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Açores

Florianópolis: Criada “Rede Nacional das Casas dos Açores do Brasil” durante “IX Encontro Açores Brasil”

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Florianópolis recebeu, no domingo, 23 de agosto, o “IX Encontro Açores Brasil”, que reuniu representantes das oito Casas dos Açores existentes no maior país da América do Sul e marcou a constituição formal da “Rede Nacional das Casas dos Açores do Brasil”. A iniciativa, promovida pelo Governo dos Açores, através da Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades e da Direção Regional das Comunidades, decorreu na Casa José Boiteux, no centro da capital de Santa Catarina, um dia depois da inauguração da nova sede da Casa dos Açores de Santa Catarina, em Santo António de Lisboa, cerca de 15 quilómetros da região central de Florianópolis.

A criação da “Rede Nacional” foi formalizada através de um protocolo de cooperação entre a Região Autónoma dos Açores e as Casas dos Açores do Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina, Estado do Rio Grande do Sul, Maranhão, Espírito Santo, Minas Gerais e Ceará. O documento foi assinado pelo secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, Paulo Estêvão, e pelos dirigentes das oito instituições brasileiras.

O protocolo define a “Rede Nacional das Casas dos Açores do Brasil” como uma “estrutura informal de cooperação e articulação entre as instituições existentes no território brasileiro e entre estas e a Região Autónoma dos Açores”. Entre os objetivos estabelecidos estão a “promoção da cooperação, da comunicação e do intercâmbio entre as Casas, a valorização das ligações entre os Açores e os açordescendentes no Brasil, a partilha de experiências, recursos e boas práticas e o desenvolvimento de iniciativas conjuntas”.

O documento prevê ainda “ações nas áreas cultural, educativa, científica, social e comunitária”, além da possibilidade de “cooperação económica, empresarial e de projetos de interesse comum”.

Segundo o documento, ao qual a nossa reportagem teve acesso, a Rede deverá também “contribuir para a divulgação da identidade, da história e da cultura dos Açores junto da sociedade brasileira” e “facilitar a articulação das Casas com o Governo Regional em matérias de interesse comum”.

A cooperação poderá materializar-se também “através de encontros, seminários, conferências e sessões de trabalho, exposições, mostras culturais, projetos de investigação, publicações, ações de formação, programas de intercâmbio institucional e cultural e iniciativas em regime de itinerância entre as Casas dos Açores no Brasil”.

A Rede terá uma Coordenação Executiva, exercida por períodos de um ano e em regime de rotatividade, seguindo a ordem cronológica de fundação das instituições participantes. Nos termos do protocolo assinado em Florianópolis, a primeira coordenação ficará a cargo da Casa dos Açores do Rio de Janeiro, fundada em 1952 e a mais antiga das oito entidades que integram a estrutura. O mandato terá a duração de um ano.

À Coordenação Executiva caberá “assegurar a articulação entre as Casas, dinamizar iniciativas conjuntas, convocar e coordenar reuniões, representar a Rede nas relações institucionais com a Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades e manter a comunicação regular entre as instituições participantes e o Governo dos Açores”. O protocolo produz efeitos desde a data da assinatura e vigora por tempo indeterminado.

“Responsabilidade” na articulação entre as oito Casas dos Açores no Brasil

Para João Leonardo Soares, presidente da Casa dos Açores do Rio de Janeiro, “a criação da Rede Nacional de Casas dos Açores do Brasil é importante porque aproxima instituições, fortalece a nossa representação e permite desenvolver projetos em conjunto, em comum”. Sobre a responsabilidade assumida pela instituição carioca de assumir a Coordenação Executiva da Rede, acrescentou que “além de uma honra, é uma grande responsabilidade”.

João Leonardo Soares apontou ainda como principais desafios “conciliar as diferentes realidades das Casas dos Açores, organizar esse funcionamento da rede e manter a participação de todos”, com o objetivo de “transformar essa união e esses projetos em ações concretas na preservação e na divulgação da cultura açoriana no Brasil”.

Segundo apurámos, outras Casas dos Açores que venham a ser constituídas no Brasil poderão aderir à Rede mediante manifestação de vontade e aceitação pelas instituições já integrantes.

