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Equipa da Universidade de Coimbra desenvolve frigoríficos e arcas congeladoras para zonas sem acesso a eletricidade

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Uma equipa de investigadores da Universidade de Coimbra (UC) desenvolveu um conjunto de protótipos eficientes e de baixo custo para refrigeração – frigoríficos e arcas congeladoras – alimentados a energia solar (painéis fotovoltaicos), para zonas onde não existe acesso a eletricidade.

Estes protótipos foram desenvolvidos ao longo dos últimos dois anos no âmbito do projeto “Energy-Efficient Off-Grid Refrigerators for Africa Rural Electrification”, liderado por investigadores do Instituto de Sistemas e Robótica (ISR) da UC e financiado pela Efficiency for Access Coalition (UK Aid, Governo do Reino Unido) e a IKEA Foundation, após ter sido selecionado num concurso internacional competitivo.

Smart controller (Foto: DR)

A equipa está também a desenvolver um controlador inteligente que monitoriza e controla as temperaturas dentro dos equipamentos, bem como a velocidade variável do compressor e os fluxos energéticos consumidos pelo sistema e gerados pelos painéis solares, visando que a temperatura interna seja estável, de modo a consumir a menor quantidade de energia possível.

Em particular, este projeto pretende implementar os resultados na África Subsariana, considerando que, “nesta parte do continente africano, cerca de 600 milhões de pessoas não têm acesso a eletricidade, o que impacta diretamente na qualidade de vida dessas pessoas. Os sistemas de refrigeração são essenciais para minimizar os desperdícios de alimentos e para melhorar a nutrição das populações, enquanto a refrigeração de vacinas garante a imunização necessária das comunidades, especialmente nas zonas rurais”, explica Evandro Garcia, investigador principal do projeto e aluno de doutoramento, orientado pelo professor catedrático Aníbal Traça de Almeida.

Evandro Garcia (Foto: DR)

Assim, salienta o investigador do ISR, este projeto terá impactos “muito significativos a nível económico, social e ambiental, especialmente em países em vias de desenvolvimento, onde o nível de desperdício de alimentos é elevado, os rendimentos são baixos, os serviços de saúde têm uma cobertura insuficiente e as condições de vida são bastantes precárias. Em zonas onde não há acesso a eletricidade, os sistemas de refrigeração eficientes e de baixo custo permitem melhorias significativas das condições de vida das famílias, por exemplo, o acesso a vacinas e a alimentos em mais quantidade e em melhores condições de conservação”.

Tendo em conta que as regiões em desenvolvimento se encontram, em grande parte, em zonas tropicais, a abundância de radiação solar “faz com que o uso de painéis fotovoltaicos seja o melhor caminho para a geração de eletricidade. A utilização de energia solar em frigoríficos adaptados para estas regiões permitiu que a equipa integrasse módulos para acumulação de energia sob forma de frio ao sistema. Estes módulos foram projetados e fabricados através de sistemas de impressão 3D e funcionam como ‘baterias térmicas’”, detalha Evandro Garcia.

Protótipo (Foto: DR)

Desta forma, prossegue o investigador, “durante o dia, o protótipo utiliza a energia gerada pelo sistema solar fotovoltaico para refrigeração do seu interior e para acumulação de frio nos módulos acima referidos. Durante a noite a temperatura é mantida devido à libertação do frio acumulado nos módulos, e o ciclo reinicia-se diariamente”.

Perante os resultados já obtidos, a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) concedeu uma bolsa de doutoramento para que Evandro Garcia, natural do Brasil, possa avançar ainda mais com a investigação e desenvolvimento dos protótipos.

Embora a solução criada pela equipa da UC tenha sido projetada para implementação em países em vias de desenvolvimento, na realidade, também pode ser adaptada a países industrializados: “frigoríficos com módulos de acumulação de frio podem ser usados em cidades, durante as horas em que a energia da rede elétrica é mais cara,  passando a refrigerar os alimentados através da libertação do frio acumulado nos referidos módulos de acumulação, proporcionando assim uma economia significativa às famílias, mas possibilitando também uma otimização do planeamento de energia na rede elétrica”, conclui o investigador.

