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Artesanato de Barcelos exposto na Assembleia da República

Integrado na Exposição de Produtos Tradicionais Certificados

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O artesanato de Barcelos está representado na “Exposição de Produtos Tradicionais Certificados”, patente no edifício da Assembleia da República. A mostra, promovida pela ACERTIFICA, foi inaugurada, ontem, pelo Presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva.

Os artesãos barcelenses convidados pela organização a mostrar os seus trabalhos são António Ramalho (Figurado), Armando Braz (Olaria), e Glória de Jesus (Bordado de Crivo). 

Na sua intervenção, Augusto Santos Silva salientou a importância das artes tradicionais portuguesas na afirmação e na diferenciação dos territórios locais e da cultura popular associada. Reiterou a importância dos processos de certificação na defesa e valorização das comunidades de artesãos e na salvaguarda sua identidade.

Teresa Costa, responsável pela ACERTIFICA, único organismo de certificação de produções artesanais tradicionais (…), referiu que o universo das 22 produções certificadas atualmente correspondem a mais de 150 UPA ’s (artesãos) com produção certificada em todo o território nacional.

Na última mostra efetuada em 2015 na AR, existiam apenas 5 produções certificadas, pelo que a publicação da lei e o interesse demonstrado pelos Municípios no desenvolvimento da economia local e do emprego associado a este setor de atividade permitiram o aumento exponencial de produções artesanais certificadas, que atingirá cerca de três dezenas até final de 2024.

A cerimónia de inauguração contou com a presença de inúmeros representantes das entidades promotoras das produções, nomeadamente Olaria, Figurado e Bordado de Crivo São Miguel da Carreira – Barcelos; Filigrana de Portugal (Gondomar e Póvoa de Lanhoso); a Camisola Poveira – Póvoa de Varzim; Bordado de Tibaldinho – Mangualde; Barro Preto de Olho Marinho – Vila Nova de Poiares; a Louça Preta de Molelos – Tondela; Viola Beiroa e Bordado de Castelo Branco; o Boneco de Estremoz; Renda de Bilros de Peniche; Lenços de Namorados do Minho; Cantarinhas dos Namorados e Bordado de Guimarães; Traje à Vianesa e Bordado de Viana do Castelo; Rendas de Bilros de Vila do Conde; Junça da Beselga – Penedono; Viola Braguesa e Estanhos Artísticos de Bodiosa. Marcaram ainda presença os responsáveis pelas entidades envolvidas nos processos de certificação, nomeadamente o CEARTE, Portugal à mão, o Cindor, o IPAC, o INCN – Contrastaria, AIP – FIA, e os responsáveis do Grupo Valor do Tempo, com lojas exclusivas de produtos certificados (Figurado de Barcelos – O Valor do Tempo e Filigrana de Portugal – Joalharia do Carmo).

Esta mostra não seria possível sem a presença dos artesãos de todas as produções certificadas, com demonstrações das técnicas artesanais.

Foto: CMB.

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“A mensagem que devemos deixar aos jovens é que o voto de cada um importa”, afirmou Pedro Sequeira de Carvalho sobre eleições presidenciais em São Tomé e Príncipe

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São Tomé e Príncipe realizou, a 19 de julho, eleições presidenciais que resultaram na reeleição de Carlos Vila Nova para um segundo mandato de cinco anos, com 55,94% dos votos. Apesar do funcionamento regular do processo eleitoral e da tradição de transições pacíficas no país, a abstenção superior a 58% introduziu um sinal de alerta sobre a participação cívica, a representação política e o afastamento de parte do eleitorado, num país que realiza eleições multipartidárias desde 1991.

Em entrevista à nossa reportagem, o advogado e professor universitário são-tomense Pedro Sequeira de Carvalho analisa o estado da democracia no arquipélago, o papel das escolas, das universidades e da comunicação social na formação dos cidadãos e a necessidade de envolver os jovens na reconstrução da confiança nas instituições. O jurista aborda ainda o ambiente político antes das eleições legislativas, autárquicas e regionais de 27 de setembro, marcado pela disputa interna na Ação Democrática Independente, ADI, e pela procura de espaço eleitoral entre os partidos que apoiaram a candidatura presidencial de Carlos Vila Nova.

