Atualidade
Castelo Branco: Durante “Bienal Internacional de Artes e Ofícios”, especialistas brasileiros, portugueses e cabo-verdianos discutiram potencialidades no âmbito das “Cidades Criativas da UNESCO”
A “Bienal Internacional de Artes e Ofícios” terminou no sábado, 5 de setembro, no Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco (CCCCB), com um segundo dia dedicado à partilha de práticas entre Cidades Criativas da UNESCO e à discussão sobre empreendedorismo, valorização da tradição e internacionalização das indústrias criativas. A iniciativa decorreu em paralelo e de forma integrada no programa do “Festival Sabores de Perdição”, uma aposta do município albicastrense para afirmar Castelo Branco enquanto Cidade Criativa da UNESCO na categoria de “Artesanato e Artes Populares”.
Sónia Abreu, chefe da Divisão de Museus e Cultura da Câmara Municipal de Castelo Branco e responsável pela organização da Bienal, fez uma avaliação positiva dos dois dias de programação e destacou a participação do público.
“A avaliação é muito positiva. As partilhas e as experiências foram ótimas e senti, também da parte do público e das pessoas que estiveram connosco, muito gosto em estar presente”, afirmou. Para esta responsável, um dos resultados do encontro foi demonstrar que “o artesanato tem tudo para seguir em frente”, mas que é necessário envolver as novas gerações e criar condições para que possam fazer destas artes uma atividade profissional.
Sónia Abreu apontou ainda a projeção do Bordado de Castelo Branco como uma das prioridades após a realização do encontro.
“Gostaria de continuar a investir neste projeto de forma a alcançar cada vez mais notoriedade, não só a nível nacional, mas também internacional”, referiu, sublinhando que “a nossa Cidade Criativa tem este solo, que é o bordado, e nós não podemos fugir disso, nem queremos. É o património”, acrescentou.
A programação do segundo dia começou às 10h com a sessão “Cidades Criativas da UNESCO: Práticas, Projetos e Inspirações”, que reuniu representantes de diferentes municípios portugueses integrados na rede internacional. Participaram Castelo Branco, Barcelos e Caldas da Rainha, todas na categoria de “Artesanato e Artes Populares”, além de Amarante e Leiria, ambas classificadas na categoria de “Música”. Depois de uma pausa, os trabalhos foram retomados às 12h com uma segunda sessão dedicada à mesma temática, desta vez com a participação de Braga, Cidade Criativa da UNESCO na categoria de “Artes Digitais”, Covilhã, na categoria de “Design”, Idanha-a-Nova, na categoria de “Música”, e Matosinhos, na categoria de “Gastronomia”. O encontro permitiu apresentar diferentes modelos de valorização do património, da criatividade e das indústrias culturais a partir das especificidades de cada território.
A manhã terminou com um período de debate e participação do público, previsto para as 13h15. A presença de diferentes cidades na programação reforçou uma das linhas centrais da Bienal, a criação de um espaço de intercâmbio entre territórios que utilizam cultura, património e criatividade como instrumentos de desenvolvimento local e de cooperação.
O presidente da Câmara Municipal de Castelo Branco, Leopoldo Rodrigues, destacou precisamente esta dimensão económica e internacional da Rede de Cidades Criativas da UNESCO.
“Sabemos que uma rede com esta dimensão cria escala, cria oportunidades e cria valor para aquilo que é o bordado e o artesanato local, abrindo uma janela de oportunidade não apenas para o território, mas também para os vários continentes e para o mundo inteiro”, afirmou o autarca, referindo que “esta Bienal tem para nós um significado muito profundo”, tanto por se realizar em Castelo Branco como pela possibilidade de mostrar o artesanato local, receber outras cidades e incorporar novos conhecimentos e formas de fazer. Leopoldo Rodrigues sublinhou ainda que integrar uma rede internacional com a chancela da UNESCO representa simultaneamente “um orgulho e uma responsabilidade”, sobretudo na valorização dos artesãos e das produções do território.
