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Voleibol de Praia: “Vibrar com as emoções” no Challenge de Espinho

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Após ter acolhido durante décadas, e, mais recentemente, em 2018 e 2019, etapas do Circuito Mundial de Voleibol de Praia (FIVB Beach Volleyball World Tour), a cidade de Espinho volta a estar na rota dos melhores atletas mundiais de Voleibol de Praia.

O FIVB Beach Pro Tour Challenge de Espinho, que se realiza de 14 a 17 de julho na famosa Praia da Baía, manterá a tradição em termos de competitividade e espetacularidade, para o que conta com a participação de duplas com jogadores com mais de 30 anos e habitués nas competições mundiais, mesclada com a de duplas bem mais jovens e que estão, agora, a emergir no panorama internacional.

Entre as 96 duplas que representam 33 países diferentes – sendo que os gémeos Javier e Joaquin Bello, de ascendência espanhola e que venceram o WT1 de Cortegaça 2021, envergam as cores da Inglaterra – destaque-se, como exemplo, a presença dos vice-campeões mundiais 2022, os brasileiros Renato Carvalho/Vítor Felipe, bem como de outras duplas que já venceram torneios do BPT no ano corrente, como a polaca formada por Michal Bryl/Bartosz Losiak (Tlaxcala Challenge, no México, e Doha Challenge, no Catar) ou a suíça Quentin Métral/Yves Haussener (Madrid Future, em Espanha, e Rhodes Future, na Grécia), esta última, inscrita na fase de qualificação, em masculinos.

Em femininos, a veterania das argentinas Ana Gallay (36 anos) e Fernanda Pereyra (31), terceiras classificadas no Campeonato Sul-Americano, e das experientes australianas Taliqua Clancy/Mariafe Artacho Del Solar, vice-campeãs olímpicas em Tóquio e medalha de bronze no Mundial de 2019 – já estão juntas desde 2017 , tendo vencido o WT4 disputado em Espinho em 2018, ano em que se sagraram campeãs asiáticas –, contrabalançam com a ambição de outras formações mais jovens, como Andressa Cavalcanti/Vitória de Souza, brasileiras que subiram ao terceiro degrau do pódio no Challenge de Itapema, ou mesmo de duplas que em Espinho partem desde a fase de qualificação, como a espanhola Paula Soria/Sofía González, vencedora do Future de Madrid, a tailandesa Radarong/Udomchavee, que venceu, em casa, o Future de Songkhla, e as irmãs austríacas Dorina e Ronja Klinger, medalha de ouro no Future de Ios, na Grécia.

As duplas portuguesas

Em termos da Armada Portuguesa que vai desafiar o favoritismo dessas duplas nas areias espinhenses, Portugal contará com quatro duplas: João Pedrosa/Hugo Campos e Inês Castro/Beatriz Pinheiro, no Quadro Principal, bem como com mais uma dupla de cada género na fase de qualificação e cujo nome ficará a ser conhecido após o culminar da 2ª Etapa do Campeonato Lidl, a decorrer em Espinho até domingo.

João Pedrosa e Hugo Campos vêm de um 9º lugar obtido no Future de Giardini Naxos, em Itália, a quinta prova do Volleyball World Beach Pro Tour da FIVB em que participaram este ano, depois do Future Beach Pro Tour de Madrid (17º), em Espanha, o Challenge Beach Pro Tour de Doha (25º), no Catar, o Challenge de Tlaxcala (33º), no México, e o Challenge Beach Pro Tour de Itapema (33º), no Brasil, sendo acompanhados pelo Selecionador Leonel Gomes.

