Atualidade
Sintra integra a Adapt.local
O município de Sintra passa a integrar a Associação Adapt.local, uma rede de municípios e outras entidades que incentiva a implementar medidas de adaptação às alterações climáticas.
A integração da Associação Adapt.local, cuja assinatura de constituição decorreu no dia 20 de maio, composta por 20 municípios, incluindo Sintra, tem como objetivo dinamizar a adaptação local às alterações climáticas e implementação de planos municipais de ação climática, prestando o necessário apoio com vista à inclusão desta importante matéria ambiental nas políticas de atuação e nos instrumentos de planeamento quer das autarquias locais quer de outras entidades públicas ou privadas.
O presidente da Câmara Municipal de Sintra, Basílio Horta, referiu que “o nosso município não se demitirá das suas responsabilidades e compromissos em matéria de proteção ambiental e climática”, mencionando que “a constituição desta associação demonstra a importância que o trabalho em rede e com vários parceiros tem na concretização das políticas ambientais nacionais”.
Desde 2016 que o projeto ClimAdaPT.Local e a Rede Nacional de Municípios para a Adaptação Local às Alterações Climáticas, composta municípios e outras entidades como instituições de ensino superior, centros de investigação, organizações não-governamentais e empresas, têm vindo a promover ações dinamizadoras de adaptação local às alterações climáticas em Portugal que fomentem a inclusão desta temática nas políticas e instrumentos de atuação locais.
Foto: CMS.
Atualidade
Brasil: Escritora moçambicana, Énia Lipanga será destaque internacional do “6º Flitabira”
Uma das vozes de destaque da nova literatura moçambicana, a escritora, poeta e ativista Énia Lipanga é a convidada internacional do 6º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira, que acontece de 29 de outubro a 1º de novembro, no estado de Minas Gerais, no Brasil. Com uma trajetória que ultrapassou as fronteiras africanas, Énia chega ao Brasil em um momento de reconhecimento de sua produção literária, tendo seu livro “Sob a Capulana do Destino e Outros Contos” (Nandyala) entre os semifinalistas do Prêmio Oceanos 2026, uma das principais distinções da literatura escrita em língua portuguesa.
A participação de Énia Lipanga no Flitabira acontece no dia 30 de outubro, sexta-feira, às 17h, na mesa intitulada “Outras Formas de Existir”, ao lado da escritora e psicóloga indígena guarani Geni Núñez, com mediação de Ale Santos. O encontro aproxima perspectivas africanas e indígenas sobre as relações humanas, os efeitos da colonização e as possibilidades de construir outros modos de viver.
O 6º Flitabira tem patrocínio master da Vale, via Lei Rouanet, apoio da Prefeitura de Itabira, do Itaú e da FCCDA. Todas as atividades do Flitabira são gratuitas, com recursos de acessibilidade e transmissão ao vivo pelo YouTube: @flitabira. A conversa integra a programação do “6º Flitabira”, cujo tema, “A Máquina do Mundo em Nós”, celebra os 75 anos de Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade. A curadoria é de Afonso Borges, Sérgio Abranches e Calila das Mercês.
Natural de Maputo, Énia Lipanga construiu uma obra marcada pela experiência das mulheres moçambicanas e pela crítica às desigualdades sociais. A sua escrita percorre a poesia e a prosa, aproximando a criação literária das questões que atravessam a sociedade contemporânea. Autora de seis livros, ela também atua como rapper e promotora cultural, fazendo da palavra escrita e falada uma forma de intervenção pública.
O seu primeiro livro, “Sonolência e Alguns Rabiscos,” lançado em 2020, tornou-se um marco editorial ao ser publicado simultaneamente em tinta e braille, iniciativa pioneira na poesia moçambicana. Vieram depois obras como “Para Enxugar as Nódoas dos Meus Olhos” e “Ensaios da Partida”, nas quais a autora desenvolve uma escrita atravessada pelas experiências femininas, pelas relações humanas e pelas transformações da vida.
A trajetória de Énia também se distingue pela criação de espaços para a literatura fora dos circuitos tradicionais. Fundadora do sarau “Palavras São Palavras”, há mais de uma década ela promove encontros de poesia e apresentações artísticas que revelam novos talentos em Moçambique. À frente do movimento “IncluArte”, trabalha pela participação de artistas com deficiência na vida cultural. Sua concepção de acessibilidade vai além da adaptação dos eventos: propõe que a inclusão esteja presente desde a própria organização das atividades.