Como advogado e professor universitário, que importância atribui às eleições presidenciais de 19 de julho para a consolidação democrática de São Tomé e Príncipe, num momento em que o país voltou a ser chamado a escolher o seu Chefe de Estado?

O povo foi chamado para escolher o Chefe do Estado, e fê-lo com elevado sentido de responsabilidade e civismo. São sinais claros de que a nossa democracia goza de uma boa saúde, digo “boa” e não “perfeita”. Digo mais ainda, não é uma saúde garantida, mas sim uma “boa saúde” que requer um estar permanentemente atentos e cuidadosos para que ela não adoeça.  Por exemplo, há um aspeto que não podemos ignorar que é o número elevado de abstenção -58, 57%. Este é o número mais alto da nossa história como país. É verdade que houve a concorrência de vários fatores como a emigração e a atualização automática dos dados eleitores que foi feita pela primeira vez diretamente através da base dos dados dos Serviços dos Registos Civis. Mas, apesar desses factos, ficou visível aos olhos do povo que, os quatro candidatos que participaram nas eleições presidenciais, uma grande franja da população não se revia nos mesmos; eles não demonstravam nenhuma esperança num futuro melhor para o país. Na democracia, isto é preocupante.

Num processo eleitoral, a dimensão jurídica é essencial, mas a dimensão cívica também pesa. Que papel devem ter a escola, a universidade, a cultura e a comunicação social na formação de cidadãos mais conscientes, capazes de participar no voto com responsabilidade e sentido de país?

Eu não senti, de uma forma efectiva, este papel a ser exercido pelas escolas e pelas universidades. Ainda há um longo trabalho a ser feito no sentido das escolas e as universidades assumirem algum papel relevante na formação de cidadãos mais conscientes, capazes de participar no voto com responsabilidade e sentido de país. O mesmo não digo sobre a nossa cultura e sobre a comunicação social. O nosso país já tem uma cultura democrática. O lema “o povo põe, o povo tira” é sobejamente conhecido pela nossa sociedade. Toda a comunidade eleitoral nacional reconhece e respeita a soberania do povo, manifestada através dos atos eleitorais. As eleições – todas elas – são uma festa na nossa sociedade. No que diz respeito à comunicação social, esta sempre exerceu um papel muito importante na construção e solidificação do nosso sistema democrático. Em todas as eleições, a comunicação social assume, e bem, a sua missão de consciencializar os eleitores acerca da responsabilidade da vida e da sua importância para o futuro do país. No nosso país, as noites das eleições são as noites que menos se dorme, isto porque tanto a rádio pública, como a televisão pública fazem as contagens e as divulgações dos resultados eleitorais em direto. E, tem surgido também, pelo menos nesta última eleição, várias iniciativas das rádios privadas e canais digitais no sentido de acompanharem e divulgarem os resultados eleitorais. Este processo só eleva a dimensão cívica das nossas eleições.

A política, tal como a literatura e o teatro, também trabalha com narrativas, expectativas e projectos de futuro. Que mensagem considera importante deixar aos jovens são-tomenses sobre participação democrática, respeito pelas instituições e construção de um país onde a cidadania não termine no dia da eleição?

De facto, tanto a política como a literatura e o teatro trabalham com narrativas, expectativas e projetos de futuro. Relativamente à participação democrática, a mensagem que devemos deixar aos jovens é que o voto de cada um importa. Tivemos uma eleição em que a abstenção ganhou. Foram mais de 58% de abstenções; o número mais elevado da nossa história como um país independente que vem realizando eleições desde o ano 1991. Neste momento, os jovens estão cansados devido a real mudança que não chega, e pior ainda, sentem-se impotentes para fazerem partes deste processo de mudança. Pelo que, a mensagem mais importante é a de que a democracia é um regime cujo sucesso depende e muito da participação de todos os cidadãos, no nosso caso, mais ainda da juventude por ser a maioria da população. Há um país a ser reconstruído, há todo um conjunto das instituições cuja credibilidade devem ser restauradas. A construção de um país passa pela construção das instituições; não temos como termos um país que queremos, sem termos instituições que necessitamos para este efeito. Um país é o que as instituições fazem dele. É fundamental que os jovens sintam como a pedra angular na construção de São Tomé e Príncipe que está contemplado no nosso Hina nacional – “a não mais ditosa da terra”.

Como está o ambiente político no seu país e o que espera após as eleições?