Durante a tarde, a programação concentrou-se na mesa-redonda “Transformar a Tradição em Valor: Empreendedorismo e Internacionalização nas Indústrias Criativas”. A sessão teve moderação de Eduardo Barroso, consultor e ponto focal internacional de João Pessoa, no Brasil, Cidade Criativa da UNESCO na categoria de “Artesanato e Artes Populares”. Barroso, representante de João Pessoa junto da Rede Mundial de Cidades Criativas da UNESCO, destacou a relação já estabelecida entre a cidade brasileira e Castelo Branco e o potencial de encontros desta natureza para produzir novas formas de cooperação.
“A nossa presença em Castelo Branco vem no sentido de reforçar esses laços de cooperação que já existem, porque hoje João Pessoa e Castelo Branco são cidades geminadas”, afirmou. Na sua avaliação sobre os dois dias, Barroso considera que “iniciativas como esta devem ser apoiadas e reforçadas, porque se transformam no espaço ideal de partilha das melhores práticas, de apresentação de novos projetos e de criação de novas oportunidades de intercâmbio e cooperação”. Para ele, ser Cidade Criativa “é mais do que um reconhecimento, é uma provocação e um estímulo para que a cidade avance na direção de um desenvolvimento sustentável”.
Participaram no painel Higor Esteves, vice-presidente da Comissão Executiva da Confederação Empresarial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CE-CPLP) e diretor-geral da “Start CPLP”, Marielza Rodriguez, gestora do Programa do Artesanato Paraibano (PAP), e Fernando Pinto, presidente da Câmara Municipal da Praia, na ilha de Santiago, em Cabo Verde.
Higor Esteves enquadrou a participação da CE-CPLP e da “Start CPLP” na necessidade de criar condições económicas para que o artesanato se transforme numa atividade sustentável.
“É muito importante percebermos como está hoje a realidade dos artesãos, como têm a sua produção garantida e sustentável economicamente e como podemos criar canais para que essa sustentabilidade seja cada vez mais robusta e possa perpetuar-se”, afirmou, defendendo que a língua portuguesa pode funcionar como instrumento económico entre os países da comunidade.
“A língua é um passo importante e decisivo para criarmos pontes, relações e confiança multilateral”, declarou, acrescentando que cabe às estruturas empresariais da CPLP proporcionar ferramentas e um ambiente de negócios que permita transformar essa confiança em atividade económica.
Já Marielza Rodriguez levou ao encontro a experiência do “Programa do Artesanato Paraibano” e destacou a relação entre a Paraíba e Castelo Branco.
“Castelo Branco é uma cidade já irmã de João Pessoa e, desta quarta vez que venho a Castelo Branco, trazemos aquilo que temos de melhor em coleções feitas com inovação e design no artesanato paraibano”, disse esta responsável brasileira, que destacou a importância da cidade portuguesa enquanto referência para a cooperação entre territórios ligados ao artesanato.
“Castelo Branco, para mim, é uma referência, porque são pessoas que pensam no futuro e fazem eventos importantes de intercâmbio”, declarou Marielza Rodriguez, que sugere que a experiência permite levar para João Pessoa e para a Paraíba exemplos de projetos desenvolvidos em Portugal que podem ser adaptados à realidade brasileira. Na sua intervenção, abordou também o papel do artesanato na fixação das populações nos territórios e na geração de rendimento. A gestora explicou que a incorporação de design e inovação permite preservar técnicas transmitidas entre gerações e, simultaneamente, tornar as peças mais atrativas para novos públicos, contribuindo para o desenvolvimento local e para a permanência dos artesãos nas comunidades de origem.
Fernando Pinto, presidente da Câmara Municipal da Praia, salientou que a ligação institucional com Castelo Branco antecede a atual edição da Bienal e recordou a participação da capital cabo-verdiana no processo de candidatura albicastrense à Rede de Cidades Criativas da UNESCO.
“Já existem parcerias em várias áreas com Castelo Branco há muitos anos. Hoje viemos sublinhar a importância desta relação de cooperação e partilhar algumas boas práticas da Praia”, afirmou, afirmando que a participação na Bienal permite transportar experiências em ambas as direções.
“Queremos levar conhecimento, novas práticas e know-how e, sobretudo, qualidade de vida”, referiu, defendendo que a cooperação entre cidades deve contribuir para criar oportunidades económicas e condições para que os jovens permaneçam nos seus territórios.