“A “Rede Nacional de Casas dos Açores do Brasil”, que continuará a alargar-se nos próximos tempos, poderá constituir um instrumento determinante para valorizar e reforçar a relação histórica e contemporânea entre as consanguíneas ilhas açorianas e a imensa nação brasileira, através da conjugação de esforços para iniciativas conjuntas e atividades itinerantes”, disse à Agência Incomparáveis José Andrade, diretor regional das Comunidades do Governo dos Açores.

Paulo Estêvão destaca resultados da deslocação a Santa Catarina

Em declarações à nossa reportagem, o secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades do Governo dos Açores, Paulo Estêvão destacou, entre os resultados da deslocação a Santa Catarina, os protocolos estabelecidos no âmbito da ligação entre os Açores e as estruturas açorianas no Brasil. Sobre o protocolo assinado com as oito Casas dos Açores do Brasil, o governante explicou que “ficou articulada não só uma colaboração entre as oito casas entre si, no sentido de se apoiarem mutuamente e desenvolverem projetos em conjunto, como também uma colaboração ativa do Governo dos Açores no apoio às casas, às oito Casas dos Açores”.

Paulo Estêvão referiu ainda a atualização do protocolo com o núcleo de estudos de Santa Catarina, salientando o trabalho desenvolvido por esta estrutura.

“Há uma questão também importante, que é a realização de um protocolo com o núcleo de estudos de Santa Catarina, que tem vindo a fazer um trabalho magnífico e que atualizámos o protocolo e contamos aumentar o apoio também a este núcleo”, afirmou este responsável, que abordou igualmente a inauguração da nova sede da Casa dos Açores de Santa Catarina, em Florianópolis, considerando que “a viagem teve um êxito extraordinário”.

Paulo Estêvão explicou que a nova sede “foi totalmente suportada pela Prefeitura de Florianópolis, quer em relação à aquisição do edifício, quer em relação à sua requalificação”. Para este governante açoriano, as novas instalações vão permitir reforçar a atividade da instituição.

“A partir de agora, a Casa dos Açores de Santa Catarina terá capacidade para desenvolver um conjunto de atividades muito alargado, desde seminários a congressos, a ter a oportunidade de organizar tertúlias de diversa natureza, reuniões, portanto, uma capacidade logística que permitirá ter uma intervenção mais frequente na sociedade de Florianópolis, em Santa Catarina, no geral”, referiu Paulo Estêvão, sublinhando, ainda, o compromisso assumido por entidades municipais e estaduais relativamente ao projeto das comemorações dos 600 anos da descoberta dos Açores.

“As entidades, quer a nível municipal, quer a nível do Estado, assumiram a responsabilidade de colaborar com o Governo dos Açores no âmbito da concretização do projeto dos 600 anos. Inclusivamente, vão constituir uma comissão para preparar a comemoração dos 600 anos da descoberta dos Açores”, afirmou, realçando que essa comissão deverá ser constituída até ao final deste ano e ficará responsável pela preparação de um conjunto de iniciativas.

Estevão adiantou também que a Prefeitura de Florianópolis prevê criar um monumento relacionado com a efeméride.

“Também ficámos a saber que, inclusivamente, por parte da Prefeitura de Florianópolis, será elaborado um monumento alusivo à data, a inaugurar também em 2027”, concluiu.

Encontro valorizou a história açoriana na região

O “IX Encontro Açores Brasil” teve início às 10h, com a participação do diretor regional das Comunidades, José Andrade, da presidente da Academia Catarinense de Letras, Lélia Nunes, do presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, Luiz Nilton Corrêa, e do prefeito de Florianópolis, Topázio Neto. A Academia e o Instituto têm sede na Casa José Boiteux, espaço onde decorreram os trabalhos.

Um dos pontos do programa foi o painel dedicado às Casas dos Açores do Brasil, com uma análise do percurso das instituições, da situação atual e das perspetivas de atuação. Participaram João Leonardo Soares, presidente da Casa dos Açores do Rio de Janeiro, fundada em 1952; Roberto de Melo Correia, da Casa dos Açores de São Paulo, fundada em 1980; Sérgio Luiz Ferreira, da Casa dos Açores de Santa Catarina, de 1999; Viviane Peixoto Hunter, da Casa dos Açores do Estado do Rio Grande do Sul, criada em 2003; Raphael Guará, da Casa dos Açores do Maranhão, de 2019; Nino Moreira Seródio, da Casa dos Açores do Espírito Santo, fundada em 2022; Cláudio Motta, da Casa dos Açores de Minas Gerais, criada em 2025; e Hélya Abath, da Casa dos Açores do Ceará, constituída em 2026.