Pedrosa e Campos em ação (Foto: DR)

Embora reconheçam que vão enfrentar, no Quadro Principal, duplas mais experientes, os jovens jogadores apoiados pela FPV e medalhados com a prata na Beach Volleyball World Tour 1 Cortegaça, realizada em 2021 no Centro de Alto Rendimento de Voleibol de Praia (CARVP), em Cortegaça, mostram-se mais preocupados com o seu próprio desempenho perante o seu público: “Estes cinco/seis anos em que estamos juntos têm um balanço positivo porque nós notamos que temos vindo a evoluir, ano após ano, e um dos grandes fatores para isso é o trabalho realizado dentro e fora do campo. Tem de haver uma conciliação entre o trabalho prático e técnico que nós fazemos e a nossa alimentação, a parte física, a fisioterapia, etc. e cremos que tem havido uma conciliação maior entre essas duas partes. As nossas expectativas em relação ao Challenge de Espinho é conseguirmos apresentar o nosso nível de jogo. Este ano já o conseguimos fazer, mas não tantas vezes como gostaríamos. Creio que se conseguirmos estar ao nosso nível neste torneio, podemos fazer coisas muito boas e ir longe. Vamos defrontar grandes adversários, duplas fortes e mais habituadas a jogar a este nível do que nós, mas nós vamos jogar em casa, com a família, os amigos e o nosso povo ao nosso lado e isso poderá fazer a diferença. O facto de irmos disputar o Quadro Principal para nós é ótimo, pois só tínhamos conseguido atingir esta fase na semana passada, em Itália. Vai-nos dar bastantes pontos, o que é bom para nós, para subirmos de ranking, de modo a que, nos próximos torneios, possamos partir um pouco mais de cima e não tenhamos de jogar logo contra os mais fortes. E isso, de certa forma, é uma grande vantagem. Para além disso, este Challenge de Espinho é importantíssimo pois dá a conhecer, principalmente aos miúdos, o que é o Voleibol de Praia no mundo, o que para muitos é ainda terreno desconhecido. Este tipo de provas, sejam organizadas em Espinho ou em Cortegaça são muito importantes porque dão muita visibilidade ao desporto e o que se quer é que o desporto evolua o máximo possível”, referem João Pedrosa e Hugo Campos.

Inês Castro/Beatriz Pinheiro, dupla igualmente apoiada pela FPV, tem estado a preparar a sua participação no Beach Pro Tour Challenge de Espinho no CARVP de Cortegaça.

Após terem realizado, recentemente, um estágio com a dupla inglesa Jessica Grimson/Daisy Mumby, as portuguesas, treinadas pelo Selecionador Ricardo Rocha, encontram-se a fazer treinos em conjunto com duas duplas do Paraguai, Giuliana Poletti/Laura Ovelar e Érika Mongelos/Michelle Valiente, que participaram, este ano, em várias etapas, tanto do continente sul-americano, como na Europa, e que irão disputar, igualmente, o Beach Pro Tour Challenge de Espinho.

Inês e Beatriz em disputa de mais um ponto (Foto: DR)

“Temos vindo, desde outubro, a treinar e a melhorar certos aspetos que falharam anteriormente para conseguirmos fazer sempre cada vez melhor. Sabemos que o Challenge de Espinho vai ser uma etapa difícil, acima do nível a que estamos habituadas, mas estamos muito felizes por participar e vamos com muita vontade de jogar e lutar por cada ponto. Por outro lado, o nível elevado da competição vai levar-nos a enfrentar mais dificuldades, o que nos pode ajudar a evoluir para o Campeonato Nacional (Campeonato Lidl) e também para outras competições internacionais. Não temos dúvidas que para o Voleibol português, em particular, e para o nosso País, em geral, é ótimo haver este tipo de competições aqui, principalmente em Espinho, uma cidade que adora Voleibol, pois cria-se sempre um ambiente incrível”, referem Beatriz Pinheiro/Inês Castro.

O Volleyball World Beach Pro Tour de 2022 contará com duas etapas em Portugal: o Beach Pro Tour Challenge de Espinho, de 14 a 17 de julho, e o Beach Pro Tour Future em Cortegaça, nos dias 11 a 14 de agosto de 2022.