As eleições foram realizadas em 19 de julho; já temos o Presidente da República: Eng. Carlos Vila Nova, que foi reeleito para mais um mandato de cinco anos. Mas o ambiente político ainda continua muito conturbado, não em razão das eleições presidenciais, mas sobretudo devido as eleições legislativas que estão marcadas para o próximo dia 27 de setembro. Nesta mesma data serão realizadas mais outras duas eleições em simultâneo: eleições autárquicas e as eleições regionais. O maior partido do país que ganhou as últimas eleições legislativas em 2022 está enfrentando uma grande disputa interna de liderança, cujo capítulo mais recente foi o Tribunal Constitucional ter validado um congresso extraordinário realizado no último mês de junho, onde o atual primeiro-ministro, Américo Ramos, foi eleito, por aclamação, como o novo presidente do partido ADI-Acção Democrática Independente. Este processo tem causado uma grande cisão no seio do ADI, onde a outra ala liderada pelo Patrice Trovoada ainda reivindica a sua legitimidade, como a estrutura eleita em 2024 para liderar o partido para um mandato de quatro anos, de acordo aos estatutos deste partido político. Por outro lado, o Presidente da República, sendo oriundo da ADI, foi eleito com o apoio de quase todos os partidos políticos nacionais (MLSTP, PCD, BASTA, MDFM, UDD, e NOSSA TERRA), com uma mensagem de apelo à estabilidade e a unidade nacional. Mas, e agora? Apesar de todos esses partidos políticos concorrerem para a vitória do atual Presidente da República não podem já sentir que fazem parte da mesa do poder. A Lei eleitoral prescreve que o partido político que não obtiver 1% de votos expressos nas urnas nas eleições legislativas, é decretado extinto. Assim, o grande desafio de alguns desses partidos políticos é de conseguirem pelo menos 1% de votos expressos nas urnas nas próximas eleições legislativas marcadas para 27 de setembro próximo. Assim, os partidos políticos juntaram-se em bloco em apoio ao candidato Carlos Vila Nova, mas agora espalharam-se de novo, com o grande desafio de cada um ir desenrascar brasas para as suas sardinhas. O que alguns analistas políticos previam que seriam grandes e várias alianças e coligações, pelo menos até então não se tem verificado, e tudo indica que não se verificará, pelo menos para concorrerem, podendo haver, posteriormente, alguns acordos parlamentares, uma vez que, pelos cenários, não se evidencia a probabilidade de haver a maioria absoluta para nenhum dos dois maiores partidos do país (ADI e o MLSTP). Não está fácil fazer previsões a longo prazo, isto está um jogo bem intenso, mas até certo ponto, animado.

O que o mundo deve saber sobre as eleições presidenciais em STP? Como pode explicar a importância deste pleito de 19 de setembro de 2026?

Que São Tomé e Príncipe é um país democrático, e que a nossa democracia goza de muito boa saúde. E há um responsável por este produto: os cidadãos santomenses. Este pleito, essas eleições presidenciais de 2026, não funcionam com o fim da história, mas como mais uma página do livro sobre a boa democracia que alguém que queira ser um bom aluno nesta matéria, sobretudo na África, deveria ler. São Tomé e Príncipe já pode dizer, sem receio algum de errar, que é um exemplo da democracia na África, e quiçá, no mundo.

Ígor Lopes

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Otacílio Soares: “Nosso desafio é fazer com que a proximidade entre Portugal e Brasil se traduza, cada vez mais, em investimentos, empregos, inovação e desenvolvimento para todos”

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Otacílio Soares, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira (CCILB), defende que a forte proximidade histórica, cultural e linguística entre Portugal e o Brasil deve ser convertida em relações económicas ainda mais concretas, capazes de gerar mais investimentos, parcerias, negócios e desenvolvimento para ambos os países.

Em entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis, o responsável abordou o papel da CCILB na aproximação entre empresas, investidores e instituições portuguesas e brasileiras, destacando os processos de internacionalização, os setores com maior potencial de cooperação, o posicionamento de Portugal como plataforma de entrada no mercado europeu e as oportunidades de criação de uma rede económica no espaço da língua portuguesa.

Qual tem sido o papel da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira no reforço das relações econômicas e empresariais entre Portugal e o Brasil?