Mais pormenores do projeto (Foto: DR)

Devido à conclusão bem-sucedida do projeto, a agência financiadora fez uma publicação na sua série de inovação, intitulada “Efficiency for Access Research and Develpment Fund: Innovator Series – ISR-UC”, detalhando mais o projeto. Também foram colocadas publicações em redes sociais para o público em geral, tanto pela Efficiency for Access como pela IKEA Foundation.

Fotos: DR.

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Cheias no Nepal provocam centenas de mortos e deixam portugueses entre as vítimas e desaparecidos

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Uma cidadã portuguesa morreu e um segundo cidadão nacional português, do sexo masculino, continua desaparecido na sequência da enxurrada que atingiu na quarta-feira, 26 de agosto, o norte do Nepal, junto à fronteira com o Tibete, numa catástrofe que já provocou pelo menos 292 mortos nos dois lados da fronteira e deixou mais de 1.300 pessoas por localizar.

A situação dos portugueses foi sendo atualizada ao longo das últimas horas. Inicialmente, o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) português confirmou uma cidadã portuguesa entre os desaparecidos. A mulher encontrava-se integrada num grupo junto ao posto fronteiriço do lado nepalês quando a massa de água, lama e detritos atingiu a região. A portuguesa foi posteriormente encontrada sem vida, informação avançada pela RTP.

Mais tarde, o MNE confirmou um segundo cidadão português desaparecido, desta vez um homem. A diplomacia portuguesa indicou que acompanha a situação e mantém contactos relacionados com as operações em curso. Até à atualização disponível esta quinta-feira, 27 de agosto, não tinha sido divulgada informação sobre a localização deste cidadão.

Há, contudo, outros cidadãos portugueses no Nepal que se encontram em segurança. Um grupo de 16 portugueses, acompanhado pelo operador turístico Nélson Vieira, encontrava-se na quarta-feira na cidade de Gorkha, a cerca de 350 quilómetros da zona diretamente atingida. Segundo declarações prestadas à RTP, os viajantes estavam bem e em segurança e tinham previsto prosseguir a viagem, realizando de avião o último percurso até Katmandu. A maioria dos elementos deste grupo é, segundo fontes, da Gafanha da Nazaré, no concelho de Ílhavo.

O Governo português já transmitiu solidariedade às autoridades e à população do Nepal. O Ministério dos Negócios Estrangeiros manifestou apoio às famílias afetadas e às equipas envolvidas nas operações de busca e salvamento, numa altura em que a dimensão da catástrofe continua a ser apurada.

O balanço de vítimas sofreu sucessivas revisões desde quarta-feira. Na atualização divulgada esta quinta-feira, a polícia nepalesa elevou para 289 o número de mortos no Nepal. As autoridades chinesas contabilizam, por sua vez, três mortos no Tibete, colocando em pelo menos 292 o número de vítimas mortais nos dois lados da fronteira.

No Nepal, pelo menos 826 pessoas permanecem por localizar, segundo os números da Autoridade Nacional para a Redução e Gestão do Risco de Catástrofes. No Tibete, as autoridades chinesas elevaram para 558 o número de desaparecidos, entre os quais 260 estrangeiros. Considerados os dados divulgados pelos dois países, mais de 1.300 pessoas continuam desaparecidas na região atingida.

A dimensão internacional da tragédia tornou-se também mais clara à medida que as autoridades atualizaram as listas de pessoas incontactáveis. O Nepal Tourism Board contabilizou 644 turistas desaparecidos no lado nepalês, dos quais 517 são estrangeiros e 127 nepaleses. Entre os estrangeiros encontram-se cidadãos de mais de 30 países. A Índia apresenta o maior número de turistas desaparecidos, seguida pelos Estados Unidos, Ucrânia, Malásia, Austrália, Reino Unido e Canadá. Portugal consta igualmente da relação de nacionalidades afetadas.