Após ter acolhido etapas do Circuito Mundial de Voleibol de Praia (FIVB Beach Volleyball World Tour) em 2018 e 2019, a cidade de Espinho volta a estar na rota dos melhores atletas mundiais de Voleibol de Praia e, tal como o Centro de Alto Rendimento de Voleibol de Praia (CARVP) da Federação Portuguesa de Voleibol localizado em Cortegaça, no município de Ovar, que acolheu a realização de uma etapa do Circuito Mundial em 2021 na sua estreia a nível internacional, continua a merecer a confiança e o interesse dos organismos que regem a modalidade a nível planetário.

Em termos globais, esta será a 17ª edição da etapa espinhense de masculinos e a 12ª de femininos. Um rol de competições que celebrizaram a dupla Miguel Maia/João Brenha e, entre outros, nomes como Emanuel Rego e Ricardo Santos, a dupla estrangeira predileta do público espinhense. Juntos, os brasileiros venceram três edições (2003, 2004 e 2007) e individualmente por cinco vezes (Emanuel e Ricardo) levaram o ouro.

O estádio de Espinho (Foto: DR)

O Centro de Alto Rendimento de Voleibol de Praia da Federação Portuguesa de Voleibol é uma instalação desportiva dotada das melhores condições para a prática do Voleibol de Praia que recebeu já as finais dos Campeonatos Nacionais de Voleibol de Praia de 2020 e 2021, bem como estágios das duplas de Israel, Venezuela, Inglaterra ou Paraguai.

A Federação Portuguesa de Voleibol continua, assim, a “enriquecer o longo historial do País na organização de importantes competições internacionais, seja do World Tour seja de campeonatos europeus e mundiais de camadas mais jovens. Ver torneios de Voleibol de Praia realizados em Portugal”.

Fotos: DR.

Imagem: FPV.

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Fibromialgia: seis ideias frequentes, entre mitos e verdades

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A fibromialgia continua rodeada de informações incorretas, apesar do conhecimento clínico acumulado sobre a doença. Em entrevista à Agência Incomparáveis, o Professor Doutor José Luís Arranz Gil, presidente da Academia Portuguesa de Fibromialgia, Síndrome de Sensibilidade Central e Dor Crónica, responsável pela Unidade de Fibromialgia, Sensibilidade Central e Dor Crónica da Mutualista da Covilhã e Académico Correspondente da Real Academia de Medicina do País Basco, em Espanha, analisa seis ideias frequentes sobre esta doença, distinguindo três mitos de três verdades.

1. Mito: a fibromialgia existe apenas na cabeça do doente

A fibromialgia é uma doença real e a dor sentida pelas pessoas que dela sofrem também o é. O facto de os exames convencionais não revelarem uma lesão visível não significa que os sintomas sejam imaginários ou simulados. A doença está relacionada com alterações na forma como o sistema nervoso processa e regula os estímulos dolorosos. Por isso, para além da dor generalizada, podem surgir sintomas como fadiga, alterações do sono, rigidez, hipersensibilidade e dificuldades de concentração ou de memória, que muitas pessoas descrevem como “nevoeiro mental”. Os fatores emocionais podem influenciar a intensidade dos sintomas, tal como acontece em muitas outras doenças crónicas, mas não explicam, por si só, a fibromialgia. Considerá-la apenas um problema psicológico contribui para o estigma, pode atrasar o diagnóstico e dificulta o acesso a cuidados de saúde adequados.

2. Verdade: não existe um único exame que confirme o diagnóstico

Atualmente, o diagnóstico da fibromialgia é clínico. Não existe uma análise ao sangue, uma radiografia ou uma ressonância magnética específica que, por si só, permita confirmar a doença. O diagnóstico é feito através da avaliação de aspetos como a presença e a distribuição da dor, a sua duração, a fadiga, as alterações do sono, as dificuldades cognitivas e o impacto da doença na vida quotidiana. Em alguns casos, podem ser necessários exames complementares para excluir outras doenças que produzem sintomas semelhantes. O facto de não existir um marcador específico numa análise não significa que o diagnóstico não seja válido. Significa que é necessária uma avaliação clínica completa e especializada.