A Câmara procura transformar a proximidade histórica e cultural entre Portugal e o Brasil em relações empresariais concretas. Os dois países têm uma ligação muito forte, mas isso, por si só, não é suficiente para gerar negócios. É preciso aproximar as empresas certas, facilitar o acesso à informação e ajudar os empresários a compreender as particularidades de cada mercado. Nesse sentido, a CCILB atua como uma ponte entre empresas, investidores, associações empresariais e entidades públicas dos dois países. Promovemos encontros, missões, seminários e contatos institucionais, sempre com o objetivo de criar relações de confiança e oportunidades que possam se transformar em investimentos, parcerias e novos negócios. Nosso papel também é ajudar a reduzir a distância prática entre os dois mercados. Embora falemos a mesma língua, existem diferenças na legislação, na tributação, na cultura empresarial e na forma de negociar. Muitas vezes, uma orientação correta no início evita erros, custos e perda de tempo.

Neste período de férias de verão, na Europa, e de inverno, na América do Sul, que ações estão sobre a mesa em termos empresariais por parte da CCILB para aproximar os dois territórios?

O período de férias pode ser um bom momento para refletir e planejar. Muitas decisões empresariais importantes começam justamente quando temos mais tempo para avaliar novos mercados, rever estratégias e pensar com um pouco mais de tranquilidade. Na CCILB, estamos trabalhando na preparação de novas iniciativas para o segundo semestre, com encontros empresariais, ações de networking, seminários e atividades voltadas à internacionalização. Também estamos fortalecendo nossos comitês, que permitem tratar de forma mais especializada temas como tecnologia, inovação, turismo, comércio exterior, sustentabilidade, arbitragem e investimentos. Queremos ampliar a aproximação com câmaras de comércio, federações empresariais e entidades de promoção de investimentos dos dois países. A ideia é que essas relações institucionais resultem em agendas práticas, com empresas interessadas, oportunidades identificadas e acompanhamento posterior. Também continuaremos dando atenção ao Acordo Mercosul-União Europeia, que poderá abrir uma nova etapa nas relações econômicas entre Portugal e o Brasil. Precisamos preparar as empresas, especialmente as pequenas e médias, para entenderem as oportunidades e as exigências desse novo cenário.

De que forma a CCILB apoia empresas portuguesas e brasileiras nos processos de internacionalização, entrada nos respectivos mercados e criação de parcerias?

O primeiro apoio é ajudar a empresa a compreender o mercado no qual pretende entrar. Internacionalizar não significa apenas encontrar um cliente ou distribuidor. É necessário conhecer a legislação, os aspectos tributários, os canais de distribuição, os custos logísticos, a concorrência e a cultura empresarial local. A CCILB procura orientar as empresas e aproximá-las de profissionais, entidades e potenciais parceiros que possam apoiá-las em cada etapa. Não substituímos os especialistas, mas ajudamos o empresário a encontrar as pessoas certas e a chegar ao mercado com mais segurança. Também promovemos encontros empresariais, missões e eventos setoriais, nos quais as empresas podem apresentar seus projetos, conhecer potenciais parceiros e estabelecer relações de confiança. Esse trabalho é especialmente importante para as pequenas e médias empresas, que nem sempre possuem estrutura própria para fazer uma prospecção internacional. Entendemos que o trabalho da Câmara não termina na apresentação entre duas empresas. Sempre que possível, procuramos acompanhar a evolução dos contatos e contribuir para que uma primeira conversa possa se transformar em uma parceria efetiva e duradoura.

Que setores apresentam, atualmente, maior potencial para aprofundar o comércio, o investimento e a cooperação empresarial entre os dois países?

Existem oportunidades em diversos setores. Tecnologia, inovação, energia, infraestrutura, turismo, agronegócio, alimentos e bebidas, saúde, setor farmacêutico, construção civil, mercado imobiliário, logística e serviços financeiros estão entre as áreas com maior potencial. Portugal desenvolveu competências importantes em energias renováveis, turismo, tecnologia, engenharia, gestão de infraestrutura e serviços. O Brasil, por sua vez, possui escala, recursos naturais, capacidade industrial, produção agroalimentar e um mercado consumidor muito expressivo. Quando essas competências são combinadas, surgem oportunidades interessantes para os dois lados. Também vejo grande potencial na economia digital, na inteligência artificial e nos serviços prestados internacionalmente. São áreas nas quais a dimensão geográfica deixou de ser uma barreira tão relevante. O setor de alimentos e bebidas merece atenção especial. Portugal tem produtos de grande qualidade e o Brasil oferece um mercado amplo, embora ainda existam desafios tributários, logísticos e regulatórios. Em sentido inverso, produtos brasileiros podem utilizar Portugal como ponto de entrada e de valorização no mercado europeu.

