Atualidade
Lisboa: Fiocruz inaugura primeiro escritório europeu nas instalações da ApexBrasil na capital portuguesa
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com sede no Rio de Janeiro, Brasil, inaugurou, na passada quarta-feira, 15 de julho, o seu primeiro escritório permanente na Europa, instalado na sede empresarial da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), em Lisboa, durante uma cerimónia que reuniu responsáveis governamentais, académicos e institucionais portugueses e brasileiros, assinalando um novo ciclo de cooperação entre os dois países nas áreas da saúde, investigação científica, inovação tecnológica e desenvolvimento industrial.
Segundo os seus responsáveis, a abertura da representação europeia da Fiocruz concretiza um compromisso assumido pelos governos de Portugal e do Brasil durante a “Cimeira Luso-Brasileira de 2023” e representa um passo estratégico para consolidar Lisboa como plataforma de ligação entre o sistema científico brasileiro, o espaço europeu e os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
Instalado no escritório da ApexBrasil na capital portuguesa, onde já se encontram representadas outras instituições brasileiras, como a Embratur e, futuramente, a Embrapa, a nova base da Fiocruz pretende facilitar o desenvolvimento de projetos conjuntos entre universidades, centros de investigação, empresas tecnológicas e entidades reguladoras, “reforçando simultaneamente a internacionalização da ciência brasileira e a cooperação entre os sistemas nacionais de saúde”.
Durante a cerimónia, foram também formalizados novos acordos de cooperação entre a Fiocruz, a Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, I.P (Infarmed), Portugal, e as universidades portuguesas, ampliando uma relação científica que já se desenvolve há vários anos e que agora ganha uma estrutura permanente em território europeu.
Brasil defende inovação com acesso universal
O ministro da Saúde do Brasil, Alexandre Padilha, começou por enquadrar a instalação do escritório como a concretização de um compromisso assumido pelo Presidente Lula da Silva durante a “Cimeira Luso-Brasileira de 2023”, recordando que a abertura da representação da Fiocruz em Lisboa foi acompanhada de perto pelo chefe de Estado brasileiro.
Para o ministro brasileiro, Portugal era o local natural para acolher a primeira representação permanente da Fiocruz fora do Brasil, não apenas pelos laços históricos entre os dois países, mas também pela proximidade construída entre os respetivos sistemas públicos de saúde.
“Os dois sistemas nacionais de saúde dos países, o Sistema Nacional de Saúde (SNS) português e o Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil, surgem no mesmo contexto histórico da redemocratização dos dois países. Nós, ao construir o SUS, aprendemos muito com a luta dos portugueses para construir o seu Sistema Nacional de Saúde e com os seus desenhos e arranjos institucionais”, vincou este governante, que reiterou que a presença da Fiocruz em Lisboa permitirá aprofundar essa cooperação, reforçando a ligação da instituição brasileira ao ecossistema científico europeu e aos países de língua portuguesa.
“A Fiocruz é a maior instituição de saúde do nosso país, tem um papel muito importante na pesquisa, na formação profissional, mas também na produção de medicamentos, de tecnologias. E a Fiocruz, estando aqui em Portugal, amplia a sua parceria com empresas, instituições da Europa como um todo e com países, sobretudo os países de língua portuguesa que estão na África, além do Timor-Leste”, salientou.
“A Fiocruz aqui também vai estar mais presente, inclusive na realidade de saúde dos brasileiros e brasileiras que vivem em Portugal em parceria com o Sistema Nacional de Saúde português”, acrescentou.
Ao longo da intervenção, Padilha sublinhou também que a internacionalização da Fiocruz responde aos atuais desafios globais da saúde pública, defendendo que a inovação deve estar sempre associada ao acesso universal aos cuidados de saúde.