A escritora já participou de festivais e encontros literários em diferentes países, incluindo Portugal e Brasil. Em 2024, realizou uma circulação por cidades brasileiras, estabelecendo diálogos com autores e instituições culturais. Sua atuação em defesa dos direitos humanos também recebeu reconhecimento no Brasil.
A presença de Énia Lipanga no Flitabira amplia o diálogo do Festival com a literatura africana contemporânea, aproximando duas experiências literárias que compartilham a língua portuguesa, mas guardam histórias e expressões culturais próprias.
A programação desta nova edição do Flitabira pode ser conhecida em: https://flitabira.com.br/
Ígor Lopes
Atualidade
Equipa da Universidade de Coimbra está a desenvolver nova aplicação para prevenir o “burnout” em médicos internos
Uma equipa de investigação da Universidade de Coimbra (UC) está a desenvolver uma nova aplicação móvel para monitorizar e reduzir o desgaste psicológico durante o internato médico. Com esta intervenção inovadora, os investigadores esperam contribuir para a prevenção de um problema que afeta cerca de 40% dos médicos internos e, consequentemente, a qualidade dos cuidados de saúde prestados.
A aplicação está a ser desenvolvida no âmbito do projeto de investigação RESOUT: Aplicação móvel para monitorização e prevenção do burnout em médicos internos, liderado pelo Instituto de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC). O projeto vem dar continuidade a estudos anteriores da equipa da UC sobre a relação entre traços de personalidade e burnout, em que foi possível compreender “que estudantes e profissionais de medicina têm níveis elevados de perturbação psicológica, como stresse, ansiedade e depressão”, explica a investigadora do Instituto de Psicologia Médica da FMUC, Ana Telma Pereira, que coordena o estudo. “No RESOUT, dirigimos o foco para os médicos internos, já que é durante o internato que a prevalência do burnout atinge o seu pico, afetando mais de 40% dos profissionais, como verificámos com os nossos estudos anteriores”, acrescenta.
Já no âmbito de trabalhos preliminares do RESOUT foi possível perceber que “a associação entre burnout e erro médico é mediada parcialmente pela reduzida empatia e que também o perfeccionismo tem um efeito indireto no erro médico, que opera através do burnout e da reduzida empatia”, revela Ana Telma Pereira. É neste contexto que surge a ideia de criar uma aplicação que faz a recolha de informação acerca do modo como a pessoa se sente, pensa e comporta e da sua saúde e bem-estar. A partir desta informação, algoritmos de inteligência artificial vão identificar perfis individuais de risco e disponibilizar conteúdos personalizados de promoção da saúde mental, centrados, sobretudo, em estratégias de mindfulness e autocompaixão, “estratégias que a nossa investigação e outros estudos têm demonstrado estarem associadas a menores níveis de burnout e sofrimento psicológico”, elucida a investigadora.
Neste momento, a participação no projeto continua aberta. Os médicos internos podem participar neste projeto descarregando a aplicação ZENU, desenvolvida pela equipa de investigação para monitorizar parâmetros cognitivo-emocionais e comportamentais através de questionários. A versão para Android está disponível em https://play.google.com/store/
Após esta fase de utilização da aplicação, “a sua eficácia será avaliada através de um ensaio clínico envolvendo médicos internos, com recursos a questionários de avaliação psicológica, mas também a biomarcadores (como os níveis de cortisol) e a técnicas avançadas de neuroimagem por ressonância magnética funcional para analisar se a intervenção tem efeitos ao nível dos padrões de ativação e conectividade cerebral envolvidos na gestão de stresse psicossocial”, revela a investigadora da Universidade de Coimbra. “Esta abordagem permitirá compreender melhor as alterações cerebrais associadas ao burnout e o impacto da intervenção digital na sua prevenção e tratamento”, complementa.
“No futuro, esperamos que esta aplicação possa passar a ser utilizada, de forma gratuita, por médicos internos e outros profissionais de saúde, identificando precocemente sinais de desgaste emocional e disponibilizando intervenções personalizadas”, sublinha Ana Telma Pereira. “Para além de contribuir para melhorar a saúde mental dos médicos internos, o RESOUT poderá traduzir-se, igualmente, em benefícios diretos para os doentes e para as instituições de saúde, promovendo o bem-estar no trabalho e favorecendo uma prestação de cuidados mais segura e humanizada”, remata.
O projeto envolve também investigadores do Centro de Imagem Biomédica e Investigação Translacional do Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde e do Departamento de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC. É financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e conta com o apoio do Conselho Nacional do Médico Interno.