Como pode Portugal assumir-se como plataforma de entrada das empresas brasileiras na União Europeia e, em sentido inverso, apoiar as empresas portuguesas interessadas no mercado brasileiro?

Portugal reúne condições muito favoráveis para ser uma plataforma de entrada das empresas brasileiras na União Europeia. Há proximidade cultural, facilidade de comunicação, segurança jurídica, boa infraestrutura, profissionais qualificados e acesso a um mercado europeu com centenas de milhões de consumidores. Mas Portugal não deve ser visto apenas como uma porta de entrada. Pode ser uma base para a estruturação, gestão e expansão das operações brasileiras na Europa. Uma empresa pode instalar aqui sua sede europeia, adaptar produtos às normas da União Europeia, contratar profissionais e desenvolver uma estratégia para outros mercados. No sentido inverso, o Brasil oferece às empresas portuguesas escala e acesso a um dos maiores mercados do mundo. É também uma plataforma para outros países da América do Sul. Naturalmente, o mercado brasileiro exige preparação. É necessário compreender a tributação, a regulamentação, as diferenças regionais e a dinâmica comercial do país. A CCILB pode contribuir justamente nessa ligação, aproximando empresas e instituições e ajudando a identificar parceiros locais confiáveis. Em uma internacionalização, escolher bem os parceiros é tão importante quanto escolher o mercado.

De que forma a CCILB tem ampliado a sua atuação à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e que oportunidades identifica no espaço econômico da CPLP?

A língua portuguesa é um patrimônio comum e também pode ser um ativo econômico. A CPLP reúne países em diferentes continentes, com recursos, mercados e necessidades muito diversos. Essa diversidade cria oportunidades em áreas como infraestrutura, energia, agricultura, saúde, educação, tecnologia, turismo e serviços financeiros. A CCILB vem procurando ampliar o diálogo com representantes diplomáticos, instituições e empresários dos demais países de língua portuguesa. Nosso objetivo é contribuir para que Portugal e o Brasil também funcionem como pontos de conexão para negócios com a África, a Ásia e outras regiões onde a língua portuguesa está presente. Ainda existem desafios importantes, como financiamento, logística, segurança jurídica e conhecimento dos mercados locais. Por isso, é fundamental trabalhar com instituições confiáveis e projetos bem estruturados. Mais do que imaginar um mercado único, devemos construir uma rede econômica de língua portuguesa, baseada em informação, confiança, mobilidade empresarial e cooperação. Há um potencial muito grande que ainda não foi plenamente aproveitado.

Quais são as prioridades da CCILB para os próximos anos e que iniciativas estão previstas para aproximar empresários, instituições e investidores de Portugal, do Brasil e dos restantes países da CPLP?

Nossa prioridade é tornar a Câmara cada vez mais útil para seus associados e para as empresas que desejam atuar entre esses mercados. Isso significa oferecer informação relevante, promover encontros objetivos e criar condições para que as relações institucionais gerem resultados empresariais. Pretendemos fortalecer os comitês setoriais, ampliar as missões empresariais e realizar eventos sobre temas estratégicos, como o Acordo Mercosul-União Europeia, inovação, tecnologia, sustentabilidade, turismo, comércio exterior, investimentos e arbitragem. Também queremos aumentar a cooperação com câmaras de comércio, federações empresariais, universidades, embaixadas, agências de promoção de investimentos e entidades de apoio à internacionalização. Essa articulação é essencial para dar escala e continuidade às iniciativas. Outro objetivo é ampliar a presença da CCILB junto aos países da CPLP, aproximando empresários e investidores e identificando projetos concretos de cooperação. Em resumo, queremos uma Câmara aberta, dinâmica e próxima das empresas. Portugal, Brasil e os demais países de língua portuguesa possuem relações históricas muito fortes. Nosso desafio é fazer com que essa proximidade se traduza, cada vez mais, em investimentos, empregos, inovação e desenvolvimento para todos.