A constituição da Rede introduz um mecanismo nacional de articulação entre organizações que, até agora, desenvolviam as suas atividades a partir dos respetivos estados e das realidades das comunidades locais. A estrutura permitirá coordenar projetos e fazer circular iniciativas entre diferentes regiões brasileiras, num território onde a presença açoriana e açordescendente resulta de diferentes movimentos migratórios e de povoamento.

A programação do encontro incluiu ainda, por iniciativa do Governo dos Açores, um protocolo de apoio ao “Núcleo de Estudos Açorianos da Universidade do Estado de Santa Catarina”. Durante os trabalhos foram também abordadas as comemorações dos 600 anos da descoberta dos Açores, que serão assinaladas em 2027 e para as quais o Governo Regional pretende envolver as comunidades açorianas fora do arquipélago.

A realização do “IX Encontro” esteve associada à inauguração, no sábado, 22 de agosto, da nova sede da Casa dos Açores de Santa Catarina, em Santo António de Lisboa, Florianópolis. O edifício destinado à instituição foi adquirido e reabilitado pelo município de Florianópolis, com investimento suportado pelo orçamento municipal, passando a disponibilizar à Casa um “espaço próprio para o desenvolvimento das suas atividades”.

Santo António de Lisboa mantém uma ligação à presença açoriana no Sul do Brasil. Foi nesta zona da ilha de Santa Catarina que se fixaram açorianos no processo de povoamento iniciado a partir de 1748. A instalação da Casa dos Açores naquele território associa a atividade da instituição a uma das áreas de Florianópolis onde permanecem referências culturais relacionadas com essa presença, entre elas as festas do Divino Espírito Santo, a renda de bilros, os engenhos e manifestações ligadas à alimentação e às práticas comunitárias.

A Casa dos Açores de Santa Catarina foi fundada em 1999 e integra agora, com as restantes sete instituições brasileiras, a nova “Rede Nacional”. A abertura da sede e a realização do encontro concentraram em Florianópolis, durante o fim de semana, dirigentes das Casas dos Açores, representantes do Governo Regional e entidades catarinenses ligadas à cultura, investigação e preservação do património.

Uma nova sede, velhos anseios

No âmbito da inauguração da nova sede, Sérgio Luiz Ferreira destacou o significado da concretização de um projeto procurado ao longo de várias décadas pela instituição.

“Foi um fim de semana bastante intenso, com muitas atividades e a inauguração da nova sede da Casa dos Açores de Santa Catarina, um sonho almejado durante tantas décadas, com tantos presidentes que passaram tentando ter uma sede para a Casa dos Açores, e, finalmente, tivemos agora, com grande apoio da Prefeitura Municipal de Florianópolis. (…) Foi a Prefeitura que restaurou o prédio. O prédio pertence à Prefeitura, que o restaurou todo e o deixou em condições para que a gente pudesse ocupar e para ser a nova sede da Casa dos Açores”, explicou este responsável, que salientou ainda a localização do espaço e as valências previstas para a nova sede.

“É uma casa pequena, mas muito bem situada, no coração de Santo António de Lisboa, que é uma das freguesias mais açorianas de Santa Catarina. Vai ter uma pequena galeria de arte, onde vão poder expor os artistas locais com temática açoriana, uma bela biblioteca que homenageia José Coelho “Peninha”, um grande pesquisador da cultura popular e o grande responsável pela obra de Franklin Cascaes ter sido tão divulgada, e um microauditório, onde vamos poder ter tertúlias e conversas sobre a açorianidade”, referiu.

O presidente da Casa dos Açores de Santa Catarina destacou também a presença de representantes do Governo dos Açores nas cerimónias.

“A presença do Governo dos Açores foi fundamental e abrilhantou a nossa solenidade, com essa deferência do Governo dos Açores para estar connosco e também por ter possibilitado que todas as Casas dos Açores do Brasil pudessem estar presentes. Isso fez o evento ter um significado muito maior”, afirmou.