As operações de busca e salvamento prosseguem por terra e pelo ar, com recurso a forças policiais, militares, helicópteros e outros meios de emergência. As autoridades nepalesas indicaram, entretanto, que 445 pessoas foram resgatadas com vida nas últimas horas, entre as quais 27 estrangeiros, enquanto as equipas continuam a percorrer áreas junto aos rios e localidades atingidas.

A enxurrada entrou no Nepal a partir da região tibetana e atingiu o sistema do rio Bhotekoshi, avançando depois para os rios Trishuli e Narayani. Timure, Rasuwagadhi e Syabrubesi, no distrito de Rasuwa, ficaram entre as localidades diretamente afetadas, mas os efeitos da massa de água e detritos prolongaram-se por vários distritos a jusante.

Uma avaliação técnica do Departamento de Hidrologia e Meteorologia do Nepal indica que as autoridades receberam, pelas 09h05 locais de quarta-feira, informação de que uma cheia de grandes dimensões tinha entrado no Bhotekoshi proveniente do Tibete. Cerca de dez minutos depois começaram a ser enviados alertas para populações instaladas junto aos rios em Rasuwa, Nuwakot, Dhading e Chitwan. Mais de 600 mil mensagens de aviso foram emitidas à medida que a onda avançava.

As causas exatas continuam sob análise. Os primeiros relatos referiram um possível sismo, mas avaliações posteriores apontam para um colapso de gelo e rocha numa zona glaciar, seguido pela formação e rutura de uma barreira temporária de detritos que terá libertado uma grande quantidade de água para o sistema fluvial.

Imagens de satélite analisadas pelas autoridades indicam que uma avalanche de gelo e detritos terá bloqueado o curso de água cerca de 20 quilómetros acima da ponte de Miteri, formando temporariamente uma massa de água que acabou por romper a barreira. O Departamento de Hidrologia e Meteorologia do Nepal ressalva, contudo, que se trata ainda de uma avaliação preliminar e que a sequência completa do fenómeno permanece em investigação.

O evento sísmico inicialmente interpretado como um terramoto foi igualmente objeto de revisão. O Serviço Geológico dos Estados Unidos registou atividade sísmica na região, mas análises posteriores relacionaram o sinal com o colapso de uma grande massa de gelo, rocha e detritos, e não necessariamente com um sismo tectónico na origem da catástrofe.

A força da corrente destruiu habitações, estabelecimentos, pontes, estradas e instalações ligadas à produção hidroelétrica. As autoridades nepalesas contabilizaram danos em dezenas de pontes e em vários quilómetros de estradas. A ligação rodoviária entre Betrawati, em Nuwakot, e a passagem fronteiriça de Rasuwagadhi sofreu danos ao longo de cerca de 42 quilómetros, dificultando o acesso terrestre às áreas mais afetadas.

As dificuldades de comunicação, o terreno montanhoso e a destruição das vias continuam a condicionar as equipas de emergência. Hospitais em Katmandu receberam sobreviventes e familiares à procura de informações, enquanto as autoridades afixaram listas e fotografias para apoiar o processo de identificação das vítimas e de localização das pessoas dadas como desaparecidas.

A catástrofe ocorre numa região dos Himalaias particularmente exposta a deslizamentos, cheias repentinas, avalanches e fenómenos associados a lagos glaciares. Em julho de 2025, a mesma área do rio Lhende, próximo da fronteira entre o Nepal e a China, já tinha sido atingida por uma cheia associada à rutura de um lago glaciar.

Enquanto prossegue a identificação das vítimas e a procura dos desaparecidos, as autoridades alertam que os números continuam provisórios e sujeitos a alterações frequentes. Para Portugal, a prioridade mantém-se no acompanhamento do cidadão português que permanece desaparecido e no apoio relacionado com a vítima mortal e os restantes nacionais que se encontram no Nepal.

O secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa, indicou que os cidadãos portugueses que se encontrem no Nepal, bem como familiares que necessitem de informações ou apoio relacionado com a catástrofe, devem contactar o Gabinete de Emergência Consular do MNE, disponível 24 horas por dia. Os contactos são o telefone +351 217 929 714, o telemóvel de emergência +351 961 706 472 e o endereço eletrónico gec@mne.pt

O governante reforçou a importância de os portugueses afetados ou ainda não contactados pelas autoridades utilizarem estes canais para comunicar a sua situação e permitir o acompanhamento pelos serviços consulares portugueses. Os números constam igualmente dos canais oficiais do Governo português para assistência a cidadãos no estrangeiro.

