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“Portugal não termina nas suas fronteiras, continua onde existir um português”

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No âmbito do IV Encontro da Federação das Associações da Diáspora (FAD), realizado em Viseu, no centro-norte de Portugal, entre os dias 8 e 9 de agosto, o primeiro-secretário da FAD, João Paulo Rocha, defendeu uma visão da diáspora assente na criação de pontes entre Portugal e os portugueses espalhados pelo mundo.

Foi precisamente a partir deste entendimento sobre o papel da diáspora que, em entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis, João Paulo Rocha revisitou o seu percurso pessoal, profissional e associativo, iniciado aos 17 anos e meio no setor ferroviário e desenvolvido ao longo de 37 anos, em paralelo com uma crescente intervenção cívica ligada à FAD, à Câmara de Comércio e Indústria Luso-Balear, à Casa de Portugal de Maiorca e ao movimento confrádico.

Ao longo da conversa, o responsável abordou ainda os desafios da renovação geracional do associativismo, a criação de uma rede internacional de mandatários da FAD, o potencial económico da diáspora, a preservação da cultura e das tradições portuguesas, a importância da música na aproximação às novas gerações e os projetos de cooperação com entidades associativas e culturais, defendendo uma diáspora capaz de transformar a dispersão geográfica numa verdadeira rede internacional.

O seu percurso teve início na área ligada às infraestruturas, correto?

Sim, ao sector ferroviário, onde aos 17 anos e meio iniciei na área da topografia, tendo passado pelas expropriações, gestão de frota, apoio a área internacional e com uma pequena passagem pela comunicação e área operacional onde ainda hoje me insiro, são 37 anos dedicados a uma área de grande sensibilidade e de enorme importância para o país e alias uma área que tem um lema com o qual me identifico e trabalho diariamente pro bono que é a de “ligar destinos”.

O seu percurso enquanto dirigente associativo cruza atualmente diferentes áreas: gestão, a diáspora, a economia e a cultura. Como se define enquanto dirigente e gestor?

Talvez, acima de tudo, como alguém que acredita na capacidade de criar pontes. Pontes entre pessoas, instituições, empresas, associações e comunidades. Portugal tem uma realidade muito particular: somos um país pequeno em território, mas enorme na sua presença no mundo. A nossa diáspora é uma extensão natural de Portugal e deve ser encarada como uma força, não apenas como uma realidade distante. É precisamente nessa perspetiva que tenho procurado desenvolver a minha atividade “pro bono público” na Casa de Portugal de Maiorca onde sou sócio e representante em Portugal, Federação das Associações da Diáspora onde sou primeiro-secretário, no Sindicato SNTF onde sou membro da mesa do concelho fiscal, mas também através da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Balear onde desempenho a função de Secretário-Geral e mais recentemente a minha ligação ao movimento confrádico entre outras.

É atualmente primeiro-secretário da Direção da FAD. O que significou assumir essa responsabilidade?

É uma grande responsabilidade, pois significa ter a capacidade de criar ordem a partir do caos, lançar luz sobre os caminhos e contribuir para a construção de um propósito comum. No que à FAD diz respeito, temos perante nós um desafio muito importante: representar, aproximar e dar voz às associações da diáspora, mas também ajudar a preparar o associativismo para o futuro. Não podemos continuar a olhar para as comunidades portuguesas apenas através dos modelos de há 30 ou 40 anos. Torna-se necessário construir novas pontes, fortalecer os laços que nos unem e preparar, com espírito de união e fraternidade, os caminhos que queremos deixar às próximas gerações. As comunidades mudaram, os portugueses mudaram e as novas gerações têm outras formas de comunicar, de participar e de se relacionar com Portugal. A Federação tem de acompanhar essa transformação.

No “IV Encontro da FAD”, em Viseu, nas últimas semanas, falou precisamente da necessidade de renovação…

Sim. A renovação geracional é um dos grandes desafios que temos pela frente. Muitas associações foram construídas com enorme sacrifício por homens e mulheres que emigraram há décadas. Devemos-lhes muito. Mas temos de garantir que esse trabalho não termina com essas gerações. Precisamos de criar espaço para os jovens, ouvir as suas ideias e dar-lhes responsabilidades. Não podemos pedir-lhes simplesmente que continuem a fazer aquilo que os seus pais e avós fizeram. Temos de lhes permitir construir o associativismo do seu tempo.

Disse em Viseu uma frase que acabou por marcar o encontro: “Portugal não termina nas suas fronteiras. Portugal continua onde existir um português”. O que quis transmitir?

Quis transmitir uma ideia muito simples: a comunidade portuguesa não acaba quando alguém atravessa uma fronteira. Um português que vive em França, na Alemanha, no Luxemburgo, no Brasil, nos Estados Unidos, na Venezuela ou nas Baleares continua a fazer parte de Portugal. A diáspora não deve ser vista apenas como algo que está fora. É uma parte de nós. Portugal não termina nas suas fronteiras. Continua onde existir um português.

Uma das apostas da FAD passa pela criação de uma rede internacional de mandatários. Por quê?

Porque uma Federação que pretende representar associações espalhadas pelo mundo não pode estar distante delas. Precisamos de pessoas no terreno, que conheçam as comunidades, que conheçam as associações, que percebam as suas dificuldades e que possam estabelecer uma ligação permanente com a direção da FAD. A rede de mandatários pretende precisamente criar essa proximidade. Queremos que a FAD esteja presente na Europa, na América do Norte e do Sul, em África, na Ásia e na Oceânia. Não queremos uma rede apenas no papel. Queremos uma rede humana, feita de pessoas que tenham vontade de servir as comunidades.

A sua atividade passa também pela Câmara de Comércio e Indústria Luso-Balear como secretário-geral. Como é que a economia se relaciona com a diáspora?

A diáspora tem uma enorme dimensão económica que nem sempre é suficientemente valorizada. Os portugueses espalhados pelo mundo são empresários, profissionais, investidores e empreendedores. Existem relações comerciais, conhecimentos, contactos e oportunidades que podem ser potenciados. O mundo global não são só os mercados mais apetecíveis, existem janelas de oportunidade que estão muito mal exploradas porque, por vezes, o que consideramos estar mais perto não exploramos e o mercado balear é um mercado dinâmico internacional e uma base importante no mercado da bacia do Mediterrâneo, que temos de explorar. Na CCLB procuramos precisamente aproximar Portugal das Ilhas Baleares e criar condições para que empresas, empresários e instituições possam encontrar interesses comuns. A assinatura do protocolo de cooperação entre a FAD e a CCLB representa também essa vontade de aproximar o associativismo da dimensão económica.

Portanto, a diáspora pode ser também uma plataforma económica, certo?