O “IX Encontro Açores Brasil” deu continuidade a uma programação iniciada em outubro de 2021, em Ponta Delgada. As edições seguintes passaram por Angra do Heroísmo, em março de 2022; Rio de Janeiro, em julho de 2022; Florianópolis, em dezembro de 2023; Ponta Delgada, em maio de 2024; Rio de Janeiro, em setembro de 2024; ilhas do Pico e do Faial, em outubro de 2024; e Belo Horizonte, em julho de 2025.

Com a criação da “Rede Nacional das Casas dos Açores do Brasil”, as oito entidades passam a dispor de um “instrumento comum” para “coordenar atividades, partilhar recursos e estabelecer projetos com o Governo dos Açores”.

Ígor Lopes

Açores

Rendas do Pico reforçam ligação entre património, identidade e economia local em Castelo Branco

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As Rendas do Pico atravessaram o Atlântico insular para chegar a Castelo Branco, na Região Centro de Portugal continental, como testemunho de uma história construída por mulheres, economia familiar e transmissão de saberes. Catarina Isabel Gaspar Manito, presidente da Câmara Municipal da Madalena, na ilha do Pico, Açores, participou na primeira edição da “Bienal Internacional de Artes e Ofícios”, no Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco, levando ao encontro uma representação da Renda de Farpa, uma das expressões artesanais associadas à identidade cultural do território açoriano.

A iniciativa, que teve lugar entre os dias 4 e 5 de setembro, em Castelo Branco, reuniu representantes de Portugal, Brasil e Cabo Verde para debater património, economia criativa, inovação no artesanato e cooperação entre territórios. Castelo Branco integra desde 2023 a Rede de Cidades Criativas da UNESCO, na categoria de “Artesanato e Artes Populares”.

Em declarações exclusivas à Agência Incomparáveis, Catarina Manito destacou a ligação entre as rendas e a construção da identidade do concelho da Madalena.

“As Rendas do Pico fazem parte da nossa cultura, fazem parte da nossa identidade e do desenvolvimento daquilo que é o povo do concelho da Madalena. Têm também muito a ver com aquilo que é o trabalho da mulher na economia deste território”, afirmou.

A representação levada a Castelo Branco procurou mostrar apenas uma parte de um universo artesanal mais amplo existente na ilha. Segundo a presidente da Câmara, encontram-se identificadas centenas de formas e motivos associados à renda de farpa.

“É um orgulho para nós poder trazer aqui as rosas das Rendas do Pico. Trouxemos uma pequena amostra. Estão identificadas mais de 300 rosas de renda de farpa da ilha do Pico”, revelou.

A Câmara Municipal da Madalena tem vindo a desenvolver um projeto dedicado à valorização deste património artesanal. Segundo informação oficial da autarquia, a iniciativa Rendas de Farpa procura recuperar e divulgar a história, os protagonistas e as técnicas associadas a esta produção, transformando-a também num instrumento de desenvolvimento local e promoção territorial. O projeto conta com cofinanciamento do PRORURAL+.

“Nós desenvolvemos um projeto onde valorizamos a rendeira, temos um Dia Municipal da Rendeira e valorizamos realmente a história associada à renda de farpa”, explicou Catarina Manito.

O município assinala o Dia Municipal da Rendeira a 7 de fevereiro, data associada ao nascimento de Rosa Garcia, apresentada pela autarquia como nome central da chamada Indústria Caseira de Rendas e primeira empresária picarota. A iniciativa procura reconhecer publicamente gerações de mulheres que encontraram nesta atividade uma fonte de rendimento e um espaço de autonomia económica.

A história das rendas está também ligada à estrutura económica e social da ilha do Pico. Durante décadas, a agricultura, a produção de vinho e a atividade baleeira marcaram a economia local. Nas freguesias de São Mateus e São Caetano, a produção das rendas assumiu particular importância para os agregados familiares.

“Enquanto o homem vivia numa ilha marcadamente ligada à agricultura, à produção de vinho e à indústria baleeira, aquilo que sustentava a vida das famílias durante o ano era realmente a produção das rendas”, contextualizou.

A autarca destacou, neste percurso, o papel desempenhado pelas mulheres numa economia em que determinadas atividades masculinas proporcionavam rendimento apenas em períodos específicos.