Fernando Pinto apresentou, entre as experiências desenvolvidas na Praia, iniciativas relacionadas com “economia circular, educação ambiental e reutilização de materiais”, defendendo a “transformação de resíduos em recursos capazes de gerar atividade económica”.
O painel colocou em discussão a passagem dos saberes tradicionais para modelos capazes de gerar atividade económica, criar oportunidades para artesãos e criadores e ampliar a presença dos produtos e projetos culturais em novos mercados. O tema esteve alinhado com a orientação geral da Bienal, centrada na preservação dos saberes tradicionais, na inovação nas indústrias criativas, na valorização do património e no papel da Rede de Cidades Criativas da UNESCO no desenvolvimento dos territórios.
A relação entre património, cultura e políticas públicas foi também abordada durante a Bienal pelo diretor-geral da Direção-Geral das Artes (DGARTES), Américo Rodrigues, que considerou importante a realização de iniciativas desta natureza e destacou a cooperação já existente com Castelo Branco.
“Para nós é muito importante, no plano do Ministério da Cultura de Portugal e através da Direção-Geral das Artes, articularmos, colaborarmos e apoiarmos esta iniciativa e iniciativas deste tipo”, afirmou, salientando a necessidade de atribuir às artes e ofícios tradicionais uma posição própria nas políticas culturais.
“O que queremos é valorizar o património material e o saber-fazer tradicional, mas encará-lo como algo vivo, dinâmico, inscrito no presente e capaz de contribuir também para a economia”, referiu. Sobre o trabalho desenvolvido localmente, acrescentou que “Castelo Branco é um bom exemplo do trabalho que se pode fazer nesta área”, apontando o Bordado de Castelo Branco como “uma das referências na articulação entre tradição, promoção e desenvolvimento”.
A certificação das produções tradicionais foi outro dos temas presentes. Teresa Costa, gerente da A. CERTIFICA, Organismo de Certificação de Produções Artesanais Tradicionais, explicou que o trabalho de certificação procura “garantir o respeito pelos padrões históricos, matérias-primas, técnicas e características que definem cada produção”.
Sobre Castelo Branco, Teresa Costa destacou o reconhecimento alcançado pelo bordado dentro e fora de Portugal.
“O Bordado de Castelo Branco é um trabalho reconhecido não só no território nacional, mas também além-fronteiras, e o facto de a cidade ter esta chancela da UNESCO é importante para as artesãs”, realçou. Segundo ela, o reconhecimento do trabalho das bordadeiras “contribui para projetar internacionalmente uma técnica com características próprias, desenvolvida através do bordado em seda sobre linho”. Para Teresa Costa, a certificação deve funcionar também como um instrumento pedagógico. A responsável explicou que, quando uma peça apresenta elementos que não cumprem os requisitos definidos, o objetivo passa por “orientar o artesão para as correções necessárias antes de atribuir a respetiva certificação, preservando a autenticidade da produção sem afastar quem mantém vivo o saber-fazer”.
A dimensão internacional esteve igualmente presente através do Brasil. O cônsul honorário do Brasil para os distritos de Castelo Branco e Portalegre, António Pinto Dias Rocha, classificou a Bienal como uma “oportunidade para reforçar a aproximação entre o território e a comunidade brasileira”.
“Castelo Branco é uma cidade importante, com muitos brasileiros, e a nossa obrigação enquanto cônsul honorário do Brasil é tentar criar condições para sermos úteis àqueles que aqui vivem”, afirmou, além de apontar também o potencial económico da região e a possibilidade de aprofundar as relações empresariais. O representante consular disse ainda estar otimista quanto à criação de condições para reforçar a presença e os serviços consulares destinados à comunidade brasileira no distrito.
A ligação entre Portugal e Cabo Verde foi outra das dimensões presentes no encontro. Sofia Lourenço, cônsul honorária de Cabo Verde nos distritos de Castelo Branco, Guarda e Viseu, destacou a qualidade dos painéis e o potencial da Bienal para aprofundar o intercâmbio cultural.
“Os painéis desta Bienal têm uma qualidade indiscutível e proporcionam um intercâmbio de informações muito importante”, afirmou. Para Sofia Lourenço, a relação entre tradição e inovação constitui uma das principais linhas de trabalho para o futuro.