3. Mito: a fibromialgia afeta exclusivamente as mulheres

É verdade que a fibromialgia é diagnosticada com maior frequência nas mulheres, mas não é uma doença exclusiva do sexo feminino. Também pode surgir nos homens e em pessoas de diferentes idades. A ideia de que é uma doença “de mulheres” pode contribuir para que alguns doentes de outros grupos não sejam diagnosticados ou cheguem ao diagnóstico mais tarde. Além disso, não existe um único perfil homogéneo de doente com fibromialgia. A intensidade da dor, da fadiga, dos problemas de sono e das dificuldades cognitivas pode variar consideravelmente de pessoa para pessoa, tal como o impacto na atividade profissional, nas relações sociais e na autonomia.

4. Verdade: o exercício adaptado, especialmente o exercício contra resistência, pode fazer parte do tratamento

Durante muito tempo, difundiu-se a ideia de que uma pessoa com fibromialgia deveria evitar a atividade física. No entanto, as recomendações clínicas não apoiam essa ideia. Pelo contrário, o exercício adaptado constitui uma das ferramentas mais importantes do tratamento. E, dentro do exercício, o trabalho contra resistência, ou seja, o exercício de força, tem particular interesse. Os estudos realizados especificamente em pessoas com fibromialgia mostram que este tipo de exercício pode melhorar a capacidade funcional e contribuir para reduzir sintomas como a dor e a fadiga. Isto não significa que caminhar, nadar ou realizar exercício aeróbio não sejam úteis. Também podem trazer benefícios. O importante é que o exercício seja progressivo, adaptado às capacidades de cada pessoa e realizado de forma regular. O trabalho de força pode ser introduzido de forma gradual, respeitando sempre os limites e a situação clínica de cada doente. Por isso, não se trata simplesmente de “fazer exercício”, mas de fazer o exercício adequado e adaptá-lo a cada doente. O treino contra resistência pode ser uma componente particularmente importante desse programa, juntamente com outras modalidades de exercício, quando estejam indicadas.

5. Mito: se a fibromialgia não tem cura, não existe tratamento

Aqui é importante distinguir entre uma doença crónica e uma doença sem tratamento. A fibromialgia é uma doença crónica, ou seja, pode manter-se ao longo do tempo. Tal como acontece com muitas doenças crónicas, atualmente não dispomos de uma cura definitiva, mas isso não significa que não possa ser tratada. O objetivo do tratamento não tem necessariamente de ser “curar” a doença, mas sim controlar os sintomas, melhorar a funcionalidade e alcançar a melhor qualidade de vida possível. Existem diferentes ferramentas terapêuticas e a resposta pode variar de pessoa para pessoa. O tratamento pode incluir educação sobre a doença, exercício adaptado, estratégias para melhorar o sono, apoio psicológico quando indicado, determinados medicamentos e terapêuticas no farmacológicas. Não existe uma única intervenção que funcione da mesma forma para todos os doentes. Por isso, o facto de uma doença ser crónica não significa que não tenha tratamento. Significa que a abordagem deve ser pensada a longo prazo, adaptando-se à evolução da doença e às necessidades de cada pessoa.

6. Verdade: o tratamento deve ser individualizado e multidisciplinar

A fibromialgia pode afetar diferentes dimensões da vida e apresentar períodos de maior ou menor intensidade. Por isso, o tratamento não deve centrar-se apenas na dor. É necessário ter também em consideração o sono, a fadiga, a atividade física, a saúde emocional, a vida familiar e a capacidade para realizar as atividades profissionais e quotidianas. As recomendações europeias defendem uma abordagem centrada no doente e, de um modo geral, propõem começar por medidas não farmacológicas, ajustando-as de acordo com a evolução clínica. O exercício, as intervenções psicológicas e determinados medicamentos podem fazer parte do tratamento, mas não existe uma combinação universal que funcione para todos. A abordagem multidisciplinar permite avaliar o impacto global da doença e adaptar as diferentes intervenções às características e necessidades de cada doente.