Ígor Lopes

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“Tenho algum cuidado com a palavra “referência”, mas também não fujo ao que venho construindo”, explicou cantautor português Eddie

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O percurso de Eddie, nome artístico de Edgar Pinto, ultrapassa há muito a dimensão de um “simples” cantor. Ao longo de mais de 20 anos, construiu uma carreira como compositor, produtor, fundador da EP-Produções Musicais e membro de algumas das mais prestigiadas instituições ligadas à indústria musical, acumulando distinções internacionais em Madrid, Hollywood, Los Angeles e, mais recentemente, Nova Iorque (Distinção Especial “Artista Influente na Música e Cultura Latina”). No centro desse percurso continua, contudo, a mesma convicção: o sucesso resulta de tempo, disciplina, trabalho e autenticidade.

Em entrevista à Agência Incomparáveis, o artista português revisitou os bastidores da construção do álbum “Todo a Su Tiempo”, fala das renúncias e escolhas que marcaram a sua carreira, reflete sobre a forma como encara o reconhecimento internacional e explica por que motivo continua a privilegiar a humildade e a aprendizagem permanente, mesmo depois de alcançar um lugar de destaque no panorama musical ibero-americano.

Ao longo da conversa, Eddie sublinhou ainda a relação entre Portugal, Espanha, a Lusofonia e a América Latina, o papel da produção musical no seu percurso, a responsabilidade de integrar organismos internacionais como a Recording Academy e a Latin Recording Academy e os desafios que continua a estabelecer para o futuro, numa carreira que considera estar longe de concluída.

O projeto “Todo a Su Tiempo” levou cinco anos a ser construído e chegou a mais de 20 milhões de plays, streams e visualizações. Quando olha para este percurso, que parte da caminhada considera que o público ainda não conhece: o trabalho, as renúncias, os silêncios ou as decisões que ficaram fora dos palcos?

Hoje é difícil falar do público como uma entidade única e estanque. Há públicos diferentes: quem acompanha há anos, quem chega por uma canção, quem descobre o trabalho por um vídeo, uma rádio, uma entrevista ou um palco. O alcance pode ser grande e, ao mesmo tempo, muito parcial. Mesmo depois de uma longa jornada, continuo a chegar a novos ouvintes. Posso ter tocado numa sala importante ou passado por uma rádio, uma televisão ou um festival e, no dia seguinte, noutro contexto, haver pessoas a ouvir-me pela primeira vez. Isso agrada-me, mantém-me atento, vivo e com os pés no chão. Por isso, quando olho para este percurso, penso sobretudo na parte que se vê de fora: as canções, os vídeos, os concertos, as entrevistas, os prémios e os resultados. Por trás de tudo isto existe uma parte menos exposta, que é a do silêncio. “Todo a Su Tiempo” levou cinco anos a ser construído, mas esses cinco anos não nasceram do nada. Trazem uma história de vida, muitos anos de música, estúdio, palco, viagens, investimento pessoal, dúvidas, escolhas difíceis e muita aprendizagem. Este álbum tem esse nome por alguma razão. Não foi feito à pressa, nem para responder a uma moda ou a uma tendência. Houve músicas que ficaram para trás, ideias que precisaram de amadurecer e momentos em que tive de parar para perceber se cada passo fazia sentido para mim. Também houve renúncias: tempo pessoal, tranquilidade, oportunidades e até alguns caminhos que talvez fossem mais rápidos, mas não eram necessariamente os meus. Talvez a parte menos conhecida seja essa: continuar a construir quando ainda não há aplauso, quando ainda não há palco, quando ainda não há números para mostrar. No meu caso, muita coisa também se construiu nesses dias em que ninguém estava a ver. Quem escuta a canção pode não conhecer todos os bastidores, mas percebe quando ela não nasceu por acaso.

Ao longo de mais de duas décadas de carreira, passou por estúdios, palcos, rádios, televisões, prémios e reconhecimento internacional. Que sacrifícios foram necessários para chegar a este patamar sem perder o controlo criativo, a identidade artística e a ligação às suas origens?