“Quando nós falamos de inovação, a gente fala de inovação pensando em acesso, sempre. Porque nós temos vários países extremamente inovadores cuja inovação nunca chega à população do seu próprio país. Muitas vezes inovam e exportam para o mundo inteiro, mas tem um abismo do acesso da população do seu próprio país para os inovadores. Inovação sem acesso não deveria se chamar inovação. Inovação sem acesso é injustiça, não tem outro nome”, declarou, frisando que “essa é uma característica de dois países como Portugal e Brasil que assumiram o compromisso de ter sistemas nacionais públicos de saúde para os quais é fundamental aumentar a sua capacidade de produção e desenvolvimento de inovação guiada pelo acesso”, concluiu.
Governo português destaca Fiocruz como referência mundial
Por sua vez, a ministra da Saúde de Portugal, Ana Paula Martins, classificou a instalação da representação permanente da Fundação Oswaldo Cruz em Lisboa como um marco na cooperação entre os dois países, considerando que a escolha de Portugal representa um reconhecimento da qualidade das instituições nacionais e do trabalho conjunto desenvolvido ao longo das últimas décadas nas áreas da saúde, ciência e tecnologia.
“Esta escolha constitui, naturalmente, uma honra para o nosso país, mas representa também o reconhecimento da qualidade das instituições portuguesas, da proximidade entre os nossos sistemas científicos, de saúde e tecnológicos, e da relação de confiança que Portugal e o Brasil têm vindo a construir ao longo das últimas décadas”, afirmou.
De acordo com Ana Paula Martins, a presença permanente da Fiocruz vai muito além da abertura de um escritório, criando uma estrutura de cooperação científica e institucional entre Portugal, Brasil, Europa e o espaço lusófono.
“A Fiocruz é uma instituição de referência mundial na investigação, na inovação e na saúde pública. A sua presença em Lisboa cria uma ponte permanente entre o ecossistema científico e tecnológico brasileiro e Portugal, a Europa e o espaço lusófono. Para nós, é muito mais do que a celebração de um escritório. É uma visão partilhada de cooperação baseada na ciência, na inovação, na formação, na produção de conhecimento e no fortalecimento dos sistemas de saúde”, realçou a ministra, que salientou também que os protocolos assinados com o Infarmed, universidades portuguesas e outras entidades demonstram que esta parceria assenta numa cooperação já consolidada e que agora ganha uma dimensão permanente.
“Não começamos do nada, bem pelo contrário. Começamos já com muito trabalho feito e estamos a ampliá-lo. Temos bases sólidas para desenvolver conhecimento, reforçar capacidades institucionais, promover inovação e gerar benefícios concretos para as populações dos nossos países”, referiu.
Ana Paula Martins enquadrou ainda esta iniciativa no contexto dos desafios globais da saúde, defendendo que nenhum país consegue responder isoladamente às transformações em curso e que a cooperação internacional será determinante para reforçar os sistemas públicos.
“A saúde não tem fronteiras, os desafios da saúde são cada vez mais globais e nenhum país os vai conseguir enfrentar sozinho. Precisamos de instituições fortes, de redes internacionais de confiança e de parcerias capazes de transformar o conhecimento em melhores políticas e melhores cuidados de saúde”, disse, sem deixar de adiantar que, “com a Fiocruz em Portugal, seremos seguramente mais fortes, nós, os portugueses, e o Serviço Nacional de Saúde também será mais forte”.
Fiocruz aposta na internacionalização da investigação
Já o presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Mário Moreira, recordou que a Fiocruz representa simultaneamente o Sistema Único de Saúde brasileiro, o sistema nacional de ciência e tecnologia na área da saúde e uma das principais instituições de investigação da América Latina, defendendo que a presença permanente em Portugal permitirá estreitar relações com universidades, empresas e centros de investigação europeus.
“A partir da nossa localização na Embaixada do Brasil e aqui na ApexBrasil, poderemos interagir, estreitar os laços com o sistema de saúde português, com o sistema de ciência e tecnologia português e com o empresariado aqui de Portugal e também da Europa”, frisou.