Sem dúvida, ela já o é em alguns países e, embora os números de portugueses não sejam tão expressivos nas Baleares como no resto da nossa diáspora, sempre são perto de 6000, e se contarmos com os residentes da CPLP aí o número de consumidores do mercado português sobe consideravelmente. Mas não devemos reduzir a diáspora à economia. A economia é uma das suas dimensões. A diáspora é cultura, é língua, é memória, é identidade, mas também é conhecimento, capacidade empresarial e relações internacionais. Quando conseguimos juntar essas dimensões, podemos criar projetos muito interessantes.

Há ainda uma dimensão cultural no seu percurso, através da Confraria de Saberes e Sabores da Beira “Grão Vasco”…

A cultura é absolutamente fundamental, porque é através dela que compreendemos quem somos, de onde vimos e que caminho queremos construir para o futuro. Nascido em Viseu, na então Casa de São Mateus, hoje Hospital Particular, na afamada Reta do Caçador, tenho, desde sempre, uma ligação muito forte e afetiva a esta região. Foi, contudo, numa aldeia do concelho de Vouzela, Cambra, que vivi a minha meninice até aos 12 anos. Como acontece com muitos portugueses, fui registado numa outra aldeia do mesmo concelho, Vermilhas, também conhecida por Carvalhal de Vermilhas, hoje geminada, do ponto de vista autárquico, com a aldeia onde cresci. Foi também a Cambra que regressei durante grande parte dos fins de semana e onde passei muitas das minhas férias. É ali que continuam a viver os meus pais, que procuro visitar sempre que me é possível, assim como os amigos e as pessoas que fizeram parte da minha infância e que continuam ligados à minha vida. Toda esta região, integrada em Lafões e no distrito de Viseu, representa muito mais do que um lugar de origem. São terras que guardam as minhas primeiras memórias, que contribuíram para a minha formação enquanto pessoa e que, inevitavelmente, fazem parte da minha identidade. É nesta paisagem humana e geográfica, entre Viseu, Vouzela, Cambra e Vermilhas, que encontro uma parte essencial das minhas raízes, das minhas memórias e do sentimento de pertença que continuo a transportar comigo, mesmo quando a vida me leva para outros caminhos. Esta ligação à cultura e às tradições começa na própria família. O meu avô paterno foi dirigente associativo de uma Banda Filarmónica e o meu avô materno foi regedor. Mais recentemente, os meus próprios pais fizeram também parte, durante alguns anos, de um grupo de cantares tradicionais. Portanto, a cultura, a tradição, a música e o associativismo não são para mim apenas conceitos ou temas sobre os quais falo: fazem parte da minha história familiar e da minha própria identidade. Costumo dizer que somos a súmula de um passado, de um presente que vivemos e das aprendizagens que nos projetam para o futuro. Somos aquilo que recebemos, mas também aquilo que aprendemos com os outros e aquilo que somos capazes de transmitir às gerações seguintes. É nessa aprendizagem permanente, feita de experiências, de pessoas, de histórias e de territórios, que conseguimos compreender melhor as necessidades reais do nosso país e da nossa sociedade. Foi nesse espírito que, no dia 9 de agosto, fui elevado a Confrade. Recebo esta distinção com enorme honra, mas sobretudo com um profundo sentido de responsabilidade. O movimento confrádico desempenha um papel muito importante na preservação dos saberes, dos sabores, das tradições e da memória coletiva. A nossa identidade não está apenas nos livros, nos arquivos ou nos monumentos. Está também na gastronomia, nos produtos da nossa terra, na música, nas tradições, nas pessoas e nas histórias que passam de geração em geração. E esta identidade assume uma importância ainda maior quando falamos da diáspora portuguesa. Para quem vive longe de Portugal, a cultura é muitas vezes uma das pontes mais fortes com a terra de origem. É através da gastronomia, da música, das tradições, da língua, das memórias familiares e das comunidades que se mantém vivo esse sentimento de pertença. Aliás, a Confraria de Saberes e Sabores da Beira “Grão Vasco”, com sede em Viseu, é um excelente exemplo desta capacidade de levar a cultura portuguesa para além-fronteiras. A Confraria tem vindo a expandir a sua presença internacional através de delegações, núcleos e protocolos com associações da diáspora, nomeadamente em França, no Brasil, na Suíça e, mais recentemente, no Reino Unido. Este trabalho demonstra que a cultura não conhece fronteiras e que as nossas tradições podem ser, simultaneamente, uma forma de preservar as nossas raízes e de aproximar comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Preservar a cultura não significa ficar preso ao passado. Significa compreender o passado para valorizar o presente e construir melhor o futuro. É manter viva a memória, mas também saber reinventá-la e transmiti-la às novas gerações, de uma forma que continue a fazer sentido num mundo em permanente transformação. É também por isso que considero que o movimento confrádico, o associativismo e a diáspora podem caminhar lado a lado. Todos têm a capacidade de preservar a nossa identidade, aproximar pessoas, criar pontes entre Portugal e as suas comunidades no estrangeiro e transmitir às novas gerações aquilo que recebemos das anteriores. Afinal, somos verdadeiramente a súmula de um passado, de um presente e de um futuro que estamos, todos os dias, a ajudar a construir. E talvez seja essa uma das maiores responsabilidades que temos: receber o legado daqueles que nos antecederam, valorizá-lo no presente e entregá-lo às gerações futuras ainda mais vivo, mais forte e mais universal. E essa identidade tem uma importância muito particular quando falamos da diáspora.

Por quê?

Porque quando um português leva consigo a sua cultura para outro país, leva também uma parte de Portugal. A gastronomia, a música, as tradições e a língua são instrumentos extraordinários de ligação. Por isso acredito que o movimento associativo e o movimento confrádico podem trabalhar muito mais em conjunto.

É essa ideia que está por detrás de alguns dos projetos que está a desenvolver?

Exatamente. Este é, aliás, um caminho que também estamos a procurar aprofundar através da própria diáspora. No passado dia 8 de agosto, durante o 4.º Encontro das Associações da Diáspora, a Federação das Associações da Diáspora (FAD) assinou um protocolo de cooperação com a Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto (CPCCRD), reforçando uma relação que pretende aproximar instituições, associações e comunidades em torno da cultura, do associativismo e da valorização da nossa identidade. Neste momento, estamos também a iniciar um projeto conjunto entre a Federação das Associações da Diáspora, a Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto e a Casa Portuguesa de Maiorca, com o objetivo de levar a cultura portuguesa às Ilhas Baleares. Queremos que este seja mais do que um projeto cultural: queremos que seja uma verdadeira ponte entre Portugal e a sua diáspora, criando oportunidades para divulgar os nossos saberes, sabores, tradições, música, património e identidade.

Por quê começar pela música?