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GNR reforça capacidade de resposta em ambientes de montanha com mais de 400 intervenções da Unidade de Emergência de Proteção e Socorro desde 2024

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A Unidade de Emergência de Proteção e Socorro (UEPS) da Guarda Nacional Republicana (GNR) contabiliza mais de 400 intervenções operacionais desde 2024 no âmbito da sua valência de busca e resgate em ambientes de montanha, num trabalho que envolve operações de localização, salvamento e evacuação em zonas de elevada complexidade e risco.

A atuação da UEPS integra uma capacidade especializada da GNR para operações de busca e resgate em ambientes de montanha, assegurada por equipas preparadas para localizar, assistir e evacuar pessoas em terrenos acidentados ou de acesso condicionado e perante condições particularmente exigentes.

Desde 2024, esta capacidade permitiu à unidade realizar mais de 400 intervenções operacionais, refletindo a importância da resposta especializada em diferentes contextos de montanha.

A atividade operacional abrange diferentes zonas do território nacional, incluindo áreas como a Serra da Estrela, o Parque Nacional da Peneda-Gerês e a Região Autónoma da Madeira.

A diversidade dos locais de intervenção implica respostas adaptadas às características de cada território e às condições encontradas pelas equipas durante as operações.

Na Serra da Estrela, as características do território e as condições meteorológicas podem criar cenários particularmente exigentes para as operações de busca e resgate, obrigando as equipas a atuar em terrenos de elevada altitude e com acessos condicionados.

No Parque Nacional da Peneda-Gerês, a complexidade do território constitui também um desafio para a localização e retirada de pessoas em situação de emergência, sobretudo em zonas de difícil acesso.

Na Madeira, a atuação em ambientes montanhosos apresenta características próprias, associadas à orografia da região e à existência de áreas com acessibilidade limitada.

A intervenção nestes diferentes territórios demonstra a necessidade de uma capacidade operacional preparada para responder a cenários distintos, ajustando os meios e procedimentos às características concretas de cada ocorrência.

Para além da resposta a situações de emergência, a segurança em ambientes de montanha depende também da adoção de comportamentos preventivos por parte de quem realiza atividades nestes espaços.

A GNR recomenda, nesse sentido, que os praticantes tenham em consideração as características do percurso, as condições meteorológicas e o grau de dificuldade da atividade antes de iniciarem uma deslocação em ambiente montanhoso.

O planeamento adequado do percurso e a preparação necessária para a atividade podem contribuir para reduzir a exposição a situações de risco e facilitar uma eventual resposta em caso de emergência.

A informação sobre o trajeto, as condições existentes e os meios disponíveis para comunicar uma situação de perigo assume também relevância numa atividade realizada em zonas onde o acesso pode ser condicionado.

Ígor Lopes

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“Portugal não termina nas suas fronteiras, continua onde existir um português”

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No âmbito do IV Encontro da Federação das Associações da Diáspora (FAD), realizado em Viseu, no centro-norte de Portugal, entre os dias 8 e 9 de agosto, o primeiro-secretário da FAD, João Paulo Rocha, defendeu uma visão da diáspora assente na criação de pontes entre Portugal e os portugueses espalhados pelo mundo.

Foi precisamente a partir deste entendimento sobre o papel da diáspora que, em entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis, João Paulo Rocha revisitou o seu percurso pessoal, profissional e associativo, iniciado aos 17 anos e meio no setor ferroviário e desenvolvido ao longo de 37 anos, em paralelo com uma crescente intervenção cívica ligada à FAD, à Câmara de Comércio e Indústria Luso-Balear, à Casa de Portugal de Maiorca e ao movimento confrádico.