Para Mário Moreira, a decisão de instalar a Fiocruz em Portugal responde também à necessidade de acelerar o desenvolvimento científico e tecnológico da instituição, integrando-a num ecossistema europeu mais maduro de inovação.
“Hoje os desafios da saúde são de ordem global. Já foi o tempo em que cuidar da saúde de um país era suficiente para cuidar da sua população. Hoje os desafios são comuns e nenhum país consegue enfrentá-los sozinho. Internacionalizar as atividades da Fiocruz é fundamental e o passo que damos é inserir a Fiocruz num ambiente de ciência e tecnologia maduro, que possa acelerar os nossos projetos a partir de cooperações com indústrias inovadoras”, disse.
O presidente da Fiocruz destacou também que Portugal é já o principal parceiro internacional da instituição em matéria de cooperação científica, existindo projetos em curso com várias universidades e entidades portuguesas, mas considerou que a instalação permanente permitirá alargar essa colaboração ao desenvolvimento tecnológico e industrial.
“Portugal é, de longe, o país com o qual mais cooperamos. Temos intercâmbio de professores, projetos científicos conjuntos e desenvolvimento de produtos. Agora a Fiocruz insere-se em solo português para fazer também desenvolvimento tecnológico e inovação que possa favorecer tanto o sistema de saúde português como o sistema de saúde brasileiro”, referiu.
O presidente da Fiocruz explicou ainda que a presença institucional ficará repartida entre dois espaços complementares: um escritório na Embaixada do Brasil em Lisboa, dedicado à diplomacia da saúde e à cooperação estruturante com Portugal e com os países da CPLP, e outro instalado nas instalações da ApexBrasil, também na capital portuguesa, orientado para ciência, inovação, tecnologia e ligação ao setor empresarial.
“Na Embaixada brasileira teremos uma atividade importante de diplomacia da saúde. A Fiocruz aqui é também representante do Governo brasileiro fazendo diplomacia da saúde. Já neste espaço da ApexBrasil queremos inserir-nos nos sistemas de saúde mais avançados, desenvolver inovação, aproximar-nos da indústria portuguesa e ampliar as nossas capacidades de cooperação científica e tecnológica”, concluiu.
ApexBrasil sublinha desenvolvimento económico com a instalação da Fiocruz em Portugal
Na visão do presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, a instalação da Fiocruz em Lisboa é parte da estratégia do Governo brasileiro para reforçar a presença institucional do Brasil em Portugal e aproximar empresas, ciência, tecnologia e inovação dos mercados europeus.
“O presidente Lula, em 2023, trabalhou a ideia de termos um espaço em Portugal, aqui em Lisboa, que reunisse o Brasil, que reunisse as entidades, que desse fôlego e que acelerasse essa relação estratégica de amigos, de parceria, de cooperação e de comércio também”, começou por explicar Müller, atestando que a Fiocruz foi uma das primeiras instituições a aderir ao projeto e representa hoje um elemento central na estratégia de internacionalização do complexo económico-industrial da saúde brasileiro.
O responsável salientou que, para a ApexBrasil, a presença da instituição em Portugal permitirá criar oportunidades de inovação, desenvolvimento tecnológico e cooperação internacional.
“Para a ApexBrasil, que é a agência que promove o Brasil no mundo, promove as empresas, o empreendedorismo brasileiro e atrai investimentos, é muito importante ter neste ambiente aqui em Portugal a Fiocruz, porque ela atrai, além das possibilidades de trabalharmos com o mercado europeu, principalmente parcerias de inovação, de tecnologia para desenvolver melhor os nossos sistemas de saúde e também cooperar com os sistemas de saúde de outros países, principalmente os países africanos, os países de língua portuguesa e conectar com todo o ambiente de inovação aqui na Europa”, frisou.