Porque a música tem uma capacidade extraordinária de unir pessoas. Um coro pode juntar gerações, associações e comunidades. Não é necessário falar a mesma língua para compreender uma canção. E quando falamos de comunidades portuguesas, os coros podem ser também uma forma de aproximar os mais jovens da nossa cultura.

Esse projeto poderá ser replicado noutros países?

Essa é precisamente a nossa intenção. Maiorca pode ser um primeiro passo. Se conseguirmos criar um modelo de cooperação entre associações, instituições culturais e comunidades portuguesas, podemos depois levá-lo a outros países. A FAD deve ser também um espaço onde os projetos possam nascer, ser experimentados e depois replicados.

Voltamos, assim, à ideia de “ponte”…

Sim. É uma palavra que me acompanha muito. Uma ponte não existe para ficar parada. Existe para permitir que as pessoas passem de um lado para o outro. É isso que devemos fazer enquanto dirigentes: aproximar Portugal das comunidades e aproximar as comunidades de Portugal.

E como se consegue envolver os jovens nesse processo?

Primeiro, temos de os ouvir. Não podemos falar permanentemente sobre os jovens sem falar com eles. Depois temos de lhes dar espaço. Se queremos que participem, temos de lhes confiar responsabilidades. E temos de utilizar as ferramentas que eles utilizam. A comunicação digital, as redes sociais, os projetos internacionais, a música, a cultura, o empreendedorismo e a inovação podem ser portas de entrada para uma nova participação associativa. O associativismo do futuro terá necessariamente de ser mais aberto, mais digital e mais internacional.

Há quem diga que o movimento associativo português atravessa uma crise. Concorda?

Eu prefiro falar de transformação. Existem dificuldades, naturalmente. Algumas associações envelheceram, outras perderam capacidade de mobilização e muitas enfrentam dificuldades para encontrar dirigentes e voluntários. Mas também vejo oportunidades enormes. Temos uma nova geração de portugueses altamente qualificados, ligados digitalmente ao mundo e com uma relação muito forte com Portugal. O nosso trabalho deve ser criar condições para que essa geração descubra no associativismo uma ferramenta para participar e não apenas uma obrigação herdada.

Que papel deve ter a FAD nesse processo?

A FAD deve ser uma plataforma. Uma plataforma de ligação, de cooperação e de conhecimento. Não queremos substituir as associações. Queremos fortalecê-las. Queremos que uma associação portuguesa na Alemanha possa beneficiar da experiência de outra no Luxemburgo; que uma associação em Maiorca possa conhecer um projeto desenvolvido em França; que uma coletividade no Brasil possa estabelecer uma parceria com uma entidade em Portugal. Temos de transformar a dispersão numa rede.

E qual é, afinal, o futuro que imagina para a diáspora portuguesa?

Imagino uma diáspora mais ligada, mais participativa e mais reconhecida. Uma diáspora onde os jovens tenham voz, onde as associações trabalhem em rede, onde a cultura e a economia possam caminhar lado a lado e onde Portugal compreenda que os portugueses espalhados pelo mundo são uma enorme mais-valia. Não podemos olhar para a diáspora apenas como uma consequência da emigração. Devemos olhar para ela como uma das grandes forças de Portugal no mundo.

Se tivesse de resumir o seu próprio compromisso numa frase, qual seria?

Diria que quero ajudar a construir pontes. Pontes entre Portugal e a diáspora. Entre gerações. Entre associações. Entre cultura e economia. Entre tradição e futuro. Porque acredito que temos uma enorme responsabilidade: preservar aquilo que recebemos, mas sobretudo criar condições para que aqueles que vêm depois de nós tenham vontade de continuar. E, no fundo, é isso que significa servir a diáspora: não falar apenas dos portugueses que estão longe, mas trabalhar para que, onde quer que estejam, continuem a sentir que Portugal também é deles.

Ígor Lopes

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Trabalho de Barcelos na área da saúde mental em destaque no Palácio das Nações

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O presidente da Câmara Municipal de Barcelos, Mário Constantino Lopes, acompanhado pelo vereador Filipe Pinheiro, participou hoje no encontro internacional «Advancing Mental Health and Well-being – From Global Commitments to Community Impact», realizado no Palácio das Nações, em Genebra (Suíça), a convite do Embaixador de Portugal junto das Nações Unidas, João Mira Gomes. A iniciativa, promovida em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS), foi dedicada à promoção da saúde mental e do bem-estar, bem como à reflexão sobre a forma como os compromissos internacionais nesta área podem traduzir-se em ações concretas com impacto nas comunidades locais.

O evento reuniu representantes das Nações Unidas, da OMS, de diversos países bem como de outras organizações internacionais, proporcionando um espaço de partilha e cooperação tendo constituído uma oportunidade para projetar internacionalmente o trabalho desenvolvido em Barcelos no domínio da saúde mental.

Enquanto primeira Capital Mundial da Saúde Mental, no período 2023-2026, Barcelos tem vindo a afirmar o seu compromisso com a promoção do bem-estar e o desenvolvimento de respostas de proximidade. Na sua intervenção, Mário Constantino Lopes sublinhou que “não há saúde sem saúde mental”, defendendo o papel decisivo dos municípios na construção de respostas capazes de responder às necessidades das comunidades.

O presidente da Câmara destacou a criação, em Barcelos, da primeira Rede Municipal de Saúde Mental em Portugal, que integra 70 entidades, e o Plano de Ação desenvolvido em colaboração com instituições do concelho. Entre os projetos apresentados, destacou o Barcelos d’Abrigo, que já permitiu retirar 140 pessoas da rua; o VALIHUM+, dirigido ao apoio a pessoas com doença mental e às suas famílias; o Pró-Cuidador, dedicado ao apoio aos cuidadores; e a Sala Multissensorial da Escola Básica e Secundária de Vila Cova, que promove o bem-estar e apoia as necessidades das crianças e dos jovens.

Mário Constantino Lopes abordou ainda o compromisso de Barcelos com a criação e integração da Rede Europeia de Saúde Mental, que reúne 38 cidades, salientando a importância da partilha de boas-práticas, do desenvolvimento conjunto de políticas e da cooperação internacional. Como afirmou, “se os problemas da saúde mental não conhecem fronteiras, também as soluções não devem conhecer”.

O trabalho desenvolvido pelo Município assenta numa abordagem contínua e colaborativa, que envolve diferentes públicos e agentes locais, nacionais e internacionais, reforçando a importância da cooperação entre municípios, instituições e comunidades na promoção da saúde mental, da inclusão social e da qualidade de vida.

Como forma de agradecimento pelo convite, o presidente da Câmara Municipal de Barcelos ofereceu ao Embaixador João Mira Gomes um Galo de Barcelos, símbolo maior da cultura popular e da identidade do concelho, assinalando a participação institucional de Barcelos nesta iniciativa internacional.