Ao longo da conversa, o responsável abordou ainda os desafios da renovação geracional do associativismo, a criação de uma rede internacional de mandatários da FAD, o potencial económico da diáspora, a preservação da cultura e das tradições portuguesas, a importância da música na aproximação às novas gerações e os projetos de cooperação com entidades associativas e culturais, defendendo uma diáspora capaz de transformar a dispersão geográfica numa verdadeira rede internacional.

O seu percurso teve início na área ligada às infraestruturas, correto?

Sim, ao sector ferroviário, onde aos 17 anos e meio iniciei na área da topografia, tendo passado pelas expropriações, gestão de frota, apoio a área internacional e com uma pequena passagem pela comunicação e área operacional onde ainda hoje me insiro, são 37 anos dedicados a uma área de grande sensibilidade e de enorme importância para o país e alias uma área que tem um lema com o qual me identifico e trabalho diariamente pro bono que é a de “ligar destinos”.

O seu percurso enquanto dirigente associativo cruza atualmente diferentes áreas: gestão, a diáspora, a economia e a cultura. Como se define enquanto dirigente e gestor?

Talvez, acima de tudo, como alguém que acredita na capacidade de criar pontes. Pontes entre pessoas, instituições, empresas, associações e comunidades. Portugal tem uma realidade muito particular: somos um país pequeno em território, mas enorme na sua presença no mundo. A nossa diáspora é uma extensão natural de Portugal e deve ser encarada como uma força, não apenas como uma realidade distante. É precisamente nessa perspetiva que tenho procurado desenvolver a minha atividade “pro bono público” na Casa de Portugal de Maiorca onde sou sócio e representante em Portugal, Federação das Associações da Diáspora onde sou primeiro-secretário, no Sindicato SNTF onde sou membro da mesa do concelho fiscal, mas também através da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Balear onde desempenho a função de Secretário-Geral e mais recentemente a minha ligação ao movimento confrádico entre outras.

É atualmente primeiro-secretário da Direção da FAD. O que significou assumir essa responsabilidade?

É uma grande responsabilidade, pois significa ter a capacidade de criar ordem a partir do caos, lançar luz sobre os caminhos e contribuir para a construção de um propósito comum. No que à FAD diz respeito, temos perante nós um desafio muito importante: representar, aproximar e dar voz às associações da diáspora, mas também ajudar a preparar o associativismo para o futuro. Não podemos continuar a olhar para as comunidades portuguesas apenas através dos modelos de há 30 ou 40 anos. Torna-se necessário construir novas pontes, fortalecer os laços que nos unem e preparar, com espírito de união e fraternidade, os caminhos que queremos deixar às próximas gerações. As comunidades mudaram, os portugueses mudaram e as novas gerações têm outras formas de comunicar, de participar e de se relacionar com Portugal. A Federação tem de acompanhar essa transformação.

No “IV Encontro da FAD”, em Viseu, nas últimas semanas, falou precisamente da necessidade de renovação…

Sim. A renovação geracional é um dos grandes desafios que temos pela frente. Muitas associações foram construídas com enorme sacrifício por homens e mulheres que emigraram há décadas. Devemos-lhes muito. Mas temos de garantir que esse trabalho não termina com essas gerações. Precisamos de criar espaço para os jovens, ouvir as suas ideias e dar-lhes responsabilidades. Não podemos pedir-lhes simplesmente que continuem a fazer aquilo que os seus pais e avós fizeram. Temos de lhes permitir construir o associativismo do seu tempo.

Disse em Viseu uma frase que acabou por marcar o encontro: “Portugal não termina nas suas fronteiras. Portugal continua onde existir um português”. O que quis transmitir?

Quis transmitir uma ideia muito simples: a comunidade portuguesa não acaba quando alguém atravessa uma fronteira. Um português que vive em França, na Alemanha, no Luxemburgo, no Brasil, nos Estados Unidos, na Venezuela ou nas Baleares continua a fazer parte de Portugal. A diáspora não deve ser vista apenas como algo que está fora. É uma parte de nós. Portugal não termina nas suas fronteiras. Continua onde existir um português.

Uma das apostas da FAD passa pela criação de uma rede internacional de mandatários. Por quê?