Açores
Rendas do Pico reforçam ligação entre património, identidade e economia local em Castelo Branco
As Rendas do Pico atravessaram o Atlântico insular para chegar a Castelo Branco, na Região Centro de Portugal continental, como testemunho de uma história construída por mulheres, economia familiar e transmissão de saberes. Catarina Isabel Gaspar Manito, presidente da Câmara Municipal da Madalena, na ilha do Pico, Açores, participou na primeira edição da “Bienal Internacional de Artes e Ofícios”, no Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco, levando ao encontro uma representação da Renda de Farpa, uma das expressões artesanais associadas à identidade cultural do território açoriano.
A iniciativa, que teve lugar entre os dias 4 e 5 de setembro, em Castelo Branco, reuniu representantes de Portugal, Brasil e Cabo Verde para debater património, economia criativa, inovação no artesanato e cooperação entre territórios. Castelo Branco integra desde 2023 a Rede de Cidades Criativas da UNESCO, na categoria de “Artesanato e Artes Populares”.
Em declarações exclusivas à Agência Incomparáveis, Catarina Manito destacou a ligação entre as rendas e a construção da identidade do concelho da Madalena.
“As Rendas do Pico fazem parte da nossa cultura, fazem parte da nossa identidade e do desenvolvimento daquilo que é o povo do concelho da Madalena. Têm também muito a ver com aquilo que é o trabalho da mulher na economia deste território”, afirmou.
A representação levada a Castelo Branco procurou mostrar apenas uma parte de um universo artesanal mais amplo existente na ilha. Segundo a presidente da Câmara, encontram-se identificadas centenas de formas e motivos associados à renda de farpa.
“É um orgulho para nós poder trazer aqui as rosas das Rendas do Pico. Trouxemos uma pequena amostra. Estão identificadas mais de 300 rosas de renda de farpa da ilha do Pico”, revelou.
A Câmara Municipal da Madalena tem vindo a desenvolver um projeto dedicado à valorização deste património artesanal. Segundo informação oficial da autarquia, a iniciativa Rendas de Farpa procura recuperar e divulgar a história, os protagonistas e as técnicas associadas a esta produção, transformando-a também num instrumento de desenvolvimento local e promoção territorial. O projeto conta com cofinanciamento do PRORURAL+.
“Nós desenvolvemos um projeto onde valorizamos a rendeira, temos um Dia Municipal da Rendeira e valorizamos realmente a história associada à renda de farpa”, explicou Catarina Manito.
O município assinala o Dia Municipal da Rendeira a 7 de fevereiro, data associada ao nascimento de Rosa Garcia, apresentada pela autarquia como nome central da chamada Indústria Caseira de Rendas e primeira empresária picarota. A iniciativa procura reconhecer publicamente gerações de mulheres que encontraram nesta atividade uma fonte de rendimento e um espaço de autonomia económica.
A história das rendas está também ligada à estrutura económica e social da ilha do Pico. Durante décadas, a agricultura, a produção de vinho e a atividade baleeira marcaram a economia local. Nas freguesias de São Mateus e São Caetano, a produção das rendas assumiu particular importância para os agregados familiares.
“Enquanto o homem vivia numa ilha marcadamente ligada à agricultura, à produção de vinho e à indústria baleeira, aquilo que sustentava a vida das famílias durante o ano era realmente a produção das rendas”, contextualizou.
A autarca destacou, neste percurso, o papel desempenhado pelas mulheres numa economia em que determinadas atividades masculinas proporcionavam rendimento apenas em períodos específicos.
“A primeira empresária feminina da ilha do Pico era uma compradora e vendedora de rendas. É essa a história que o município resolveu guardar e contar”, salientou.
Este passado está hoje no centro de uma estratégia municipal que procura garantir a continuidade do ofício.
“Estamos neste momento a querer valorizar e fazer passar para o futuro esta arte que tanto nos identifica como povo e que identifica principalmente a cultura e a identidade da mulher da Madalena do Pico”, defendeu.
A relevância histórica e social das rendeiras foi também documentada no filme Rendas de Farpa, promovido pela Câmara Municipal da Madalena e apresentado em 2024 no Auditório da Madalena. O documentário aborda a tradição das mulheres rendeiras, a transmissão das técnicas e o impacto económico desta atividade nas comunidades da ilha, destacando igualmente Rosa Garcia e a organização da produção artesanal feminina.
A Câmara da Madalena está agora a trabalhar no aprofundamento da documentação necessária à proteção deste património. Catarina Manito afirmou que o objetivo passa por “avançar com a certificação das Rendas do Pico”, estando em curso “trabalho de investigação e recolha documental”.