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Do Brasil a Portugal e à Suíça, Josy Moura aposta na imagem estratégica para fortalecer a comunicação e a autoestima

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Josy Moura, consultora brasileira de imagem estratégica com propósito, esteve em Lausanne, na Suíça, onde participou no “Conexão Global Suíça”. A presença no encontro integrou uma nova etapa do seu percurso internacional, desenvolvido entre Brasil, Portugal e outros contextos europeus, com foco em “imagem, comunicação, autoestima e posicionamento”.

Natural de Minas Gerais e radicada em Lisboa desde janeiro de 2026, Josy construiu a sua trajetória profissional a partir de experiências em vendas, vestuário, construção civil e consultoria de imagem. Ao longo desse percurso, aprofundou a formação no Brasil e em França e passou a desenvolver metodologias próprias, entre elas o “Método Diplomacia das Cores”, com o qual procura alinhar identidade, presença e comunicação.

Em entrevista à Agência Incomparáveis, em Lausanne, Josy falou sobre a sua apresentação no âmbito do evento, entre 25 e 27 de setembro, quando apresentou uma visão da imagem que ultrapassa a dimensão estética e se relaciona com comportamento, confiança, presença e coerência entre aquilo que a pessoa é e aquilo que comunica. A participação no encontro suíço reforçou também o processo de expansão do seu trabalho, num ambiente marcado pelo “empreendedorismo, desenvolvimento pessoal e criação de redes internacionais”.

A sua trajetória profissional começou cedo, com formação em vendas aos 16 anos, e passou por diferentes áreas antes de chegar à consultoria de imagem. Como descreve esse percurso e quais experiências foram determinantes para construir o trabalho que desenvolve hoje?

O meu percurso foi construído em diferentes áreas e funções. Aos 16 anos, no meu primeiro curso de vendas, comecei a perceber a importância da imagem na forma como nos apresentamos, nos comunicamos e nos comportamos diante das pessoas. Na época, eu ainda não chamava isso de posicionamento ou de ruídos de imagem, mas hoje reconheço que aquele aprendizado despertou o meu olhar para esses sinais e para a mensagem que transmitimos antes mesmo de falar. Mais tarde, trabalhando com vestuário, esse olhar ganhou outra dimensão: eu não me preocupava apenas com a venda da peça, mas com o que fazia sentido para cada mulher e com a imagem que ela queria comunicar. A construção civil também sempre fez parte da minha vida. Além de consultora de imagem, sou responsável pela área administrativa na construção civil, na empresa da minha família. Essa experiência agregou conhecimentos e ampliou a minha visão profissional. São experiências diferentes que ampliaram a minha compreensão das pessoas e me ajudam hoje a orientar cada cliente sem apagar a sua identidade. Toda construção precisa de uma base; isso também se aplica à nossa caminhada. Para construir uma imagem congruente, primeiro é preciso saber quem somos e onde queremos chegar.

A sua formação em consultoria de imagem foi feita no Brasil e em França, com passagem por Paris, e hoje vive em Lisboa. De que forma essa vivência entre diferentes países e culturas influenciou a sua leitura sobre identidade, estilo, comportamento e posicionamento pessoal?

As formações no Brasil e a experiência em Paris ampliaram o meu repertório, mas também reforçaram uma convicção: referências de moda podem inspirar, porém não devem apagar a identidade de ninguém. Viver e trabalhar em contextos diferentes tornou-me mais atenta aos códigos culturais e à forma como cada pessoa deseja ser percebida. Hoje, procuro compreender primeiro a história, a rotina e os objetivos de cada cliente. O estilo precisa fazer sentido na vida real daquela pessoa e ser sustentável por ela, em qualquer lugar.

O seu trabalho combina imagem estratégica, visagismo, coloração pessoal, análise de silhueta e posicionamento. Na prática, como identifica os chamados ruídos de imagem e de que maneira esses detalhes podem interferir na forma como uma pessoa é percebida no ambiente profissional e social?

Eu identifico um ruído quando a imagem apresentada não traduz com clareza a intenção da pessoa. Isso pode aparecer no caimento e nas proporções da roupa, na escolha das cores, nos acessórios, no cabelo, na maquilhagem ou na adequação ao contexto. Os ruídos também podem estar numa arte demasiado carregada ou num estúdio desorganizado: é preciso ter um olhar atento, porque nada deve chegar antes de si. São detalhes que, em conjunto, podem desviar a atenção da mensagem que a pessoa quer transmitir. A consultoria não serve para encaixar alguém num padrão; serve para alinhar as escolhas visuais com a identidade, os objetivos e a presença que a pessoa deseja construir.

É criadora do “Método Diplomacia das Cores” e já orientou cerca de 300 mulheres em mentorias. Como funciona essa metodologia e que tipo de transformação procura gerar na relação entre imagem, identidade, confiança e posicionamento?

Eu organizo o “Método Diplomacia das Cores” em pilares que permitem olhar para a imagem de forma ampla e aplicar essa visão a diferentes necessidades. O primeiro é identidade e posicionamento: compreender quem é a pessoa, o que deseja comunicar e em quais contextos. O segundo é a leitura estratégica da imagem, que considera visagismo, cores, proporções e possíveis ruídos entre a intenção e a apresentação. O terceiro é estilo e guarda-roupa funcional, que pode envolver personal styling e detox do guarda-roupa. O quarto é aplicação prática e autonomia, com personal shopping, composição de looks e escolhas que façam sentido na rotina. Em todos os pilares, o objetivo é ajudar a pessoa a desenvolver um estilo próprio, coerente com a sua identidade e que consiga sustentar. Depois de orientar cerca de 300 mulheres em mentorias, a transformação que procuro gerar é mais consciência, confiança e autonomia para se posicionar. Essa visão também está no Imagem que Educa, uma iniciativa que coloca as pessoas no centro e une imagem, autocuidado, autoestima e propósito. As Árvores Guardiãs fazem parte dessa expressão de cuidado e conexão.

Vive atualmente em Portugal, depois de construir parte significativa da sua experiência no Brasil e de passar por outros contextos internacionais. Como avalia a adaptação do seu trabalho ao mercado português e quais diferenças encontra na forma como brasileiros e portugueses lidam com imagem, estilo e comunicação pessoal?

A adaptação tem sido uma oportunidade de escuta e aprendizagem. O acolhimento que encontrei em Lisboa tornou mais natural criar vínculos e compreender o contexto local. Estou a conhecer melhor o mercado português e as necessidades de quem me procura, ao mesmo tempo que trago a experiência que construí no Brasil. Prefiro não reduzir brasileiros e portugueses a estereótipos: há pessoas muito diferentes em ambos os lugares. O que muda são referências, hábitos e contextos, e o meu trabalho é compreender cada pessoa antes de propor caminhos. A consultoria precisa respeitar essa individualidade e traduzir a intenção de quem está à minha frente.

