade, procuro apenas que a pressa não mande mais do que a própria música. Para mim, uma música chega melhor quando sinto que está pronta e que a posso levar ao público com convicção. Nem sempre é possível controlar todos os calendários, porque também há oportunidades, compromissos e pressões naturais do mercado. Ainda assim, tento não perder esse critério. Prefiro que uma canção chegue um pouco mais tarde, mas chegue com sentido.
O seu percurso cruza Portugal, Espanha, a Lusofonia e a América Latina, com uma identidade luso-ibérica que não procura “folclorizar” a origem nem diluí-la no mercado global. Como encontra esse equilíbrio entre pertencer a um território cultural e, ao mesmo tempo, dialogar com públicos de vários países?
Reconheço-me muito nesse cruzamento e nessa ideia de ponte entre lugares, culturas, línguas e formas diferentes de sentir a música. Nasci em Portugal, mas o meu percurso não ficou fechado ao lugar onde nasci. Fui vivendo, viajando, trabalhando e criando em contacto com outros lugares, sobretudo Espanha, com uma ligação forte a Madrid e à Andaluzia, e também com a Lusofonia e o universo latino. Não nasceu de uma estratégia; faz parte da minha vida. A Lusofonia tem uma dimensão familiar, afetiva e musical. Espanha entrou no meu percurso por presença real, trabalho, amizade, palco, estúdio e tempo vivido. A América Latina foi surgindo pela língua, pelas canções, pelos media, pelas colaborações e pelo diálogo natural com públicos que sentem a música de forma próxima. O equilíbrio está em deixar que essa vida apareça naturalmente na música.
Além de cantautor, é produtor, fundador da EP-Produções Musicais, membro votante da Recording Academy e da Latin Recording Academy, integra a Academia de la Música de España e a Sociedade Portuguesa de Autores. Como vive a responsabilidade de ser referência em várias esferas da música sem perder a inquietação de quem continua a aprender?
Vejo essa dimensão como parte do percurso que tenho vindo a construir. São mais de duas décadas de estúdio, produção, canções, palco, trabalho com outros artistas, academias e contacto com vários lados da música. Reconheço o peso desse caminho, mas prefiro vivê-lo como responsabilidade e não como estatuto. Tenho algum cuidado com a palavra “referência”, mas também não fujo ao que venho construindo. A EP-Produções Musicais foi decisiva nessa história. Não foi apenas um estúdio, embora essa tenha sido a face mais visível. A partir de 2006 aproximou-me da indústria musical e fez com que muitos artistas, editoras e profissionais conhecessem melhor o meu trabalho como produtor e a minha forma de acompanhar projetos. Mais tarde, esse percurso também alimentou a minha fase autoral e artística. Produzir passa muito por ouvir, perceber o que cada canção pede e criar as condições certas para que a música aconteça. As academias e associações acrescentam outra dimensão, porque ser membro votante e participar em estruturas ligadas a compositores, produtores, engenheiros e autores faz-me olhar para a música para além do meu próprio trabalho: a autoria, a qualidade técnica, os direitos dos criadores e as novas gerações. A inquietação continua porque a forma de fazer, produzir e comunicar música está em constante transformação. As tecnologias, o mercado e as formas de chegar ao público obrigam-me a rever formas de trabalhar sem perder critério. Cada canção e cada colaboração trazem uma dinâmica própria. Posso ter mais estrada e experiência acumulada, mas isso não me dispensa de estar atento e, muitas vezes, recomeçar.
Depois de prémios, reconhecimento internacional, milhões de visualizações e uma trajetória construída com tempo, que novos desafios ainda o movem? O que falta conquistar, não apenas em números ou distinções, mas em verdade artística, impacto cultural e legado?
O que me move é continuar a crescer, aprender, viajar, tocar, criar e levar o meu trabalho a novos lugares. Tudo o que já aconteceu até aqui conta, mas não substitui a vontade de fazer mais e melhor.
Depois de uma canção estar produzida e chegar ao público, começa outra etapa: perceber como ela vive depois, por uma rádio, um palco, outro país ou na memória de quem a recebe. Esse impacto interessa-me muito, porque nem tudo o que conta cabe numa estatística.