“Falando de cultura e destas relações que podemos construir entre Portugal e Cabo Verde, só nos enriquecemos e melhoramos as oportunidades”, declarou. A responsável frisou ainda a presença de elementos da cultura cabo-verdiana, incluindo o pano de terra e as batucadeiras, defendendo que o objetivo passa por “preservar a tradição e, ao mesmo tempo, criar novas formas de cooperação no espaço lusófono”.
O encerramento da Bienal aconteceu com uma visita guiada ao “Centro de Interpretação do Bordado”, aproximando os participantes de um dos elementos culturais que sustentaram a integração de Castelo Branco na “Rede de Cidades Criativas da UNESCO”.
A dimensão do Bordado de Castelo Branco esteve também presente no primeiro dia da Bienal, realizado na sexta-feira, 4 de setembro. A abertura foi conduzida por Leopoldo Rodrigues, seguindo-se um momento musical das “Batucadeiras das Olaias”. A manhã prosseguiu com a mesa-redonda “Identidade Local e Economia Criativa: Instrumentos Públicos para Valorizar o Património”, moderada por Sofia Lourenço. Essa primeira sessão contou com António Pinto Dias Rocha, cônsul honorário do Brasil para os distritos de Castelo Branco e Portalegre, Ângela Barbosa, gestora do Centro Cultural de Cabo Verde em Lisboa, Maria Antónia Amaral, chefe de Divisão de Cadastro, Inventário e Classificação do Património Cultural, I.P., e Américo Rodrigues, diretor-geral da Direção-Geral das Artes (DGARTES).
Durante a tarde do primeiro dia, o debate concentrou-se no tema “O Bordado de Castelo Branco: Tradição e Inovação”. A mesa-redonda foi moderada por Teresa Costa, gerente da A. CERTIFICA, e contou com Ana Cristina Mendes, diretora-adjunta do Centro de Formação Profissional para o Artesanato e Património (CEARTE), Graça Ramos, presidente da Associação Portugal à Mão, Ana Margarida Fernandes, professora na Escola Superior de Artes Aplicadas (ESART) da Universidade Politécnica de Castelo Branco, e Sónia Santiago, diretora de Marketing e Comunicação do “Grupo O Valor do Tempo”.
O dia 4 terminou com a inauguração da exposição “O Mundo Bordado à Mão” e uma visita guiada ao “Museu dos Têxteis (MUTEX)”. A exposição reuniu trabalhos provenientes de diferentes municípios, além de peças do Brasil e de Cabo Verde. Segundo Sónia Abreu, os contactos estabelecidos a partir da mostra começaram já a gerar interesse de outros municípios em receber a exposição, abrindo a possibilidade de circulação do projeto e de novas relações de cooperação institucional.
Para os seus responsáveis, ao longo dos dois dias, a Bienal procurou “articular património, artesanato, inovação, economia criativa e cooperação internacional”, reunindo participantes de Portugal, Brasil e Cabo Verde e representantes de várias cidades integradas na rede da UNESCO.
A realização da Bienal insere-se na estratégia de Castelo Branco enquanto “Cidade Criativa da UNESCO”, estatuto que o município tem utilizado para “reforçar a promoção das artes e ofícios tradicionais, a transmissão de conhecimentos, a cooperação entre territórios e a valorização dos recursos culturais locais”.
Recorde-se que UNESCO integrou oficialmente Castelo Branco na “Rede de Cidades Criativas em 2023”, na categoria de “Artesanato e Artes Populares”, tendo o Bordado de Castelo Branco assumido um “papel central” na candidatura e na estratégia cultural associada ao reconhecimento. A primeira edição da “Bienal Internacional de Artes e Ofícios” decorreu entre os dias 4 e 5 de setembro. Por sua vez, o “Festival Sabores de Perdição 2026” decorre de 3 a 6 de setembro.