A sua participação no “Conexão Global Suíça”, em Lausanne, colocou o seu trabalho num ambiente dedicado à saúde emocional, desenvolvimento pessoal, empreendedorismo e criação de redes internacionais. O que representou para si estar neste encontro e como acredita que a consultoria de imagem pode contribuir para a autoestima, a comunicação, a presença e a forma como as pessoas se posicionam na vida pessoal e profissional?

Estar no “Conexão Global Suíça”, em Lausanne, foi uma oportunidade de levar o meu trabalho a um espaço de encontro, desenvolvimento e conexões internacionais. Senti que a minha voz e a minha experiência podiam atravessar fronteiras: do Brasil para Portugal e, dali, para a Suíça e para o mundo. A consultoria de imagem contribui para a autoestima quando ajuda alguém a reconhecer-se; para a comunicação, quando reduz os ruídos entre a mensagem e a apresentação; e para o posicionamento, quando a presença está alinhada com aquilo que a pessoa deseja expressar. Isso é especialmente importante ao falar em público: cuidar da imagem não substitui o conteúdo, mas ajuda a mensagem a chegar com mais clareza.

Por fim, onde as pessoas podem conhecer melhor o seu trabalho?

As pessoas podem conhecer melhor o meu trabalho nas minhas redes sociais, procurando por Josy Moura | Imagem Estratégica, e acompanhar também o Imagem que Educa. Partilho conteúdos sobre imagem, estilo, cores, posicionamento e os projetos que desenvolvo. Os endereços nas redes são: @josymoura.imagem e @projeto.imagemqueeduca

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“O passado faz parte da nossa história, mas não precisa de determinar o nosso futuro”, afirma Eliane Alves na Suíça

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Eliane da Silva Alves, brasileira de 49 anos e residente na Suíça há 15 anos, esteve em Lausanne entre 25 e 27 de setembro para participar no “Conexão Global Suíça”. Cozinheira de formação e com experiência como aide en cuisine e responsável por equipas de limpeza, Eliane levou ao encontro uma nova dimensão do seu percurso: a de autora, escritora, palestrante e mentora, apresentando ao público uma trajetória construída entre trabalho, imigração, escrita e desenvolvimento pessoal.

Foi em 2025 que publicou o primeiro livro, “Superação”, lançado em maio pela Editora Legado, de Salvador, obra autobiográfica que marcou a entrada da autora no universo literário. Em Lausanne, Eliane apresentou também “Vida com Abundância” e partilhou reflexões sobre recomeço, identidade, fé, propósito e valorização da vida, num evento que reuniu escritores, terapeutas, empresários e profissionais de diferentes áreas. Em entrevista à Agência Incomparáveis, Eliane sublinhou a sua presença na Suíça e reforçou o objetivo de levar os livros, as palestras e o movimento “O Renascer do Lótus com Propósito” a novos públicos e contextos internacionais.

Eliane, como começou o seu percurso pessoal e profissional até chegar à escrita? Que experiências da sua vida foram determinantes para assumir a literatura como uma forma de partilha, reflexão e transformação?

O meu percurso até chegar à escrita não começou no mundo literário. Na verdade, durante muitos anos, nunca imaginei que um dia me tornaria escritora. A minha trajetória começou muito cedo, marcada pela necessidade de lutar e trabalhar. Venho de uma família muito simples e conheci de perto a pobreza e as dificuldades. Por isso, aprendi desde cedo a procurar caminhos para mudar a minha realidade. Ao longo da minha vida profissional, trabalhei em diferentes áreas. Fui cozinheira, trabalhei na área da limpeza, inclusive em clínicas, cheguei a ser responsável por uma equipa e também tive experiências como empreendedora. Cada trabalho teve importância na construção da mulher que sou hoje, porque me ensinou responsabilidade, disciplina, coragem e, principalmente, a não desistir perante as dificuldades. Um dos momentos mais importantes da minha trajetória foi a decisão de sair do Brasil e vir para a Suíça. Deixar o meu país e, principalmente, ficar longe das minhas filhas foi uma decisão muito difícil. Vim à procura de trabalho e de melhores condições de vida, mas a imigração também me trouxe desafios, aprendizagens e uma grande transformação pessoal. A escrita surgiu muito mais tarde, quando comecei a perceber que havia uma história dentro de mim que precisava de ser contada. Durante muitos anos, tinha aprendido a trabalhar, a lutar e a sobreviver, mas ainda não tinha aprendido a colocar em palavras tudo aquilo que carregava. Quando comecei a escrever “Superação”, algo mudou. Percebi que a escrita não era apenas uma forma de registar a minha história. Estava também a ajudar-me a compreender a minha própria trajetória e a dar voz a experiências que permaneceram em silêncio durante muitos anos. Foi assim que nasceu a escritora. Não foi algo que planeei desde a infância. A escrita encontrou-me no momento em que eu estava preparada para transformar a minha história numa mensagem. Depois de “Superação”, compreendi que aquilo que vivi poderia ir além de mim. A escrita abriu caminho para uma nova etapa da minha vida, que hoje passa também pelas palestras e pela mentoria. As experiências mais determinantes foram precisamente aquelas que, durante muitos anos, tive dificuldade em compreender e expressar. A infância marcada pela pobreza, pela violência e pelo abuso, os desafios da vida adulta, a distância das minhas filhas quando vim para a Suíça, a imigração, os períodos de medo, depressão e crises de pânico fizeram com que acumulasse muitas perguntas e sentimentos ao longo da vida. Acredito que o ponto decisivo aconteceu quando percebi que já não queria apenas sobreviver à minha história. Precisava de compreendê-la, resinificá-la e descobrir quem poderia tornar-me depois de tudo o que tinha vivido. Foi nesse processo que a escrita ganhou um significado muito maior para mim. Quando comecei a escrever “Superação”, percebi que colocar as minhas experiências no papel permitia-me olhar para o passado de outra forma. Já não escrevia apenas sobre a dor. Refletia sobre aquilo que a dor me tinha ensinado, sobre as escolhas que fiz, sobre a minha fé e sobre a possibilidade de reconstrução. A partir daí, compreendi que a literatura poderia ser uma ponte entre a minha história e a história de outras pessoas. Aquilo que durante tantos anos foi silêncio passou a ser voz. E aquilo que um dia foi uma ferida pessoal começou a transformar-se numa mensagem capaz de gerar identificação, reflexão e esperança. Foi isso que me levou a assumir a literatura como parte da minha missão. Hoje, não escrevo apenas para contar o que vivi. Escrevo para transformar experiência em reflexão, dor em aprendizagem e palavras em possibilidades de recomeço. Quando um leitor se reconhece em alguma parte da minha história e percebe que também pode mudar a direção da própria vida, é nesse momento que a literatura, para mim, cumpre o seu verdadeiro papel de transformação.