Porque uma Federação que pretende representar associações espalhadas pelo mundo não pode estar distante delas. Precisamos de pessoas no terreno, que conheçam as comunidades, que conheçam as associações, que percebam as suas dificuldades e que possam estabelecer uma ligação permanente com a direção da FAD. A rede de mandatários pretende precisamente criar essa proximidade. Queremos que a FAD esteja presente na Europa, na América do Norte e do Sul, em África, na Ásia e na Oceânia. Não queremos uma rede apenas no papel. Queremos uma rede humana, feita de pessoas que tenham vontade de servir as comunidades.

A sua atividade passa também pela Câmara de Comércio e Indústria Luso-Balear como secretário-geral. Como é que a economia se relaciona com a diáspora?

A diáspora tem uma enorme dimensão económica que nem sempre é suficientemente valorizada. Os portugueses espalhados pelo mundo são empresários, profissionais, investidores e empreendedores. Existem relações comerciais, conhecimentos, contactos e oportunidades que podem ser potenciados. O mundo global não são só os mercados mais apetecíveis, existem janelas de oportunidade que estão muito mal exploradas porque, por vezes, o que consideramos estar mais perto não exploramos e o mercado balear é um mercado dinâmico internacional e uma base importante no mercado da bacia do Mediterrâneo, que temos de explorar. Na CCLB procuramos precisamente aproximar Portugal das Ilhas Baleares e criar condições para que empresas, empresários e instituições possam encontrar interesses comuns. A assinatura do protocolo de cooperação entre a FAD e a CCLB representa também essa vontade de aproximar o associativismo da dimensão económica.

Portanto, a diáspora pode ser também uma plataforma económica, certo?

Sem dúvida, ela já o é em alguns países e, embora os números de portugueses não sejam tão expressivos nas Baleares como no resto da nossa diáspora, sempre são perto de 6000, e se contarmos com os residentes da CPLP aí o número de consumidores do mercado português sobe consideravelmente. Mas não devemos reduzir a diáspora à economia. A economia é uma das suas dimensões. A diáspora é cultura, é língua, é memória, é identidade, mas também é conhecimento, capacidade empresarial e relações internacionais. Quando conseguimos juntar essas dimensões, podemos criar projetos muito interessantes.

Há ainda uma dimensão cultural no seu percurso, através da Confraria de Saberes e Sabores da Beira “Grão Vasco”…