Sendo artista independente, tenho consciência de que nem sempre os recursos acompanham a dimensão das ideias. Gostava de poder levar algumas produções mais longe, com maior impacto cénico, mais estrutura e mais presença ao vivo. Tenho também muita vontade de ir em promoção e em concerto a mais países da Lusofonia, especialmente ao Brasil, onde sinto uma relação bonita através das redes e de algumas canções que tiveram muito boa receção. Também gostava de aprofundar ligações na América Latina e nos Estados Unidos, com alguns pontos naturais como Miami, Puerto Rico ou Nashville, e, mais à frente, regressar à Ásia.
Quanto ao legado, não penso nisso como monumento. Gostava que um dia, quem olhasse para o conjunto das minhas canções, discos, imagens, colaborações e produção percebesse uma história real, com fases, línguas e influências diferentes, mas reconhecível como minha.
Ígor Lopes
Atualidade
Funchal é palco do VII encontro “Homenagem às Migrações”
A Associação Diáspora no Mundo (ADNM) promove nesta próxima sexta-feira, 11 de setembro, às 20h, no Auditório do Jardim Municipal do Funchal, o VII Encontro “Homenagem às Migrações”, uma celebração da diversidade cultural que caracteriza a Madeira.
O evento reunirá mais de 16 representações de comunidades estrangeiras residentes em terras portuguesas, num espetáculo que pretende dar voz às diferentes culturas através da música, da dança, das tradições e das expressões artísticas.
Entre os convidados estão Alebrije – Folclore Mexicano em Portugal, Patche Di Rima, da Guiné-Bissau, Roni de Melo, do Brasil, e a dupla internacional Sandra&Ricardo, acompanhada pelos seus músicos, entre outros grupos e artistas residentes em Portugal.
Ao longo da noite estarão representados Brasil, Cuba, Venezuela, Egito, Inglaterra, República Dominicana, Guiné-Bissau, México, França, Chile, Argentina, África do Sul, Roménia, Espanha e Itália, numa verdadeira viagem cultural por diferentes partes do mundo.

“O Encontro “Homenagem às Migrações” é uma celebração da diversidade que diariamente enriquece a nossa Região. É um momento de encontro entre culturas, histórias e pessoas, que nos recorda que a diferença nos aproxima e que cada comunidade tem um contributo único para a construção de uma Madeira mais inclusiva, plural e solidária”, afirmou Lúcia Gomes, presidente da ADNM.
Com o apoio da Câmara Municipal do Funchal, o evento tem entrada livre e está aberto a toda a comunidade, convidando madeirenses, migrantes e visitantes a celebrar juntos a riqueza das diferentes culturas que hoje fazem parte da Região.
Apresentado por Carlos Nené Pereira, com esta iniciativa, a ADNM reafirma o seu compromisso com a valorização da diversidade cultural, a integração das comunidades migrantes e a promoção do diálogo intercultural, transformando o Funchal num verdadeiro ponto de encontro entre culturas.
Ígor Lopes
Atualidade
Lisboa: Diplomacia brasileira celebra relações com Portugal durante festa pelos 204 anos da Independência do Brasil
A Embaixada do Brasil em Lisboa celebrou, no dia 7 de setembro, o 204.º aniversário da Independência do Brasil com uma receção realizada na Residência Oficial do Embaixador da República Federativa do Brasil em Portugal, Raimundo Carreiro, e da embaixatriz Maria José de Ávila. A cerimónia decorreu entre às 18h e às 20h e reuniu autoridades portuguesas e brasileiras, representantes do corpo diplomático, membros da comunidade luso-brasileira e convidados institucionais.
O programa incluiu a execução dos hinos nacionais do Brasil e de Portugal pela Banda da Armada, com interpretação de Taiana Froes, seguida da intervenção do embaixador e de um momento de confraternização. Entre os presentes esteve o ex-Presidente da República portuguesa Marcelo Rebelo de Sousa, que acompanhou parte da cerimónia ao lado de Raimundo Carreiro.
À margem das celebrações, Raimundo Carreiro concedeu uma entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis e fez um balanço da evolução das relações entre Brasil e Portugal durante os quatro anos em que tem estado à frente da representação diplomática brasileira no país. Para o embaixador, cada celebração do 7 de Setembro realizada durante a sua missão tem permitido “acompanhar um processo contínuo de aproximação bilateral”.