Um dos seus livros tem como título “Superação”. Que história está por detrás desta obra, que episódios ou desafios pessoais estiveram na origem do livro e qual é a principal mensagem que pretende transmitir aos leitores?

“Superação” nasceu da minha própria história. É uma obra autobiográfica e, para compreender a origem deste livro, é preciso voltar à minha infância. Cresci numa realidade de muita pobreza, fome, medo e violência dentro de casa. O meu pai era alcoólico e presenciei muitas situações de violência contra a minha mãe. Ainda criança, vivi também uma das experiências mais dolorosas da minha história: fui vítima de abuso sexual cometido pelo meu próprio pai. Foram acontecimentos que deixaram marcas profundas e que, durante muitos anos, carreguei em silêncio. Na vida adulta, outros desafios se juntaram à minha história. Vivi uma relação marcada pela violência, enfrentei grandes dificuldades emocionais e precisei de tomar decisões muito dolorosas. Uma delas foi deixar as minhas filhas no Brasil e vir para a Suíça à procura de trabalho e de uma oportunidade de construir uma vida melhor para elas. A distância, a saudade e a responsabilidade de continuar, mesmo quando emocionalmente estava fragilizada, também fizeram parte desse processo. Durante muitos anos, fui uma mulher que, por fora, continuava a caminhar, a trabalhar e a lutar, mas, por dentro, ainda carregava muitas feridas. Cheguei a enfrentar períodos de depressão, medo e crises de pânico. Houve momentos em que simplesmente sobrevivia. Foi depois de tantos anos a guardar a minha história que nasceu a necessidade de escrever. Quando comecei a colocar no papel aquilo que tinha vivido, percebi que não estava apenas a escrever um livro. Estava finalmente a dar voz à menina e à mulher que permaneceram caladas durante tanto tempo. Por isso, “Superação” não nasceu de uma história que alguém me contou. Nasceu da história que vivi. Cada capítulo carrega uma parte da minha trajetória, desde a menina que conheceu muito cedo a dor e o medo até à mulher que decidiu enfrentar o passado, romper o silêncio e reconstruir a própria vida. Escrever “Superação” foi, para mim, transformar anos de silêncio em palavras e perceber que a minha história não precisava de terminar no lugar onde a dor tinha começado. A principal mensagem que quero transmitir com “Superação” é que a nossa história pode explicar muitas das nossas feridas, mas não precisa de determinar o nosso destino. Durante muitos anos, pensei que superar significava simplesmente continuar a viver apesar de tudo o que me tinha acontecido. Hoje compreendo que “Superação” é muito mais do que sobreviver. É ter coragem para olhar para a própria história, romper o silêncio, enfrentar os medos, procurar a cura e permitir-se recomeçar. Quero que cada pessoa que leia o meu livro compreenda que, por mais difícil que tenha sido o seu passado, ainda é possível escrever um novo capítulo. Não podemos mudar aquilo que aconteceu, mas podemos decidir o que faremos a partir daquilo que vivemos. Também quero mostrar que pedir ajuda não é sinal de fraqueza. Muitas vezes, passamos anos a tentar ser fortes sozinhos, quando o verdadeiro ato de coragem é reconhecer que precisamos de apoio para nos levantarmos. A minha fé em Deus ocupa igualmente um lugar fundamental nesta mensagem. Foi através da fé, das decisões que tomei e do processo de reconstrução da minha vida que comecei a compreender que as minhas feridas não precisavam de ser o fim da minha história. Por isso, quando alguém termina de ler “Superação”, gostaria que levasse consigo uma certeza: a dor pode fazer parte da sua história, mas não precisa de ter a palavra final. É possível levantar-se, reencontrar a própria voz e transformar aquilo que um dia nos feriu em força para construir uma nova história. Se a minha trajetória conseguir despertar esperança numa única pessoa e fazê-la acreditar novamente que também pode recomeçar, então “Superação” já cumpriu o seu propósito.

Em “Superação”, trabalha a ideia de que o passado não precisa de determinar aquilo que uma pessoa será no presente ou no futuro. Como foi transformar experiências pessoais, dificuldades e aprendizagens em literatura e o que espera provocar em quem se reconhece nessas páginas?

Sim. Em “Superação”, uma das ideias centrais é precisamente mostrar que o passado faz parte da nossa história, mas não precisa de determinar quem somos no presente nem quem nos tornaremos no futuro. Não posso mudar aquilo que vivi. Não posso apagar a pobreza, a violência, os abusos, os medos ou as perdas que fizeram parte da minha trajetória. Durante muito tempo, essas experiências influenciaram a forma como me via e como me posicionava perante a vida. Mas chegou um momento em que compreendi que, embora não pudesse mudar o meu passado, podia decidir o que faria com ele. Para mim, superar não significa esquecer ou fingir que nada aconteceu. Significa reconhecer a própria história sem permitir que ela continue a comandar a nossa vida. Foi quando comecei a olhar para o meu passado dessa maneira que percebi que não precisava de continuar a viver como vítima daquilo que me aconteceu. Poderia transformar as minhas experiências em aprendizagem, encontrar novamente a minha voz e construir uma nova história. Hoje, quando olho para a mulher em que me tornei, compreendo que sou muito mais do que aquilo que me aconteceu. O meu passado explica algumas das minhas cicatrizes, mas não define a minha identidade, o meu valor nem o meu destino. Essa é uma das mensagens que desejo deixar através de “Superação”: não escolhemos muitas das coisas que nos aconteceram, mas podemos escolher não lhes entregar o poder de decidir quem seremos daqui para a frente. Transformar as minhas experiências pessoais em literatura foi um processo muito profundo. Escrever significou regressar a lugares da minha história que, durante muitos anos, preferi manter em silêncio. Houve momentos em que precisei de parar, respirar, chorar e continuar, porque cada lembrança trazia consigo sentimentos que fizeram parte da minha vida. Ao mesmo tempo, a escrita permitiu-me olhar para essas experiências com uma nova consciência. Não queria simplesmente relatar as dificuldades que enfrentei. Queria compreender o que me ensinaram e mostrar que existe uma pessoa para além daquilo que lhe aconteceu. Quando coloquei a minha história no papel, percebi que estava a transformar silêncio em voz. As experiências continuavam a fazer parte do meu passado, mas já não ocupavam o mesmo lugar dentro de mim. Passei a vê-las não apenas pela dor que causaram, mas também pela mulher em que me fui tornando ao longo do caminho. Por isso, espero que quem se reconheça nas páginas de “Superação” não encontre apenas a minha história. Quero que encontre um espaço para refletir sobre a sua própria vida e, principalmente, para perceber que ainda existem possibilidades. Não quero provocar pena pelo que vivi. Quero provocar coragem, reflexão, esperança e decisão. Quero que alguém que esteja preso ao medo, ao silêncio ou às feridas do passado possa terminar uma página e pensar: “A minha história ainda não terminou. Eu também posso recomeçar”. Se a minha experiência puder ajudar uma pessoa a encontrar a própria voz, procurar ajuda, reconhecer o seu valor ou dar o primeiro passo em direção a uma nova vida, então transformar a minha história em literatura terá valido a pena. Porque, para mim, escrever “Superação” foi exatamente isso: transformar aquilo que um dia me silenciou numa voz capaz de alcançar outras pessoas.