Ígor Lopes

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Relação entre Portugal e Brasil continua a ganhar peso a nível comercial e de investimento

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A Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira (CCILB) divulgou um conjunto de indicadores sobre a relação económica entre Portugal e Brasil, destacando a posição do mercado brasileiro no comércio externo português, a sua importância nas exportações para o Mercosul e o peso do investimento brasileiro em Portugal.

Em 2024, o Brasil foi o 11.º maior destino das exportações portuguesas de bens, representando 1,5% do total das vendas de Portugal ao exterior. No sentido inverso, o país ocupou a 7.ª posição entre os principais fornecedores de bens ao mercado português, assumindo uma posição mais elevada enquanto origem das importações do que enquanto destino das exportações nacionais.

A evolução mais recente mantém também uma trajetória positiva. Entre janeiro e maio de 2026, Portugal exportou para o Brasil quase 460 milhões de euros em mercadorias, valor que corresponde a um crescimento homólogo de 12,5%.

De igual modo, a posição brasileira assume particular expressão no relacionamento comercial de Portugal com o Mercosul. O Brasil concentra mais de 90% das exportações portuguesas destinadas aos países que integram o bloco sul-americano, constituindo o principal mercado português naquele espaço económico.

No âmbito do investimento estrangeiro, os indicadores apresentados pela CCILB mostram igualmente uma presença significativa do capital brasileiro em Portugal. Em junho de 2025, o Brasil representava 4,1% do stock de investimento direto estrangeiro no país, figurando entre as origens exteriores à União Europeia com maior peso.

A dimensão destes fluxos comerciais e financeiros reforça a importância de uma relação empresarial estruturada entre os dois mercados, num contexto em que empresas portuguesas procuram oportunidades de internacionalização e parceiros no Brasil, enquanto investidores e empresas brasileiras encontram em Portugal uma plataforma de entrada no mercado europeu.

É neste espaço de ligação que se posiciona a CCILB, presidida por Otacílio Soares, através de uma rede de contactos empresariais, profissionais e institucionais com o objetivo de facilitar a criação de relações de cooperação e identificar novas oportunidades entre Portugal e Brasil.

Neste sentido, para as empresas interessadas em desenvolver negócios nos dois mercados, a integração numa rede bilateral pode permitir o contacto com outros agentes económicos e institucionais, bem como o acompanhamento de iniciativas destinadas a reforçar a cooperação luso-brasileira.

Ígor Lopes

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“A mensagem que devemos deixar aos jovens é que o voto de cada um importa”, afirmou Pedro Sequeira de Carvalho sobre eleições presidenciais em São Tomé e Príncipe

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São Tomé e Príncipe realizou, a 19 de julho, eleições presidenciais que resultaram na reeleição de Carlos Vila Nova para um segundo mandato de cinco anos, com 55,94% dos votos. Apesar do funcionamento regular do processo eleitoral e da tradição de transições pacíficas no país, a abstenção superior a 58% introduziu um sinal de alerta sobre a participação cívica, a representação política e o afastamento de parte do eleitorado, num país que realiza eleições multipartidárias desde 1991.

Em entrevista à nossa reportagem, o advogado e professor universitário são-tomense Pedro Sequeira de Carvalho analisa o estado da democracia no arquipélago, o papel das escolas, das universidades e da comunicação social na formação dos cidadãos e a necessidade de envolver os jovens na reconstrução da confiança nas instituições. O jurista aborda ainda o ambiente político antes das eleições legislativas, autárquicas e regionais de 27 de setembro, marcado pela disputa interna na Ação Democrática Independente, ADI, e pela procura de espaço eleitoral entre os partidos que apoiaram a candidatura presidencial de Carlos Vila Nova.