Segundo Carreiro, a relação entre os dois países tem vindo a tornar-se mais estreita, com reflexos na presença da comunidade brasileira, no diálogo entre autoridades e nas relações económicas. O diplomata sublinhou que esta aproximação deve também ser compreendida a partir do percurso histórico iniciado com a própria Independência e com o posterior reconhecimento português da soberania brasileira.
Na entrevista, Raimundo Carreiro recordou que o reconhecimento ocorreu num contexto particular, marcado também pela relação familiar entre D. João VI e D. Pedro I. Segundo o embaixador, tratou-se de um reconhecimento entre pai e filho, acrescentando que o entendimento estabelecido naquele período apontava para uma união destinada a permanecer. O diplomata associou esse percurso histórico ao atual nível das relações bilaterais. Considerou que, ao longo dos 204 anos de independência brasileira, Brasil e Portugal procuraram construir uma relação assente na proximidade, que hoje se manifesta através da mobilidade das pessoas, da cooperação institucional, dos negócios e da presença crescente dos brasileiros na sociedade portuguesa.
O embaixador destacou ainda o papel desempenhado por Portugal no processo de aproximação comercial entre o Mercosul e a União Europeia. Segundo Carreiro, Portugal esteve entre os países europeus que apoiaram o entendimento e defenderam a conclusão do acordo, sendo também um dos Estados que poderão beneficiar do aumento das oportunidades de comércio e investimento entre os dois blocos.
O Acordo de Parceria entre o Mercosul e a União Europeia foi assinado em 17 de janeiro de 2026 e estabelece uma área económica que reúne aproximadamente 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto combinado superior a 22 biliões de dólares. A aplicação provisória do Acordo Provisório de Comércio começou em 1 de maio de 2026, enquanto prosseguem os procedimentos previstos para a entrada em vigor definitiva dos diferentes instrumentos jurídicos.
Para Raimundo Carreiro, a aproximação entre os dois blocos ultrapassa a dimensão comercial e representa também uma afirmação do multilateralismo num contexto internacional marcado por tensões económicas e geopolíticas. Neste cenário, Portugal ocupa, segundo o diplomata, uma posição relevante na ligação do Brasil ao espaço europeu, enquanto o Brasil assume igualmente uma função de ligação portuguesa à América do Sul.
Ao recordar os principais momentos da sua missão em Lisboa, o embaixador referiu ainda as comemorações do bicentenário da Independência, em 2022, quando o coração de D. Pedro I foi transportado de Portugal para o Brasil no âmbito das celebrações dos 200 anos, e as iniciativas que assinalaram, em 2025, os dois séculos do estabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países e do reconhecimento português da Independência brasileira.
Carreiro afirmou que acompanhar estes acontecimentos durante a sua missão representa uma “responsabilidade institucional e pessoal”, considerando que o posto de embaixador do Brasil em Portugal possui uma dimensão particular pela história partilhada pelos dois países.
Para Raimundo Carreiro, este percurso demonstra a continuidade de uma relação que, mais de dois séculos depois da separação política, permanece em processo de aproximação e consolidação.
Discurso oficial destacou relações bilaterais
Na abertura de seu discurso oficial, no início da noite, Raimundo Carreiro destacou o significado da celebração e a relação entre Brasil e Portugal.
“É uma grande satisfação recebê-los na Residência Oficial da Embaixada do Brasil em Lisboa para a celebração dos 204 anos da Independência do Brasil. A execução dos hinos nacionais do Brasil e de Portugal simboliza a amizade e o respeito que unem os nossos dois países”, declarou.
Ao abordar as relações bilaterais, o embaixador brasileiro recordou o bicentenário das relações diplomáticas e ressaltou o momento atual da parceria entre as duas nações.
“No ano passado, celebrámos o bicentenário do estabelecimento das relações diplomáticas entre Brasil e Portugal. Foi uma oportunidade para recordarmos a nossa trajetória comum, construída ao longo de dois séculos, e para projetarmos o futuro da parceria que une as duas nações. Em 2026, esse espírito de celebração continua a inspirar o fortalecimento dos laços entre os nossos dois países. O intenso diálogo político, o crescente intercâmbio cultural, a vitalidade das nossas diásporas e a expansão dos vínculos económicos mostram que Brasil e Portugal vivem um momento de consolidação das relações bilaterais”, destacou.