Laudemir Müller considerou ainda que a cooperação na área da saúde deve ser encarada também como um motor de desenvolvimento económico, defendendo que o reforço da inovação e da capacidade produtiva poderá aumentar a presença das empresas brasileiras no mercado europeu.
“A Europa importa mais ou menos 20 mil milhões de dólares desta área de medicamentos e fármacos. O Brasil exporta 472 milhões. Então, de 20 mil milhões, a gente exporta meio milhar de milhões. Meio milhar de milhões é bastante coisa, mas olha o quanto que a gente tem para crescer”, enfatizou.
Na sua perspetiva, esta estratégia permitirá reforçar a cooperação científica, o desenvolvimento tecnológico e a internacionalização das empresas brasileiras.
“Estamos falando de saúde, estamos falando de cooperação, estamos falando de tecnologia, estamos falando de ciência e estamos falando de emprego, exportação e desenvolvimento também. É disso que estamos falando, e isso a gente tem que fazer juntos, porque esse é um tema que não é nacional, é um tema cada vez mais global”, argumentou.
Presidente da Funcex reforça apoio da entidade à internacionalização brasileira
Por fim, o presidente da Fundação de Comércio Exterior e Relações Internacionais (Funcex), presente em Portugal através da Funcex Europa, Antonio Carlos da Silveira Pinheiro, enquadrou a instalação do primeiro escritório europeu da Fiocruz como mais um passo na internacionalização das instituições brasileiras, explicando que a própria Funcex adaptou recentemente a sua missão para acompanhar este tipo de processos através do apoio à Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde (Fiotec) do Brasil, entidade que presta suporte à Fiocruz no campo do apoio técnico e operacional às atividades da entidade.
“Estamos dando suporte à internacionalização e, por consequência, a Fiotec faz o mesmo com a Fiocruz. É uma extensão. É isso que nós ampliamos no Estatuto da Fundação”, explicou Antonio Carlos da Silveira Pinheiro, sublinhando que a Funcex “procura assumir um papel de suporte institucional”, privilegiando o “fortalecimento das entidades parceiras em vez do protagonismo próprio”.
“A Fundação não se propõe a ser protagonista. Desde que nasceu, através do seu estatuto, presta serviço, é suporte de ações”, disse, acrescentando que “as nossas excelências se dão pelas excelências dos nossos parceiros”.
Antonio Carlos da Silveira Pinheiro recordou também que a própria criação da ApexBrasil nasceu de um estudo desenvolvido pela Funcex em 1997, considerando particularmente simbólico que a fundação que hoje lidera acompanhe agora a expansão internacional de várias instituições brasileiras reunidas em Lisboa.
Na sua perspetiva, a presença permanente da Fiocruz em Portugal representa uma “oportunidade” para aprofundar a cooperação científica, tecnológica e institucional entre Brasil e Portugal, permitindo reforçar a ligação ao espaço europeu e aos países lusófonos.
“Não podemos ter nenhuma ação excludente ou nenhuma ação onde a gente não perceba que ela é menos ou mais importante”, defendeu Antonio Carlos da Silveira Pinheiro, considerando que “todas as ações que levam a um resultado positivo devem ser postas na mesa, devem ser trabalhadas e devem ser, principalmente, concluídas”.
A instalação do escritório da Fiocruz em Lisboa simboliza, assim, mais do que a abertura de uma representação internacional. Constitui um novo instrumento de cooperação permanente entre Portugal e Brasil, aproximando governos, universidades, centros de investigação, empresas e organismos reguladores num momento em que a inovação, a soberania tecnológica e o reforço dos sistemas públicos de saúde assumem uma importância crescente no contexto internacional.