“Estamos a trabalhar para a certificação das Rendas do Pico. O município da Madalena está a desenvolver esse trabalho para que esta arte possa ser perpetuada e guardada para sempre na cultura e identidade do território da Madalena do Pico”, adiantou.
O processo encontra-se, de acordo com a presidente da Câmara, numa fase de preparação técnica.
“Neste momento estamos a fazer o trabalho de pesquisa e investigação. Temos um documentário já feito, recolha de dados e preparação de um dossier que depois será submetido à certificação o mais brevemente possível”, precisou.
A projeção das técnicas açorianas ultrapassa, entretanto, as fronteiras da região. A artista portuguesa Joana Vasconcelos utiliza renda e croché açorianos em diferentes séries do seu trabalho, recorrendo à colaboração de artesãs do Pico. O próprio atelier da artista identifica a utilização de renda de croché dos Açores em várias obras, demonstrando a incorporação destas técnicas tradicionais na criação artística contemporânea.
A exposição apresentada em Castelo Branco permitiu também observar a diversidade formal das rendas. Uma das peças levadas pela autarquia da Madalena reunia dezenas de motivos produzidos pelas rendeiras, muitos deles inspirados diretamente na natureza existente na ilha.
“Temos aqui representado um quadro onde estão 62 das rosas feitas pelas rendeiras do Pico. Elas inspiravam-se nas flores presentes na natureza, naquelas que existiam no nosso território. Temos a flor do maracujá, a margarida e, entre outras, a flor da amora”, descreveu.
A participação deu ainda visibilidade a técnicas particularmente associadas a localidades concretas.
“Temos aqui também a renda de gancho, muito característica da freguesia de São Caetano, onde só as rendeiras de São Caetano faziam esta renda, que é muito específica desta freguesia”, identificou.
A presença da Madalena na “Bienal Internacional de Artes e Ofícios” assumiu uma dimensão adicional pela realização do encontro numa cidade integrada na “Rede de Cidades Criativas da UNESCO”. Para Catarina Manito, apresentar este património num espaço internacional dedicado às artes e aos ofícios representa uma “oportunidade de levar para fora da ilha uma narrativa construída em torno da relação entre cultura, identidade e atividade económica”.
“Significa poder falar, poder apresentar ao mundo aquilo que é cultura, identidade e tradição. Porque não há artesanato sem cultura, não há artesanato sem identidade, não há artesanato sem tradição”, sustentou.
Esta relação entre território e produção artesanal constitui precisamente um dos eixos do projeto desenvolvido pela Câmara da Madalena. A autarquia identifica as Rendas do Pico como património cultural e instrumento potencial de desenvolvimento local, procurando aumentar a visibilidade do trabalho das rendeiras e aprofundar o conhecimento técnico e científico em torno deste saber tradicional.
Para Catarina Manito, contar esta história significa também ampliar a imagem da ilha do Pico para além de elementos do património já reconhecidos internacionalmente, como a paisagem vitivinícola.
“É isso que o Município da Madalena quer fazer: perpetuar, valorizar e mostrar ao mundo que, numa ilha no meio do Atlântico, houve mulheres com capacidade de olhar para a natureza, criar arte e criar economia para as suas famílias”, sublinhou.
A presidente da Câmara sintetizou essa dimensão histórica através da relação entre sobrevivência, criação e identidade coletiva.
“É a resiliência de um povo que não é mostrada apenas através de uma paisagem protegida da vinha e da produção vitivinícola, mas também através da produção das rendas de farpa do Pico”, concluiu.
A participação da Madalena na “Bienal Internacional de Artes e Ofícios” levou a Castelo Branco um património associado à história económica das mulheres da ilha do Pico e a um conhecimento transmitido entre gerações. Entre investigação, documentação, reconhecimento das rendeiras e preparação de mecanismos de proteção, o município procura agora assegurar que uma técnica nascida no quotidiano das famílias continue ligada à identidade e à economia do território.
Também em declarações à Agência Incomparáveis, Sónia Abreu, responsável pela Divisão de Museus e Cultura da Câmara Municipal de Castelo Branco e organizadora do certame, reconheceu que a participação açoriana, mais concretamente do Pico, “surpreendeu” pela positiva, ao trazerem peças da cultura local, sublinhando ainda que essa movimentação “abriu uma possibilidade de continuidade”.
“A disponibilidade foi imediata. Disponibilizaram-se para mandar as peças e, melhor do que isso, a senhora presidente da Câmara Municipal esteve presente nos dois dias da Bienal. Há aqui um envolvimento muito interessante que nós não esperávamos”, assinalou Sónia Abreu.
Ígor Lopes
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