O seu segundo livro, “Vida com Abundância”, apresenta uma proposta distinta, embora ligada ao desenvolvimento pessoal. Sobre o que fala esta obra, como surgiu o projeto e que significado atribui ao conceito de abundância para além da dimensão material?

“Vida com Abundância” nasceu como uma continuação natural da transformação que começou em “Superação”. Se no primeiro livro conto a história de uma mulher que precisou de enfrentar o passado, romper o silêncio e aprender a levantar-se, em “Vida com Abundância” surge uma nova pergunta: depois de superar, como aprender verdadeiramente a viver? Foi dessa reflexão que nasceu o projeto. Compreendi que superar a dor era fundamental, mas não era o ponto final. Depois de vencer tantas batalhas, precisava de descobrir como viver de forma plena, equilibrada e com propósito. Por isso, “Vida com Abundância” trabalha cinco áreas que considero fundamentais na construção de uma vida plena: a vida espiritual, emocional, física, os relacionamentos e o propósito. O livro convida o leitor a olhar para cada uma dessas áreas e perceber onde existe equilíbrio, onde é necessário cuidar, restaurar ou tomar novas decisões. Quando falo de abundância, não estou a falar simplesmente de dinheiro, bens ou sucesso profissional. Para mim, uma pessoa pode possuir muitas coisas materialmente e, ainda assim, sentir um enorme vazio interior. Abundância é plenitude. É ter paz dentro de si. É cuidar das emoções e do corpo, construir relações saudáveis, fortalecer a vida espiritual, reconhecer o próprio valor e compreender que a nossa existência possui um propósito. A minha fé em Deus está profundamente ligada a esse conceito. Para mim, viver com abundância é também compreender que fomos chamados não apenas para sobreviver aos nossos dias, mas para viver com sentido, fé, equilíbrio e propósito. Existe uma frase que resume muito bem a relação entre os meus dois livros: “Superação ensinou-me a vencer. Vida com Abundância ensinou-me para que venci”. “Superação” fala sobre sair de um lugar de dor. “Vida com Abundância” fala sobre aquilo que fazemos com a vida depois de decidirmos sair desse lugar. É esse o significado de abundância que desejo transmitir: não ter tudo, mas aprender a viver por inteiro, com Deus, connosco próprios, com as nossas emoções, com o corpo, com as relações e com o propósito que dá sentido à nossa caminhada.

Quando coloca lado a lado “Superação” e “Vida com Abundância”, que relação existe entre os dois livros? Podemos dizer que representam diferentes etapas do seu próprio percurso, primeiro o confronto com a dor e a “Superação” e, depois, a construção de uma nova forma de viver?

Quando coloco “Superação” e “Vida com Abundância” lado a lado, vejo dois livros diferentes, mas profundamente ligados. Para mim, representam duas etapas de uma mesma jornada. “Superação” é o livro do passado, do enfrentamento e do rompimento. Nele, conto a minha história, as dores que vivi, os desafios que precisei de enfrentar e o processo que me levou a compreender que aquilo que me aconteceu não precisava de determinar o resto da minha vida. É o momento de sair do silêncio, reconhecer as feridas e decidir levantar-se. Já “Vida com Abundância” nasce depois dessa decisão. Representa uma nova etapa: não apenas vencer aquilo que ficou para trás, mas aprender a construir aquilo que está pela frente. Foi quando compreendi que existe uma grande diferença entre sobreviver e viver. Durante muitos anos, sobrevivi. “Superação” representa a decisão de romper com esse lugar. “Vida com Abundância” representa a descoberta de que, depois de superar, também precisava de aprender a viver de forma inteira, espiritualmente, emocionalmente e fisicamente, assim como nas minhas relações e no meu propósito. Por isso, costumo dizer: “Superação ensinou-me a vencer. Vida com Abundância ensinou-me para que venci”. Um livro fala sobre não permitir que o passado determine o futuro. O outro fala sobre aquilo que podemos construir quando assumimos a responsabilidade pelo presente e descobrimos um propósito para o futuro. Se tivesse de resumir os dois numa única trajetória, diria: “Superação” é o levantar; “Vida com Abundância” é o caminhar. Um mostra que é possível sair da dor. O outro mostra que, depois de sair dela, também é possível florescer e viver com propósito. Os dois livros representam diferentes etapas do meu próprio percurso e, de certa forma, mostram a mulher que fui e a mulher que escolhi tornar-me. “Superação” representa o confronto com a minha história. Foi o momento de olhar para as dores que carreguei durante tantos anos, romper o silêncio, enfrentar medos e compreender que o passado fazia parte de mim, mas não precisava de continuar a determinar a minha vida. “Vida com Abundância” nasce noutro momento. Depois de aprender a levantar-me, surgiu uma pergunta muito importante: como quero viver daqui para a frente? Foi então que percebi que superar não era o fim da caminhada. Precisava de construir uma nova forma de viver, cuidando da minha vida espiritual, das minhas emoções, do meu corpo, das minhas relações e, principalmente, compreendendo o meu propósito. Por isso, vejo “Superação” como uma passagem da dor para a cura, do silêncio para a voz e do medo para a coragem. Já “Vida com Abundância” representa a passagem da sobrevivência para uma vida consciente, equilibrada e com propósito. Os dois livros contam, portanto, uma transformação. Primeiro, precisei de compreender que a dor não tinha o direito de escrever o final da minha história. Depois, precisei de compreender que vencer também trazia uma responsabilidade: decidir o que faria com a vida que estava diante de mim. Hoje, compreendo que não venci apenas para continuar a viver. Venci para encontrar a minha voz, descobrir o meu propósito e transformar a minha experiência numa forma de alcançar outras pessoas.

No “Conexão Global Suíça”, em Lausanne, apresentou os seus livros e participou como autora, palestrante e mentora. Que temas levou ao público durante a sua intervenção e que aspetos da sua própria história considerou importante partilhar num encontro dedicado à valorização da vida, saúde emocional e desenvolvimento pessoal?