A cultura é absolutamente fundamental, porque é através dela que compreendemos quem somos, de onde vimos e que caminho queremos construir para o futuro. Nascido em Viseu, na então Casa de São Mateus, hoje Hospital Particular, na afamada Reta do Caçador, tenho, desde sempre, uma ligação muito forte e afetiva a esta região. Foi, contudo, numa aldeia do concelho de Vouzela, Cambra, que vivi a minha meninice até aos 12 anos. Como acontece com muitos portugueses, fui registado numa outra aldeia do mesmo concelho, Vermilhas, também conhecida por Carvalhal de Vermilhas, hoje geminada, do ponto de vista autárquico, com a aldeia onde cresci. Foi também a Cambra que regressei durante grande parte dos fins de semana e onde passei muitas das minhas férias. É ali que continuam a viver os meus pais, que procuro visitar sempre que me é possível, assim como os amigos e as pessoas que fizeram parte da minha infância e que continuam ligados à minha vida. Toda esta região, integrada em Lafões e no distrito de Viseu, representa muito mais do que um lugar de origem. São terras que guardam as minhas primeiras memórias, que contribuíram para a minha formação enquanto pessoa e que, inevitavelmente, fazem parte da minha identidade. É nesta paisagem humana e geográfica, entre Viseu, Vouzela, Cambra e Vermilhas, que encontro uma parte essencial das minhas raízes, das minhas memórias e do sentimento de pertença que continuo a transportar comigo, mesmo quando a vida me leva para outros caminhos. Esta ligação à cultura e às tradições começa na própria família. O meu avô paterno foi dirigente associativo de uma Banda Filarmónica e o meu avô materno foi regedor. Mais recentemente, os meus próprios pais fizeram também parte, durante alguns anos, de um grupo de cantares tradicionais. Portanto, a cultura, a tradição, a música e o associativismo não são para mim apenas conceitos ou temas sobre os quais falo: fazem parte da minha história familiar e da minha própria identidade. Costumo dizer que somos a súmula de um passado, de um presente que vivemos e das aprendizagens que nos projetam para o futuro. Somos aquilo que recebemos, mas também aquilo que aprendemos com os outros e aquilo que somos capazes de transmitir às gerações seguintes. É nessa aprendizagem permanente, feita de experiências, de pessoas, de histórias e de territórios, que conseguimos compreender melhor as necessidades reais do nosso país e da nossa sociedade. Foi nesse espírito que, no dia 9 de agosto, fui elevado a Confrade. Recebo esta distinção com enorme honra, mas sobretudo com um profundo sentido de responsabilidade. O movimento confrádico desempenha um papel muito importante na preservação dos saberes, dos sabores, das tradições e da memória coletiva. A nossa identidade não está apenas nos livros, nos arquivos ou nos monumentos. Está também na gastronomia, nos produtos da nossa terra, na música, nas tradições, nas pessoas e nas histórias que passam de geração em geração. E esta identidade assume uma importância ainda maior quando falamos da diáspora portuguesa. Para quem vive longe de Portugal, a cultura é muitas vezes uma das pontes mais fortes com a terra de origem. É através da gastronomia, da música, das tradições, da língua, das memórias familiares e das comunidades que se mantém vivo esse sentimento de pertença. Aliás, a Confraria de Saberes e Sabores da Beira “Grão Vasco”, com sede em Viseu, é um excelente exemplo desta capacidade de levar a cultura portuguesa para além-fronteiras. A Confraria tem vindo a expandir a sua presença internacional através de delegações, núcleos e protocolos com associações da diáspora, nomeadamente em França, no Brasil, na Suíça e, mais recentemente, no Reino Unido. Este trabalho demonstra que a cultura não conhece fronteiras e que as nossas tradições podem ser, simultaneamente, uma forma de preservar as nossas raízes e de aproximar comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Preservar a cultura não significa ficar preso ao passado. Significa compreender o passado para valorizar o presente e construir melhor o futuro. É manter viva a memória, mas também saber reinventá-la e transmiti-la às novas gerações, de uma forma que continue a fazer sentido num mundo em permanente transformação. É também por isso que considero que o movimento confrádico, o associativismo e a diáspora podem caminhar lado a lado. Todos têm a capacidade de preservar a nossa identidade, aproximar pessoas, criar pontes entre Portugal e as suas comunidades no estrangeiro e transmitir às novas gerações aquilo que recebemos das anteriores. Afinal, somos verdadeiramente a súmula de um passado, de um presente e de um futuro que estamos, todos os dias, a ajudar a construir. E talvez seja essa uma das maiores responsabilidades que temos: receber o legado daqueles que nos antecederam, valorizá-lo no presente e entregá-lo às gerações futuras ainda mais vivo, mais forte e mais universal. E essa identidade tem uma importância muito particular quando falamos da diáspora.

Por quê?

Porque quando um português leva consigo a sua cultura para outro país, leva também uma parte de Portugal. A gastronomia, a música, as tradições e a língua são instrumentos extraordinários de ligação. Por isso acredito que o movimento associativo e o movimento confrádico podem trabalhar muito mais em conjunto.

É essa ideia que está por detrás de alguns dos projetos que está a desenvolver?

Exatamente. Este é, aliás, um caminho que também estamos a procurar aprofundar através da própria diáspora. No passado dia 8 de agosto, durante o 4.º Encontro das Associações da Diáspora, a Federação das Associações da Diáspora (FAD) assinou um protocolo de cooperação com a Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto (CPCCRD), reforçando uma relação que pretende aproximar instituições, associações e comunidades em torno da cultura, do associativismo e da valorização da nossa identidade. Neste momento, estamos também a iniciar um projeto conjunto entre a Federação das Associações da Diáspora, a Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto e a Casa Portuguesa de Maiorca, com o objetivo de levar a cultura portuguesa às Ilhas Baleares. Queremos que este seja mais do que um projeto cultural: queremos que seja uma verdadeira ponte entre Portugal e a sua diáspora, criando oportunidades para divulgar os nossos saberes, sabores, tradições, música, património e identidade.