“A primeira empresária feminina da ilha do Pico era uma compradora e vendedora de rendas. É essa a história que o município resolveu guardar e contar”, salientou.

Este passado está hoje no centro de uma estratégia municipal que procura garantir a continuidade do ofício.

“Estamos neste momento a querer valorizar e fazer passar para o futuro esta arte que tanto nos identifica como povo e que identifica principalmente a cultura e a identidade da mulher da Madalena do Pico”, defendeu.

A relevância histórica e social das rendeiras foi também documentada no filme Rendas de Farpa, promovido pela Câmara Municipal da Madalena e apresentado em 2024 no Auditório da Madalena. O documentário aborda a tradição das mulheres rendeiras, a transmissão das técnicas e o impacto económico desta atividade nas comunidades da ilha, destacando igualmente Rosa Garcia e a organização da produção artesanal feminina.

A Câmara da Madalena está agora a trabalhar no aprofundamento da documentação necessária à proteção deste património. Catarina Manito afirmou que o objetivo passa por “avançar com a certificação das Rendas do Pico”, estando em curso “trabalho de investigação e recolha documental”.

“Estamos a trabalhar para a certificação das Rendas do Pico. O município da Madalena está a desenvolver esse trabalho para que esta arte possa ser perpetuada e guardada para sempre na cultura e identidade do território da Madalena do Pico”, adiantou.

O processo encontra-se, de acordo com a presidente da Câmara, numa fase de preparação técnica.

“Neste momento estamos a fazer o trabalho de pesquisa e investigação. Temos um documentário já feito, recolha de dados e preparação de um dossier que depois será submetido à certificação o mais brevemente possível”, precisou.

A projeção das técnicas açorianas ultrapassa, entretanto, as fronteiras da região. A artista portuguesa Joana Vasconcelos utiliza renda e croché açorianos em diferentes séries do seu trabalho, recorrendo à colaboração de artesãs do Pico. O próprio atelier da artista identifica a utilização de renda de croché dos Açores em várias obras, demonstrando a incorporação destas técnicas tradicionais na criação artística contemporânea.

A exposição apresentada em Castelo Branco permitiu também observar a diversidade formal das rendas. Uma das peças levadas pela autarquia da Madalena reunia dezenas de motivos produzidos pelas rendeiras, muitos deles inspirados diretamente na natureza existente na ilha.

“Temos aqui representado um quadro onde estão 62 das rosas feitas pelas rendeiras do Pico. Elas inspiravam-se nas flores presentes na natureza, naquelas que existiam no nosso território. Temos a flor do maracujá, a margarida e, entre outras, a flor da amora”, descreveu.

A participação deu ainda visibilidade a técnicas particularmente associadas a localidades concretas.

“Temos aqui também a renda de gancho, muito característica da freguesia de São Caetano, onde só as rendeiras de São Caetano faziam esta renda, que é muito específica desta freguesia”, identificou.

A presença da Madalena na “Bienal Internacional de Artes e Ofícios” assumiu uma dimensão adicional pela realização do encontro numa cidade integrada na “Rede de Cidades Criativas da UNESCO”. Para Catarina Manito, apresentar este património num espaço internacional dedicado às artes e aos ofícios representa uma “oportunidade de levar para fora da ilha uma narrativa construída em torno da relação entre cultura, identidade e atividade económica”.

“Significa poder falar, poder apresentar ao mundo aquilo que é cultura, identidade e tradição. Porque não há artesanato sem cultura, não há artesanato sem identidade, não há artesanato sem tradição”, sustentou.

Esta relação entre território e produção artesanal constitui precisamente um dos eixos do projeto desenvolvido pela Câmara da Madalena. A autarquia identifica as Rendas do Pico como património cultural e instrumento potencial de desenvolvimento local, procurando aumentar a visibilidade do trabalho das rendeiras e aprofundar o conhecimento técnico e científico em torno deste saber tradicional.

Para Catarina Manito, contar esta história significa também ampliar a imagem da ilha do Pico para além de elementos do património já reconhecidos internacionalmente, como a paisagem vitivinícola.

“É isso que o Município da Madalena quer fazer: perpetuar, valorizar e mostrar ao mundo que, numa ilha no meio do Atlântico, houve mulheres com capacidade de olhar para a natureza, criar arte e criar economia para as suas famílias”, sublinhou.