Mais do que falar de sacrifícios de forma dramática, prefiro falar de escolhas exigentes. No meu caso, estes anos não se fizeram apenas de inspiração. Houve disciplina, investimento, persistência e foco, mesmo quando a visibilidade e o retorno nem sempre corresponderam ao esforço colocado. Sendo artista, compositor, produtor e tendo passado tantos anos dentro de estúdios, acabei por olhar para cada projeto como um todo. Não penso apenas na canção isoladamente; penso na produção, interpretação, imagem, direção artística e na forma como tudo chega ao público. Isso dá-me autonomia, mas também aumenta muito a responsabilidade. O lado criativo e de estúdio é talvez o que me surge de forma mais natural. O lado mais exigente é muitas vezes a gestão humana e operacional de um projeto independente: coordenar pessoas, prazos, sensibilidades, decisões e recursos. Nem sempre existe uma estrutura grande por trás, e isso leva-me a estar em muitas frentes. Houve momentos em que foi preciso abdicar de descanso, tempo pessoal e tranquilidade para proteger uma visão. Não vejo isso como queixa. Faz parte da escolha. A música tem-me dado muito, mas pede entrega, consistência e capacidade de não me dispersar. Talvez um dos maiores desafios tenha sido manter foco e identidade sem fechar a minha música numa só linguagem. Ao longo do meu percurso cruzei-me com projetos, estilos, artistas e sensibilidades muito diferentes, e tudo isso alargou a minha forma de ouvir, criar e pensar a música. O meu caminho tem sido encontrar coerência dentro dessa diversidade, sem transformar a música numa fórmula.

Os prémios recebidos em Madrid, Hollywood, Los Angeles e Nova Iorque colocaram o seu trabalho num circuito internacional onde estão alguns dos grandes nomes da música. Como gere esse reconhecimento sem o transformar em vaidade, mantendo a humildade e a consciência de que a carreira continua em construção?

Reconheço o valor desses prémios e tenho orgulho neles. Não os vejo como um detalhe: dão peso ao percurso, reforçam credibilidade e mostram que o trabalho conseguiu sair do seu lugar de origem para ser escutado noutros contextos. Ao mesmo tempo, nenhuma distinção encerra uma carreira; faz-me continuar com mais critério. Também sei que ganhar um prémio não significa que toda a gente fique automaticamente a saber. A atenção está muito fragmentada entre públicos, países, meios e plataformas. Para mim, o reconhecimento também existe fora dos prémios: numa rádio, em palco, entrevistas, colaborações ou no respeito de alguém do meio artístico que reconhece valor no projeto. Ter passado tantos anos em estúdio e ter-me cruzado com grandes nomes da música ajuda-me a pôr as coisas em perspetiva. Por mais importante que seja uma etapa, há sempre trabalho a fazer: na canção seguinte, no próximo palco, no próximo projeto.

“Todo a Su Tiempo” parece traduzir uma ideia de maturação, paciência e persistência. Em que medida este álbum representa não apenas uma fase musical, mas também uma forma de estar na vida e na indústria, num tempo em que muitos artistas são pressionados a produzir depressa e a responder ao algoritmo?

“Todo a Su Tiempo” tem muito de vida antes de ser apenas um título de álbum. Eu acredito no trabalho, na preparação, na persistência e em fazer a minha parte. Ainda assim, há coisas que só acontecem quando encontram o momento certo. Na música sinto o mesmo: cada canção tem a sua maturação e a sua razão para chegar. Tenho uma relação muito própria com os discos e as canções. Não gosto de lançar só para cumprir calendário ou alimentar plataformas. Hoje é preciso comunicar, estar presente, perceber a indústria e acompanhar o ritmo das coisas. Faço parte dessa realidade, procuro apenas que a pressa não mande mais do que a própria música. Para mim, uma música chega melhor quando sinto que está pronta e que a posso levar ao público com convicção. Nem sempre é possível controlar todos os calendários, porque também há oportunidades, compromissos e pressões naturais do mercado. Ainda assim, tento não perder esse critério. Prefiro que uma canção chegue um pouco mais tarde, mas chegue com sentido.

O seu percurso cruza Portugal, Espanha, a Lusofonia e a América Latina, com uma identidade luso-ibérica que não procura “folclorizar” a origem nem diluí-la no mercado global. Como encontra esse equilíbrio entre pertencer a um território cultural e, ao mesmo tempo, dialogar com públicos de vários países?