Ígor Lopes
Atualidade
Conhecido por promover a circulação da literatura em língua portuguesa na Europa, Roberto Parmeggiani participa no 6.º “Flitabira”
Escritor, poeta, educador, editor e prefeito da cidade italiana de Sasso Marconi, Roberto Parmeggiani é um dos convidados internacionais do 6º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira, que acontece de 29 de outubro a 1º de novembro. Nascido em Bolonha, na Itália, em 1976, Parmeggiani construiu uma trajetória singular, marcada por sua relação com o Brasil, onde viveu durante dois anos e aprendeu o português, língua em que também escreve seus livros. No sábado, 31 de outubro, às 15h, ele participa na mesa “Outras Habilidades”, com mediação de Carlos Vinícius, para “discutir as diferenças humanas e os padrões que determinam o que a sociedade considera normal”.
Formado em Ciências da Educação pela Universidade de Bolonha, Parmeggiani trabalhou como voluntário na periferia de São Bernardo do Campo, em São Paulo. A experiência brasileira foi decisiva para sua formação pessoal e literária. O português tornou-se também sua língua de criação, e o contato com o país estabeleceu uma relação que permanece presente em sua atuação como escritor e editor.
Entre as suas obras publicadas no Brasil estão “A lição das árvores”, “A avó adormecida”, “O mundo de Arturo”, “Felicidade submersa” e “Desabilidade”. Os seus livros circulam entre a literatura infantil, a poesia e a reflexão sobre as relações humanas, abordando questões como envelhecimento, convivência, educação e as diferentes maneiras de perceber o mundo.
É em “Desabilidade”, publicado pela Editora Nós, que Parmeggiani desenvolve uma das ideias centrais de seu pensamento. Em vez de considerar a deficiência apenas uma condição individual, o escritor questiona a dificuldade da própria sociedade em reconhecer e acolher as diferenças. A provocação desloca o olhar: até que ponto a deficiência não está também na incapacidade de compreender o outro? O livro propõe uma crítica aos padrões de normalidade e às formas de exclusão que continuam presentes nas relações sociais.
Essa reflexão nasce da sua experiência na educação inclusiva. Ao longo da carreira, Parmeggiani trabalhou com crianças, professores e projetos voltados à participação de pessoas com deficiência na vida cultural e educacional. A sua literatura não se limita a apresentar personagens diferentes, mas procura questionar os critérios pelos quais determinadas maneiras de viver são consideradas legítimas e outras, inadequadas.
Um escritor entre o Brasil e a Itália
A ligação com o Brasil ganhou uma nova dimensão em 2024, quando Parmeggiani fundou, em parceria com a editora brasileira Simone Paulino, a Edizioni Noi, projeto editorial dedicado à publicação e à circulação da literatura brasileira e de língua portuguesa na Itália. A iniciativa amplia o acesso dos leitores italianos à produção literária contemporânea brasileira e estabelece uma ponte entre os mercados editoriais dos dois países.
A sua trajetória literária também recebeu reconhecimentos importantes. “A avó adormecida” foi contemplado com o Prémio Anna Osti, em 2013, e “A lição das árvores” foi selecionado pela revista “Crescer” entre os 30 melhores livros infantis de 2014. Parmeggiani já participou em importantes encontros literários brasileiros, entre eles a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o Fliaraxá e o Fliparacatu.
Além da atuação literária, Parmeggiani desenvolveu uma carreira na administração pública italiana. Eleito prefeito de Sasso Marconi, município da região de Bolonha, em 2019, foi reeleito em 2024. A sua experiência na gestão pública acrescenta outra dimensão às questões que atravessam os seus livros, especialmente no que diz respeito à “educação, à convivência social e aos direitos das pessoas com deficiência”.
Segundo apurámos, no Flitabira, o encontro “Outras Habilidades” parte justamente dessa trajetória para discutir os limites da normalidade. O que significa ser diferente? Quem estabelece os padrões pelos quais julgamos as capacidades humanas? Como a literatura pode contribuir para uma sociedade que reconheça as singularidades sem transformá-las em motivo de exclusão?
A conversa também estabelece uma relação com o tema central do Festival. Em “Claro Enigma”, Drummond apresenta, no poema “A Máquina do Mundo”, a possibilidade de uma explicação total da existência. A obra de Parmeggiani, por outro caminho, questiona as explicações que pretendem “reduzir a diversidade humana a modelos únicos de comportamento e capacidade”.