A presidente da Câmara sintetizou essa dimensão histórica através da relação entre sobrevivência, criação e identidade coletiva.

“É a resiliência de um povo que não é mostrada apenas através de uma paisagem protegida da vinha e da produção vitivinícola, mas também através da produção das rendas de farpa do Pico”, concluiu.

A participação da Madalena na “Bienal Internacional de Artes e Ofícios” levou a Castelo Branco um património associado à história económica das mulheres da ilha do Pico e a um conhecimento transmitido entre gerações. Entre investigação, documentação, reconhecimento das rendeiras e preparação de mecanismos de proteção, o município procura agora assegurar que uma técnica nascida no quotidiano das famílias continue ligada à identidade e à economia do território.

Também em declarações à Agência Incomparáveis, Sónia Abreu, responsável pela Divisão de Museus e Cultura da Câmara Municipal de Castelo Branco e organizadora do certame, reconheceu que a participação açoriana, mais concretamente do Pico, “surpreendeu” pela positiva, ao trazerem peças da cultura local, sublinhando ainda que essa movimentação “abriu uma possibilidade de continuidade”.

“A disponibilidade foi imediata. Disponibilizaram-se para mandar as peças e, melhor do que isso, a senhora presidente da Câmara Municipal esteve presente nos dois dias da Bienal. Há aqui um envolvimento muito interessante que nós não esperávamos”, assinalou Sónia Abreu.

Ígor Lopes

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Açores

Brasil: Rota Açoriana avança em Minas Gerais e abre novas ligações com os Açores

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A Casa dos Açores de Minas Gerais, no Brasil, avançou com a estruturação da Rota Açoriana de Minas Gerais, projeto destinado a “identificar e integrar municípios ligados à presença açoriana no estado brasileiro”. A iniciativa esteve em destaque num encontro empresarial realizado em Belo Horizonte, que reuniu cerca de 30 participantes e colocou em diálogo a “internacionalização de empresas, o acesso a capital e a criação de novas ligações económicas entre Minas Gerais e os Açores”.

Promovido pela Casa dos Açores de Minas Gerais, em parceria com a “Clique Cota” e a “Nexus”, o encontro juntou empresários, jornalistas, gestores, dirigentes institucionais, estudantes, representantes do poder público e lideranças municipais de “Madre de Deus de Minas”. As apresentações concentraram-se em duas áreas: “captação e gestão de recursos e ativos”, por um lado, e “estruturação empresarial e internacionalização de negócios”, por outro.

A componente económica serviu também para enquadrar uma das principais iniciativas em desenvolvimento pela Casa dos Açores: a “Rota Açoriana de Minas Gerais”. O projeto procura “mapear municípios, património histórico, instituições culturais, atividades económicas e empreendimentos turísticos associados à influência açoriana no estado, transformando uma ligação histórica em instrumento de cooperação entre os territórios”.

Durante o encontro em Belo Horizonte foi assinalado simbolicamente o avanço da “Rota”, tendo “Madre de Deus de Minas” sido apresentada como marco zero do projeto. Está previsto para 12 de dezembro um lançamento na cidade, situada no Campo das Vertentes, região onde permanecem referências históricas relacionadas com a imigração açoriana.

Cláudio Motta, presidente da Casa dos Açores de Minas Gerais, enquadra a iniciativa numa estratégia de reconhecimento da contribuição dos açorianos para a formação de diferentes municípios mineiros. Segundo o responsável, a Rota pretende valorizar as dimensões histórica, social, cultural e económica dessa presença.

A construção do roteiro não começou com o encontro de setembro. Em fevereiro, durante uma iniciativa da Casa dos Açores em Andrelândia, já tinha sido anunciada a criação de uma rota turístico-cultural assente na herança açoriana existente em diferentes regiões de Minas Gerais. Desde então, a instituição tem desenvolvido contactos com municípios para ampliar a participação territorial no projeto. Em setembro, Cláudio Motta reuniu-se, por exemplo, com a Câmara Municipal de Barbacena para discutir a integração do município na iniciativa.

A “Rota” integra uma estratégia mais ampla da Casa dos Açores de Minas Gerais, instituição criada em 2025, em Belo Horizonte, sob a presidência de Cláudio Motta. A entidade procura articular a preservação da memória da imigração açoriana com projetos de turismo, empreendedorismo, educação, inovação e cooperação internacional entre Minas Gerais e o arquipélago.