Na sequência, Raimundo Carreiro mencionou os contatos políticos e institucionais mantidos entre Brasil e Portugal.
“Em novembro passado, o primeiro-ministro português Luís Montenegro realizou uma visita ao Brasil para participar na COP30, em Belém. Em abril deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou Lisboa e reuniu-se com o primeiro-ministro e com o Presidente da República Portuguesa. Os laços de amizade entre os parlamentos continuam também a estreitar-se. Em abril, o Congresso Nacional brasileiro recebeu uma delegação da Assembleia da República Portuguesa, liderada por José Cesário. Em julho, recebemos em Lisboa o presidente do Supremo Tribunal Federal do Brasil, ministro Edson Fachin. As reuniões realizadas contribuíram para reforçar a cooperação entre os órgãos judiciais, tanto no plano bilateral como no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa”, assinalou.
Um dos pontos centrais do discurso foi a presença da comunidade brasileira em Portugal.
“Os brasileiros já representam cerca de 5% da população de Portugal. A sua presença é parte integrante da vida económica, social, académica e cultural portuguesa. A comunidade brasileira tem uma ligação muito forte com a sociedade portuguesa, favorecida pela língua comum, pelas afinidades culturais e pelos valores partilhados que aproximam os nossos povos. Essa realidade não nos impede de reconhecer os desafios que ainda persistem e de continuarmos a trabalhar em conjunto com as autoridades portuguesas para melhorar a integração da comunidade brasileira”, considerou o diplomata.
No plano econômico, Raimundo Carreiro referiu-se ao acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia como um marco para as relações entre as duas regiões.
“A entrada em vigor do acordo provisório de comércio entre o Mercosul e a União Europeia representa um marco histórico para as duas regiões, com reflexos positivos e duradouros para as relações do Brasil e também de Portugal. Depois de mais de duas décadas de negociações, inauguramos uma das maiores áreas de integração económica do mundo, com cerca de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto conjunto superior a 22 biliões de dólares. O apoio de Portugal foi decisivo para demonstrar que este acordo pode ser benéfico para ambas as partes”, declarou.
Segundo o embaixador, o acordo amplia as possibilidades para empresas portuguesas no mercado sul-americano.
“Fortemente integrada nas cadeias de valor europeias, a economia portuguesa passa a dispor de um canal ampliado para um mercado de aproximadamente 272 milhões de consumidores do Mercosul. Num cenário global marcado pela fragmentação e pela incerteza, esta parceria representa também um reforço do multilateralismo”, avaliou.
Raimundo Carreiro dedicou ainda parte do discurso às eleições gerais brasileiras de 2026 e à participação dos eleitores residentes em Portugal.
“No dia 4 de outubro, o Brasil realiza eleições gerais. Cerca de 158,7 milhões de pessoas estão habilitadas a votar. Em Portugal, são cerca de 135 mil eleitores brasileiros, o que representa aproximadamente 15% dos eleitores inscritos no exterior. Lisboa e Porto são, respetivamente, o primeiro e o terceiro maiores colégios eleitorais brasileiros fora do Brasil”, informou.
Ao tratar dos próximos grandes eventos internacionais no Brasil, Raimundo Carreiro destacou a realização da Copa do Mundo de Futebol Feminino da FIFA em 2027.
“O Brasil terá muito orgulho em receber o Campeonato do Mundo de Futebol Feminino da FIFA em 2027. Será a décima edição do torneio e a primeira realizada na América do Sul. Convido todos a visitarem o Brasil no próximo ano e a acompanharem de perto este grande evento”, afirmou.
O embaixador acrescentou que a realização da competição também deverá contribuir para discussões sociais.
“Realizar o Campeonato do Mundo de Futebol Feminino no Brasil representa um reconhecimento da força crescente da modalidade e do potencial das mulheres no desporto. É também uma oportunidade para colocar em debate questões sociais importantes, como o combate à violência e à desigualdade de género”, enfatizou.
Na parte final do discurso, Raimundo Carreiro voltou a destacar o estágio das relações bilaterais e a necessidade de continuidade do trabalho diplomático.