Como advogado e professor universitário, que importância atribui às eleições presidenciais de 19 de julho para a consolidação democrática de São Tomé e Príncipe, num momento em que o país voltou a ser chamado a escolher o seu Chefe de Estado?

O povo foi chamado para escolher o Chefe do Estado, e fê-lo com elevado sentido de responsabilidade e civismo. São sinais claros de que a nossa democracia goza de uma boa saúde, digo “boa” e não “perfeita”. Digo mais ainda, não é uma saúde garantida, mas sim uma “boa saúde” que requer um estar permanentemente atentos e cuidadosos para que ela não adoeça.  Por exemplo, há um aspeto que não podemos ignorar que é o número elevado de abstenção -58, 57%. Este é o número mais alto da nossa história como país. É verdade que houve a concorrência de vários fatores como a emigração e a atualização automática dos dados eleitores que foi feita pela primeira vez diretamente através da base dos dados dos Serviços dos Registos Civis. Mas, apesar desses factos, ficou visível aos olhos do povo que, os quatro candidatos que participaram nas eleições presidenciais, uma grande franja da população não se revia nos mesmos; eles não demonstravam nenhuma esperança num futuro melhor para o país. Na democracia, isto é preocupante.

Num processo eleitoral, a dimensão jurídica é essencial, mas a dimensão cívica também pesa. Que papel devem ter a escola, a universidade, a cultura e a comunicação social na formação de cidadãos mais conscientes, capazes de participar no voto com responsabilidade e sentido de país?

Eu não senti, de uma forma efectiva, este papel a ser exercido pelas escolas e pelas universidades. Ainda há um longo trabalho a ser feito no sentido das escolas e as universidades assumirem algum papel relevante na formação de cidadãos mais conscientes, capazes de participar no voto com responsabilidade e sentido de país. O mesmo não digo sobre a nossa cultura e sobre a comunicação social. O nosso país já tem uma cultura democrática. O lema “o povo põe, o povo tira” é sobejamente conhecido pela nossa sociedade. Toda a comunidade eleitoral nacional reconhece e respeita a soberania do povo, manifestada através dos atos eleitorais. As eleições – todas elas – são uma festa na nossa sociedade. No que diz respeito à comunicação social, esta sempre exerceu um papel muito importante na construção e solidificação do nosso sistema democrático. Em todas as eleições, a comunicação social assume, e bem, a sua missão de consciencializar os eleitores acerca da responsabilidade da vida e da sua importância para o futuro do país. No nosso país, as noites das eleições são as noites que menos se dorme, isto porque tanto a rádio pública, como a televisão pública fazem as contagens e as divulgações dos resultados eleitorais em direto. E, tem surgido também, pelo menos nesta última eleição, várias iniciativas das rádios privadas e canais digitais no sentido de acompanharem e divulgarem os resultados eleitorais. Este processo só eleva a dimensão cívica das nossas eleições.

A política, tal como a literatura e o teatro, também trabalha com narrativas, expectativas e projectos de futuro. Que mensagem considera importante deixar aos jovens são-tomenses sobre participação democrática, respeito pelas instituições e construção de um país onde a cidadania não termine no dia da eleição?

De facto, tanto a política como a literatura e o teatro trabalham com narrativas, expectativas e projetos de futuro. Relativamente à participação democrática, a mensagem que devemos deixar aos jovens é que o voto de cada um importa. Tivemos uma eleição em que a abstenção ganhou. Foram mais de 58% de abstenções; o número mais elevado da nossa história como um país independente que vem realizando eleições desde o ano 1991. Neste momento, os jovens estão cansados devido a real mudança que não chega, e pior ainda, sentem-se impotentes para fazerem partes deste processo de mudança. Pelo que, a mensagem mais importante é a de que a democracia é um regime cujo sucesso depende e muito da participação de todos os cidadãos, no nosso caso, mais ainda da juventude por ser a maioria da população. Há um país a ser reconstruído, há todo um conjunto das instituições cuja credibilidade devem ser restauradas. A construção de um país passa pela construção das instituições; não temos como termos um país que queremos, sem termos instituições que necessitamos para este efeito. Um país é o que as instituições fazem dele. É fundamental que os jovens sintam como a pedra angular na construção de São Tomé e Príncipe que está contemplado no nosso Hina nacional – “a não mais ditosa da terra”.