Essa dimensão económica esteve presente no encontro realizado na capital mineira. A Nexus apresentou procedimentos relacionados com a constituição e instalação de empresas nos Açores e a Clique Cota abordou alternativas de acesso a capital e soluções financeiras. O objetivo foi “aproximar instrumentos de financiamento, preparação empresarial e expansão para novos mercados”.

Para a Casa dos Açores de Minas Gerais, a criação da “Rota” acrescenta uma nova dimensão a esta aproximação transatlântica. Além de recuperar os vínculos construídos pela imigração ao longo de gerações, o projeto procura estabelecer uma rede entre municípios mineiros e os Açores, associando identidade, património e turismo a novas possibilidades de desenvolvimento local e cooperação económica.

Ígor Lopes

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Açores

Ponta Delgada: José Andrade apresenta livro sobre as comunidades açorianas da América do Norte

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A Livraria Letras Lavadas, em Ponta Delgada, Açores, recebe na próxima terça-feira, dia 4 de agosto, às 18 horas, o lançamento do livro “An Unending Bridge – The Azorean Islands of North America”, ou “Uma Ponte Sem Fim – As Ilhas Açorianas da América do Norte”, em tradução livre, da autoria de José Andrade, autor e diretor regional das Comunidades do Governo dos Açores. A obra foi traduzida e prefaciada por Diniz Borges, que estará presente na sessão para apresentar este novo trabalho de José Andrade.

Segundo apurámos, “trata-se de uma coletânea de 35 crónicas sobre as comunidades açorianas radicadas nos Estados Unidos da América, Canadá e Bermuda”.
Este livro é uma coedição da editora americana Bruma Publications, pertencente ao Instituto Português Além-Fronteiras da Universidade do Estado da Califórnia em Fresno, e da editora açoriana Letras Lavadas, com sede em Ponta Delgada.

No prefácio do livro, Diniz Borges escreve que “os Açores e a América do Norte tornaram-se arquipélagos-espelho, cada um moldando o outro, cada um descobrindo-se através do reflexo do outro. No cerne desta obra está a missão de José Andrade — a incansável construção de pontes entre os Açores e a sua diáspora”.

“Como escritor, cronista e embaixador cultural, Andrade dedicou grande parte do seu trabalho a afirmar que os Açores não terminam nas suas costas. Através dos seus ensaios, conferências e diálogos entre comunidades, ajudou ambos os lados do Atlântico a reconhecerem-se não como parentes distantes, mas como partes de um mesmo corpo vivo”, conclui o professor açor-americano.

Este livro, integralmente escrito em inglês, é especialmente dedicado e destinado às novas gerações açordescendentes da América do Norte, que já não falam nem compreendem a língua portuguesa, mas que têm curiosidade de conhecer o essencial da cultura identitária dos seus pais e avós.

“Este livro é especialmente dedicado e destinado às novas gerações da diáspora açoriana da América do Norte – os filhos e netos dos nossos emigrantes dos Estados Unidos, Canadá e Bermuda, que já nasceram nesses países, nalguns casos nem falam ou compreendem a língua portuguesa, mas têm vontade e interesse de conhecer e viver a cultura identitária dos seus pais e avós, honrando o sangue açoriano que lhes corre nas veias em nome de uma Açorianidade sem fronteiras”, afirmou o autor José Andrade, que, apesar de ser diretor Regional das Comunidades do Governo dos Açores desde dezembro de 2020, iniciou a sua ligação à diáspora açoriana em funções anteriores como vereador da Cultura da Câmara Municipal de Ponta Delgada ou, ainda, enquanto deputado à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores.

Andrade soma cerca de 40 livros publicados, alguns dos quais diretamente relacionados com as comunidades açorianas e editados pela Letras Lavadas: “Conversas da Diáspora – 50 açorianos pelo mundo” (2024), “Transatlântico II – Açorianidade & Interculturalidade” (2024), “Transatlântico – As Migrações nos Açores” (2023), “John Correia – De Aprendiz de Canalizador a Presidente do Senado” (2019), “Açores no Mundo” (2017) e “Senhor Santo Cristo dos Milagres – De Ponta Delgada para o Mundo” (2013).

Ígor Lopes

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