De acordo com a organização do festival, a sua participação no 6º “Flitabira” traz ao público brasileiro a “experiência de um autor que transita entre duas línguas e duas culturas, e que encontrou na literatura uma maneira de interrogar nossas certezas sobre o mundo e sobre aqueles que o habitam”.
A Vale apresenta o 6º “Flitabira”, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com apoio da Prefeitura de Itabira, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e do Itaú.
Sob o tema “A Máquina do Mundo em Nós”, o Festival celebra os 75 anos de “Claro Enigma”, de Carlos Drummond de Andrade. Toda a programação é gratuita, com transmissão ao vivo pelo YouTube @flitabira e recursos de acessibilidade.
Ígor Lopes
Atualidade
Cientistas descobrem nova variante de proteína que pode ajudar a controlar o cancro e o envelhecimento celular
Uma equipa de investigação, liderada pelo Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento (MIA-Portugal) da Universidade de Coimbra (UC), identificou, pela primeira vez, uma nova variante da proteína p53, que tem um papel direto no controlo do envelhecimento celular e propriedades anticancerígenas. A descoberta abre novas portas para compreender como travar o envelhecimento celular e a multiplicação de células tumorais.
Em concreto, este estudo liderado pelo grupo de investigação Envelhecimento Molecular, Química do RNA e Oncogénese do MIA-Portugal, liderado por Marco Candeias, descobriu esta nova variante, chamada Delta246p53, e conseguiu mostrar, em ambiente de laboratório, que esta induz a senescência celular – o processo pelo qual as células deixam de se dividir – e inibe a formação de tumores em células.
Esta variante pode contribuir para os mecanismos de proteção do organismo, ajudando a impedir que células danificadas ou com potencial tumoral continuem a multiplicar-se. “A Delta246p53 controla várias vias que envolvem outras proteínas essenciais ao controlo da senescência, promovendo este processo e limitando a proliferação de células tumorais ou de células com danos”, explica o líder da investigação.
Sobre as oportunidades que esta descoberta pode trazer, Marco Candeias destaca que “se conseguirmos manter a expressão desta nova proteína restrita apenas às células em risco de transformação oncológica, poderemos perspetivar um possível prolongamento da esperança de vida, mantendo ou reforçando em simultâneo a defesa contra o cancro”.
Esta variante é uma nova proteína produzida a partir do gene TP53, um dos genes mais poderosos do genoma humano, frequentemente chamado “guardião do genoma”. Controla a divisão das células, repara o ADN quando este sofre mutações e promove a morte celular sempre que necessário. Uma alteração ou falha no seu funcionamento leva a alterações celulares significativas que podem resultar em envelhecimento precoce e aparecimento de cancro.
A nova variante do gene TP53 agora descoberta é, em comparação com outras proteínas já identificadas, uma proteína com funções mais específicas, uma “especialização” que pode abrir caminho a intervenções mais diretas para travar o envelhecimento e problemas oncológicos.
A investigação contou ainda com a participação da Universidade de Quioto (Japão), do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge e da Universidade de Trento (Itália).
O artigo científico New Delta246p53 isoform responds to DNA damage to enhance p53 family functions in cellular senescence (Nova isoforma Delta246p53 responde a danos no ADN e potencia as funções da família p53 na senescência celular, em português), publicado na revista Cell Death Discovery, está disponível em www.nature.com/articles/
Atualidade
Do património familiar ao empreendedorismo: Glamping Academy apresenta oportunidades à diáspora
A “Glamping Academy”, iniciativa portuguesa dedicada à formação e ao empreendedorismo no turismo de natureza, pretende aproximar os portugueses residentes no estrangeiro das oportunidades de investimento em Portugal, particularmente através do “aproveitamento de terrenos, quintas e imóveis familiares”. O projeto, fundado pelo empresário luso Luís Almeida, procura apoiar quem pretende estudar a possibilidade de criar um alojamento turístico, seja como investimento, atividade empresarial ou parte de um plano de regresso ao país.
A proposta dirige-se a portugueses e luso-descendentes que vivem em países como França, Suíça, Alemanha, Luxemburgo, Estados Unidos e Canadá, muitos dos quais mantêm propriedades ou ligações familiares às regiões de origem. A “Glamping Academy” considera que esse património poderá, em determinadas condições, “ser utilizado para desenvolver atividades ligadas ao turismo rural, permitindo conciliar a preservação de imóveis familiares com a criação de iniciativas económicas”.