Reconheço-me muito nesse cruzamento e nessa ideia de ponte entre lugares, culturas, línguas e formas diferentes de sentir a música. Nasci em Portugal, mas o meu percurso não ficou fechado ao lugar onde nasci. Fui vivendo, viajando, trabalhando e criando em contacto com outros lugares, sobretudo Espanha, com uma ligação forte a Madrid e à Andaluzia, e também com a Lusofonia e o universo latino. Não nasceu de uma estratégia; faz parte da minha vida. A Lusofonia tem uma dimensão familiar, afetiva e musical. Espanha entrou no meu percurso por presença real, trabalho, amizade, palco, estúdio e tempo vivido. A América Latina foi surgindo pela língua, pelas canções, pelos media, pelas colaborações e pelo diálogo natural com públicos que sentem a música de forma próxima. O equilíbrio está em deixar que essa vida apareça naturalmente na música.

Além de cantautor, é produtor, fundador da EP-Produções Musicais, membro votante da Recording Academy e da Latin Recording Academy, integra a Academia de la Música de España e a Sociedade Portuguesa de Autores. Como vive a responsabilidade de ser referência em várias esferas da música sem perder a inquietação de quem continua a aprender?

Vejo essa dimensão como parte do percurso que tenho vindo a construir. São mais de duas décadas de estúdio, produção, canções, palco, trabalho com outros artistas, academias e contacto com vários lados da música. Reconheço o peso desse caminho, mas prefiro vivê-lo como responsabilidade e não como estatuto. Tenho algum cuidado com a palavra “referência”, mas também não fujo ao que venho construindo. A EP-Produções Musicais foi decisiva nessa história. Não foi apenas um estúdio, embora essa tenha sido a face mais visível. A partir de 2006 aproximou-me da indústria musical e fez com que muitos artistas, editoras e profissionais conhecessem melhor o meu trabalho como produtor e a minha forma de acompanhar projetos. Mais tarde, esse percurso também alimentou a minha fase autoral e artística. Produzir passa muito por ouvir, perceber o que cada canção pede e criar as condições certas para que a música aconteça. As academias e associações acrescentam outra dimensão, porque ser membro votante e participar em estruturas ligadas a compositores, produtores, engenheiros e autores faz-me olhar para a música para além do meu próprio trabalho: a autoria, a qualidade técnica, os direitos dos criadores e as novas gerações. A inquietação continua porque a forma de fazer, produzir e comunicar música está em constante transformação. As tecnologias, o mercado e as formas de chegar ao público obrigam-me a rever formas de trabalhar sem perder critério. Cada canção e cada colaboração trazem uma dinâmica própria. Posso ter mais estrada e experiência acumulada, mas isso não me dispensa de estar atento e, muitas vezes, recomeçar.

Depois de prémios, reconhecimento internacional, milhões de visualizações e uma trajetória construída com tempo, que novos desafios ainda o movem? O que falta conquistar, não apenas em números ou distinções, mas em verdade artística, impacto cultural e legado?

O que me move é continuar a crescer, aprender, viajar, tocar, criar e levar o meu trabalho a novos lugares. Tudo o que já aconteceu até aqui conta, mas não substitui a vontade de fazer mais e melhor.

Depois de uma canção estar produzida e chegar ao público, começa outra etapa: perceber como ela vive depois, por uma rádio, um palco, outro país ou na memória de quem a recebe. Esse impacto interessa-me muito, porque nem tudo o que conta cabe numa estatística.

Sendo artista independente, tenho consciência de que nem sempre os recursos acompanham a dimensão das ideias. Gostava de poder levar algumas produções mais longe, com maior impacto cénico, mais estrutura e mais presença ao vivo. Tenho também muita vontade de ir em promoção e em concerto a mais países da Lusofonia, especialmente ao Brasil, onde sinto uma relação bonita através das redes e de algumas canções que tiveram muito boa receção. Também gostava de aprofundar ligações na América Latina e nos Estados Unidos, com alguns pontos naturais como Miami, Puerto Rico ou Nashville, e, mais à frente, regressar à Ásia.

Quanto ao legado, não penso nisso como monumento. Gostava que um dia, quem olhasse para o conjunto das minhas canções, discos, imagens, colaborações e produção percebesse uma história real, com fases, línguas e influências diferentes, mas reconhecível como minha.

Ígor Lopes

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