Por quê começar pela música?

Porque a música tem uma capacidade extraordinária de unir pessoas. Um coro pode juntar gerações, associações e comunidades. Não é necessário falar a mesma língua para compreender uma canção. E quando falamos de comunidades portuguesas, os coros podem ser também uma forma de aproximar os mais jovens da nossa cultura.

Esse projeto poderá ser replicado noutros países?

Essa é precisamente a nossa intenção. Maiorca pode ser um primeiro passo. Se conseguirmos criar um modelo de cooperação entre associações, instituições culturais e comunidades portuguesas, podemos depois levá-lo a outros países. A FAD deve ser também um espaço onde os projetos possam nascer, ser experimentados e depois replicados.

Voltamos, assim, à ideia de “ponte”…

Sim. É uma palavra que me acompanha muito. Uma ponte não existe para ficar parada. Existe para permitir que as pessoas passem de um lado para o outro. É isso que devemos fazer enquanto dirigentes: aproximar Portugal das comunidades e aproximar as comunidades de Portugal.

E como se consegue envolver os jovens nesse processo?

Primeiro, temos de os ouvir. Não podemos falar permanentemente sobre os jovens sem falar com eles. Depois temos de lhes dar espaço. Se queremos que participem, temos de lhes confiar responsabilidades. E temos de utilizar as ferramentas que eles utilizam. A comunicação digital, as redes sociais, os projetos internacionais, a música, a cultura, o empreendedorismo e a inovação podem ser portas de entrada para uma nova participação associativa. O associativismo do futuro terá necessariamente de ser mais aberto, mais digital e mais internacional.

Há quem diga que o movimento associativo português atravessa uma crise. Concorda?

Eu prefiro falar de transformação. Existem dificuldades, naturalmente. Algumas associações envelheceram, outras perderam capacidade de mobilização e muitas enfrentam dificuldades para encontrar dirigentes e voluntários. Mas também vejo oportunidades enormes. Temos uma nova geração de portugueses altamente qualificados, ligados digitalmente ao mundo e com uma relação muito forte com Portugal. O nosso trabalho deve ser criar condições para que essa geração descubra no associativismo uma ferramenta para participar e não apenas uma obrigação herdada.

Que papel deve ter a FAD nesse processo?

A FAD deve ser uma plataforma. Uma plataforma de ligação, de cooperação e de conhecimento. Não queremos substituir as associações. Queremos fortalecê-las. Queremos que uma associação portuguesa na Alemanha possa beneficiar da experiência de outra no Luxemburgo; que uma associação em Maiorca possa conhecer um projeto desenvolvido em França; que uma coletividade no Brasil possa estabelecer uma parceria com uma entidade em Portugal. Temos de transformar a dispersão numa rede.

E qual é, afinal, o futuro que imagina para a diáspora portuguesa?

Imagino uma diáspora mais ligada, mais participativa e mais reconhecida. Uma diáspora onde os jovens tenham voz, onde as associações trabalhem em rede, onde a cultura e a economia possam caminhar lado a lado e onde Portugal compreenda que os portugueses espalhados pelo mundo são uma enorme mais-valia. Não podemos olhar para a diáspora apenas como uma consequência da emigração. Devemos olhar para ela como uma das grandes forças de Portugal no mundo.

Se tivesse de resumir o seu próprio compromisso numa frase, qual seria?

Diria que quero ajudar a construir pontes. Pontes entre Portugal e a diáspora. Entre gerações. Entre associações. Entre cultura e economia. Entre tradição e futuro. Porque acredito que temos uma enorme responsabilidade: preservar aquilo que recebemos, mas sobretudo criar condições para que aqueles que vêm depois de nós tenham vontade de continuar. E, no fundo, é isso que significa servir a diáspora: não falar apenas dos portugueses que estão longe, mas trabalhar para que, onde quer que estejam, continuem a sentir que Portugal também é deles.

Ígor Lopes

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