No “Conexão Global Suíça”, em Lausanne, a minha intervenção esteve muito ligada à valorização da vida, à saúde emocional, ao desenvolvimento pessoal e, principalmente, à importância de encontrarmos força para recomeçar. Levei ao público temas que fazem parte não apenas dos meus livros, mas também da minha própria trajetória: superação, medo, silêncio, identidade, coragem, posicionamento, fé e propósito. Falei sobre a diferença entre simplesmente sobreviver e tomar a decisão de reconstruir a própria vida. Para mim, era importante não subir ao palco apenas como autora, palestrante ou mentora. Queria estar ali também como mulher, partilhando uma história real. Por isso, falei sobre momentos em que eu própria perdi a minha voz e passei anos a carregar dores em silêncio. Partilhei que enfrentei experiências muito difíceis desde a infância e que, na vida adulta, também atravessei períodos de medo, depressão e crises de pânico. Houve uma época em que estava viva, cumpria as minhas responsabilidades e continuava a trabalhar, mas interiormente percebia que não estava a viver plenamente. Esse foi um dos aspetos que considerei mais importante partilhar naquele encontro: existe uma grande diferença entre estar vivo e sentir-se verdadeiramente vivo. Também falei sobre a importância de pedir ajuda, de não guardar a dor em silêncio e de compreender que procurar apoio não diminui ninguém. Pelo contrário, pode representar o início de uma mudança. A minha própria história mostra que é possível sair de um lugar de dor, reconstruir a identidade, encontrar novamente a própria voz e descobrir um propósito. Foi precisamente essa transformação que deu origem aos meus livros e, posteriormente, ao trabalho que hoje desenvolvo com outras mulheres. A mensagem que procurei deixar naquele encontro foi a de que a nossa vida tem valor, a nossa voz tem valor e pode sempre existir um novo começo. Enquanto existe vida, existe a possibilidade de tomar uma decisão diferente, procurar ajuda, reconstruir caminhos e voltar a sonhar. Não subi àquele palco para mostrar uma mulher que nunca sofreu. Subi para mostrar uma mulher que sofreu, caiu, precisou de ajuda, se levantou e decidiu transformar a própria experiência numa forma de encorajar outras pessoas a escolherem também a vida.

Como avalia a experiência de participar neste evento na Suíça, num ambiente que reuniu escritores, terapeutas, empresários e profissionais de diferentes áreas?

Participar neste evento na Suíça foi uma experiência muito enriquecedora. Estar num ambiente com escritores, terapeutas, empresários e profissionais de diferentes áreas proporcionou uma troca muito especial de conhecimentos, experiências e histórias. Para mim, foi também uma oportunidade de apresentar os meus livros, partilhar a minha trajetória e perceber como histórias diferentes podem encontrar-se em torno de um mesmo propósito: inspirar, transformar e contribuir para a vida de outras pessoas. Saí desse encontro com novas ligações, aprendizagens e ainda mais certeza da importância de criar espaços onde as pessoas possam partilhar conhecimento, experiências e propósito.

Que contactos, testemunhos ou momentos ficaram dessa passagem por Lausanne e que importância têm encontros desta natureza para autores que procuram chegar a novos públicos?

Ficaram as ligações, os testemunhos e o carinho das pessoas que se identificaram com a minha história. Mas ficou também um despertar pessoal: percebi que sou capaz de ir mais longe e que preciso de continuar a aprender e a preparar-me. Esse encontro despertou em mim o desejo de aprofundar os meus conhecimentos, especialmente em áreas ligadas ao comportamento humano e à saúde emocional, para acrescentar cada vez mais ao trabalho que desenvolvo com mulheres no movimento “O Renascer do Lótus com Propósito”. Para mim, crescer também significa estudar, evoluir e estar mais preparada para servir.

Depois da publicação de “Superação” e “Vida com Abundância”, quais são atualmente as suas principais preocupações enquanto escritora e mentora?

Depois de “Superação” e “Vida com Abundância”, a minha principal preocupação é continuar a crescer e a preparar-me para que a minha mensagem tenha cada vez mais responsabilidade e propósito. Como escritora, quero produzir conteúdos que provoquem reflexão e transformação. Como mentora, quero aprofundar os meus conhecimentos sobre desenvolvimento pessoal e saúde emocional para estar mais preparada para acompanhar e orientar mulheres. Hoje, o meu propósito não é apenas contar a minha história, mas usar aquilo que aprendi para contribuir com outras mulheres através de “O Renascer do Lótus com Propósito”, ajudando-as a encontrar a sua voz, fortalecer o seu posicionamento e construir novos caminhos.

Está a preparar novos livros, palestras, projetos ou iniciativas internacionais, e que mensagem gostaria de deixar às pessoas que atravessam momentos difíceis e procuram reconstruir a própria trajetória?

Os meus projetos estão a crescer comigo. Depois do lançamento de “Superação”, em 24 de maio de 2025, nasceu “Vida com Abundância”, que já apresentei no “Conexão Global Suíça”, em Lausanne, e que ainda será oficialmente lançado. Também recebi com muita gratidão o convite da Raíssa para participar no livro “Conexão Global: O Legado, O Ciclo Acaba em Mim!”. Hoje sou embaixadora da “Conexão Global em Lausanne”, palestrante e estou a preparar-me cada vez mais para atuar como mentora, porque quero desenvolver o meu trabalho com responsabilidade. Quero levar os meus livros, as minhas palestras e o movimento “O Renascer do Lótus com Propósito” mais longe. O meu desejo é que a minha história ultrapasse fronteiras, toque vidas e gere uma transformação que não alcance apenas mulheres, mas também as suas famílias, as suas casas e, consequentemente, a sociedade. Ver este trabalho a ser reconhecido tem sido muito gratificante. Participar no Salão do Livro e receber reconhecimentos por “Superação”, incluindo a homenagem que receberei no dia 17 de outubro no “Força, o Seu Nome é Mulher”, confirma para mim que uma história que nasceu de momentos tão difíceis pode transformar-se numa mensagem de esperança para outras pessoas. Acima de tudo, vejo tudo isto como uma missão que Deus colocou nas minhas mãos. Acredito que Ele transformou a minha história em propósito e que, a cada nova oportunidade, estou a ser preparada para cumprir essa missão: levar uma mensagem de fé, perdão, renascimento e transformação cada vez mais longe. A mensagem que deixo para quem atravessa momentos difíceis é: não permita que uma fase difícil se transforme na definição da sua vida. O passado faz parte da sua história, mas ainda pode escolher os próximos capítulos. Procure ajuda, continue a aprender, encontre a sua voz e tenha coragem para construir a sua própria trajetória.

Ígor Lopes

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