“Temos muito a celebrar no relacionamento entre Brasil e Portugal, mas assumimos também o desafio de continuar a trabalhar para concretizar as oportunidades que se abrem na nossa parceria bilateral”, ponderou.
O diplomata também mencionou a nova ligação aérea anunciada pela companhia brasileira GOL entre o Rio de Janeiro e Lisboa.
“A nova ligação direta entre o Rio de Janeiro e Lisboa será a primeira da companhia entre o Brasil e a Europa e representa mais uma ponte aérea entre dois países aproximados pela história e pelo afeto”, salientou.
Raimundo Carreiro citou ainda a ampliação da presença do Banco do Brasil em Portugal, com foco no atendimento a cidadãos, empresas e investidores, classificando a instituição como “uma ponte financeira entre os nossos dois países”.
A intervenção terminou com uma referência direta à data comemorativa e à relação bilateral.
“Viva a Independência do Brasil e a amizade entre Brasil e Portugal”, concluiu Raimundo Carreiro.
Recorde-se que Raimundo Carreiro apresentou as suas credenciais em Lisboa em março de 2022 e esta foi a quarta celebração do Dia da Independência realizada durante a sua gestão diplomática em Portugal.
Ígor Lopes
Atualidade
“IX Mercado da América Latina” regressa ao Estoril com três dias dedicados à cultura latino-americana
A Casa da América Latina em Lisboa e a Câmara Municipal de Cascais organizam, entre os dias 11 e 13 de setembro, a nona edição do Mercado da América Latina, na FIARTIL – Feira Internacional de Artesanato do Estoril, a oeste de Lisboa, com uma programação dedicada à cultura, ao empreendedorismo e à participação de toda a família.
O evento, cujos bilhetes serão colocados à venda em breve, regressa pelo nono ano consecutivo à FIARTIL, reunindo durante três dias diferentes expressões culturais dos países da América Latina e criando um espaço de encontro entre comunidades e público.
Na sexta-feira, 11 de setembro, o mercado estará aberto entre as 18h e as 23h30. No sábado, 12 de setembro, o horário será das 12h às 23h30, enquanto no domingo, 13 de setembro, o recinto funcionará das 12h às 21h.
A programação inclui artes plásticas e artesanato, permitindo dar visibilidade a diferentes manifestações artísticas e produtos associados às tradições latino-americanas.
A gastronomia tradicional terá também um lugar de destaque, com especialidades que permitem conhecer a diversidade de sabores e práticas culinárias existentes entre os vários países da região.
A música e a dança ao vivo completam a componente cultural do mercado, proporcionando momentos de animação e convívio ao longo dos três dias.
A iniciativa contará ainda com um espaço dedicado às crianças, onde serão desenvolvidas várias atividades dirigidas ao público mais jovem.
Além da vertente cultural, o Mercado da América Latina apresenta uma dimensão ligada ao empreendedorismo e à integração económica, procurando apoiar pequenos empresários migrantes que vivem em Portugal e que pretendem testar ou consolidar os seus projetos.
Este apoio permite aproximar os empreendedores do público e criar oportunidades para a divulgação de produtos, serviços e iniciativas desenvolvidas pelas comunidades migrantes, contribuindo para a consolidação dos seus projetos no país.
A iniciativa enquadra-se numa missão de aproximação entre comunidades e de divulgação das tradições da América Latina, associando a valorização cultural à promoção da economia e do empreendedorismo latino-americano em Portugal.
-
Atualidade4 anos atrásAgrária de Coimbra promove 9ª Edição do Curso de Fogo Controlado
-
Atualidade4 anos atrásLisboa: Leilão de Perdidos e Achados da PSP realiza-se a 08 de maio
-
Atualidade5 anos atrásCoimbra: PSP faz duas detenções
-
Atualidade4 anos atrásGuerra pode causar um ecocídio na Ucrânia
-
Atualidade3 anos atrásVisto CPLP não permite a circulação como turista na União Europeia
-
Atualidade2 anos atrásBarcelos: Município lança Cartão Jovem no decorrer do 1º Fórum da Juventude
-
Atualidade5 anos atrásSanta Marta de Penaguião coloca passadeiras 3D para aumentar a segurança rodoviária
-
Atualidade5 anos atrásCLIPSAS: Maçonaria Mundial reúne-se em Lisboa