O projeto surge num contexto de crescimento do turismo em espaço rural. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) de Portugal e do Turismo de Portugal citados pela organização, o Turismo no Espaço Rural e o Turismo de Habitação receberam 1,5 milhões de hóspedes em 2025 e registaram 3,3 milhões de dormidas, aumentos de 6,7% e 6,9%, respetivamente, face ao ano anterior. As regiões Norte, Alentejo e Centro concentraram 65,1% das dormidas neste segmento.
O glamping, conceito que combina elementos do campismo com condições de conforto associadas ao alojamento turístico, é uma das modalidades apresentadas pela academia. As soluções podem incluir cabanas de madeira, tendas equipadas e pequenas unidades integradas na paisagem. A atividade procura responder à procura de experiências ligadas à natureza, à gastronomia regional e ao património dos territórios.
À frente da “Glamping Academy” está Luís Almeida, também responsável pela “Arrabia Guest Houses Glamping”, localizada na Raiva, no concelho de Castelo de Paiva. A partir da experiência na criação e gestão de alojamentos turísticos, o empresário desenvolveu uma plataforma de formação que reúne conteúdos e especialistas em áreas relacionadas com a instalação e exploração de empreendimentos turísticos.
A academia disponibiliza cursos online, ferramentas de planeamento e programas de formação sobre escolha de terrenos, licenciamento, financiamento, construção, marketing, gestão e rentabilidade. A possibilidade de acompanhar os conteúdos à distância constitui uma das características da iniciativa, permitindo que “interessados residentes no estrangeiro iniciem a avaliação de um projeto antes de regressarem a Portugal ou avançarem com um investimento”.
Um dos aspetos destacados pela organização é a necessidade de confirmar a viabilidade legal e técnica de cada propriedade. A existência de um terreno não significa, por si só, que seja permitida a instalação de unidades de glamping. A concretização de um empreendimento depende das disposições do Plano Diretor Municipal (PDM), de eventuais restrições da Reserva Ecológica Nacional (REN) e da Reserva Agrícola Nacional (RAN), bem como das condições de acesso e das exigências de licenciamento. Estas regras podem aplicar-se também a estruturas amovíveis, tendas e casas sobre rodas, dependendo das características do projeto e do enquadramento territorial.
Por esta razão, a “Glamping Academy” recomenda que os interessados “realizem estudos prévios de viabilidade, avaliem os custos e analisem a procura turística antes de assumirem compromissos financeiros”. A organização sublinha que “a atividade não representa uma garantia de rentabilidade e exige preparação empresarial”.
Além da formação digital, a iniciativa promove encontros presenciais denominados “Imersões Glamping Academy”, destinados a reunir empreendedores, potenciais investidores e profissionais de áreas como arquitetura, licenciamento, financiamento e exploração turística. A mais recente edição decorreu nos dias 2 e 3 de outubro de 2026, na “Arrabia Guest Houses Glamping”, em Castelo de Paiva.
Durante estes encontros, os participantes têm oportunidade de “conhecer experiências de gestão, esclarecer dúvidas e estabelecer contactos com profissionais do setor”. A academia pretende, ainda, “desenvolver uma comunidade de pessoas interessadas na criação de projetos turísticos, combinando a aprendizagem on-line com atividades presenciais.
Para os portugueses residentes no estrangeiro, a iniciativa apresenta-se como uma possibilidade de estudar o aproveitamento de património familiar sem necessidade de uma mudança imediata para Portugal. A análise de terrenos, a preparação de planos de negócio e o conhecimento das exigências legais podem ser realizados numa fase anterior à decisão de investir.
A “Glamping Academy” disponibiliza informações sobre os seus programas e atividades através do portal www.glamping-academy.info
Com esta iniciativa, Luís Almeida procura “colocar a formação e o planeamento ao serviço de portugueses e luso-descendentes interessados no turismo de natureza, apresentando alternativas de utilização de propriedades familiares e oportunidades de empreendedorismo nas regiões rurais portuguesas”.
Ígor Lopes
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