Como está o ambiente político no seu país e o que espera após as eleições?

As eleições foram realizadas em 19 de julho; já temos o Presidente da República: Eng. Carlos Vila Nova, que foi reeleito para mais um mandato de cinco anos. Mas o ambiente político ainda continua muito conturbado, não em razão das eleições presidenciais, mas sobretudo devido as eleições legislativas que estão marcadas para o próximo dia 27 de setembro. Nesta mesma data serão realizadas mais outras duas eleições em simultâneo: eleições autárquicas e as eleições regionais. O maior partido do país que ganhou as últimas eleições legislativas em 2022 está enfrentando uma grande disputa interna de liderança, cujo capítulo mais recente foi o Tribunal Constitucional ter validado um congresso extraordinário realizado no último mês de junho, onde o atual primeiro-ministro, Américo Ramos, foi eleito, por aclamação, como o novo presidente do partido ADI-Acção Democrática Independente. Este processo tem causado uma grande cisão no seio do ADI, onde a outra ala liderada pelo Patrice Trovoada ainda reivindica a sua legitimidade, como a estrutura eleita em 2024 para liderar o partido para um mandato de quatro anos, de acordo aos estatutos deste partido político. Por outro lado, o Presidente da República, sendo oriundo da ADI, foi eleito com o apoio de quase todos os partidos políticos nacionais (MLSTP, PCD, BASTA, MDFM, UDD, e NOSSA TERRA), com uma mensagem de apelo à estabilidade e a unidade nacional. Mas, e agora? Apesar de todos esses partidos políticos concorrerem para a vitória do atual Presidente da República não podem já sentir que fazem parte da mesa do poder. A Lei eleitoral prescreve que o partido político que não obtiver 1% de votos expressos nas urnas nas eleições legislativas, é decretado extinto. Assim, o grande desafio de alguns desses partidos políticos é de conseguirem pelo menos 1% de votos expressos nas urnas nas próximas eleições legislativas marcadas para 27 de setembro próximo. Assim, os partidos políticos juntaram-se em bloco em apoio ao candidato Carlos Vila Nova, mas agora espalharam-se de novo, com o grande desafio de cada um ir desenrascar brasas para as suas sardinhas. O que alguns analistas políticos previam que seriam grandes e várias alianças e coligações, pelo menos até então não se tem verificado, e tudo indica que não se verificará, pelo menos para concorrerem, podendo haver, posteriormente, alguns acordos parlamentares, uma vez que, pelos cenários, não se evidencia a probabilidade de haver a maioria absoluta para nenhum dos dois maiores partidos do país (ADI e o MLSTP). Não está fácil fazer previsões a longo prazo, isto está um jogo bem intenso, mas até certo ponto, animado.

O que o mundo deve saber sobre as eleições presidenciais em STP? Como pode explicar a importância deste pleito de 19 de setembro de 2026?

Que São Tomé e Príncipe é um país democrático, e que a nossa democracia goza de muito boa saúde. E há um responsável por este produto: os cidadãos santomenses. Este pleito, essas eleições presidenciais de 2026, não funcionam com o fim da história, mas como mais uma página do livro sobre a boa democracia que alguém que queira ser um bom aluno nesta matéria, sobretudo na África, deveria ler. São Tomé e Príncipe já pode dizer, sem receio algum de errar, que é um exemplo da democracia na África, e quiçá, no mundo.

Ígor Lopes

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