Ígor Lopes
Atualidade
Ana Poltera: “Mais do que um congresso, este será um encontro de esperança na Suíça”
A Église du Centre, em Lausanne, na Suíça, vai ser palco, entre os dias 24 e 27 de setembro, do encontro “Conexão Global – Suíça”. No dia 24, das 19h às 22h, logo no início da programação, terá lugar também o evento “E.L.A.S Foram Chamadas para Gerar”, nessa mesma oportunidade haverá o pré-lançamento da revista-documentário “E.L.A.S Foram Chamadas para Gerar”. Esta iniciativa, que se realiza no âmbito do “Setembro Amarelo”, reunirá participantes do Brasil, de Portugal e da Suíça num momento dedicado à valorização da vida, à prevenção do suicídio, à saúde emocional e à reconstrução de projetos de vida.
Em entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis, Ana Poltera, empresária, escritora, palestrante, mentora, empresária e franqueada da Conexão Global Suíça, abordou não apenas a origem do projeto “Chamadas para Gerar” e os objetivos e a programação do encontro internacional, que conta com a participação de Rayssa Lucena, CEO da Conexão Global Suíça, mas também a criação de uma rede transnacional de apoio entre a Suíça, Portugal e o Brasil e a importância da informação, do discernimento e da proteção perante situações de vulnerabilidade emocional e financeira.
Como nasceu o projeto “Chamadas para Gerar” e de que forma a sua experiência pessoal e profissional influenciou a criação dessa iniciativa?
O projeto “Chamadas para Gerar” nasceu da minha própria história. Durante muitos anos vivi processos que me ensinaram que a verdadeira geração começa dentro de nós. Aos 40 anos recebi o diagnóstico da infertilidade e, naquele momento, pensei que jamais geraria uma vida. Com o tempo compreendi que Deus estava me preparando para gerar muito mais do que filhos biológicos. Antes de gerar filhos, eu precisava gerar uma nova mulher em mim. Minha caminhada como empresária, escritora, palestrante e mentora me mostrou que milhares de mulheres vivem em um vale de silêncio, medo, dor e desesperança. Muitas acreditam que sua história terminou porque ainda não enxergam frutos. Mas nenhuma árvore começa pelo fruto. Primeiro existe a semente. Depois a raiz. Depois o crescimento. E somente então chega a frutificação. Foi dessa compreensão que nasceu “Chamadas para Gerar”: um movimento para despertar mulheres a encontrarem seu maior tesouro, restaurarem sua identidade e entenderem que ainda podem florescer, mesmo depois de atravessarem o vale da dor. Acredito profundamente que, mesmo que uma mulher esteja vivendo hoje um vale seco ou um vale de morte, ela florescerá no tempo certo, desde que não desista da vida nem daquilo que foi chamado para gerar.
Quais são os principais objetivos do evento internacional de prevenção do suicídio que será realizado em setembro, em Lausanne, e quem o evento pretende alcançar?
Nosso maior objetivo é criar um movimento internacional de valorização da vida. Mais do que um congresso, este será um encontro de esperança. Durante três dias reuniremos palestrantes, empresários, terapeutas, psicólogos, escritores, empresários, advogados, líderes e mulheres que venceram grandes desafios para compartilhar suas histórias. Teremos palestras, talk shows, momentos de reflexão e espaços dedicados à escrita e à oralidade. Acreditamos que falar salva. Escrever também salva. Quando uma pessoa encontra coragem para colocar para fora aquilo que esteve preso por tanto tempo, ela inicia um processo de cura. E quando essa história alcança outra vida, nasce a esperança. Queremos mostrar que é possível reconstruir projetos de vida, recomeçar e transformar dor em propósito. O “Setembro Amarelo” é um convite para levantar-se, sair do lugar da dor e lançar a sua semente no mundo. Porque o fruto que veremos amanhã depende daquilo que decidimos plantar hoje.
Quais sinais de sofrimento psicológico considera importante que a comunidade lusófona reconheça, especialmente entre imigrantes, mulheres, famílias e empreendedores?
Muitas vezes o sofrimento não aparece de forma evidente. Ele se manifesta através do isolamento, da perda de esperança, da sensação constante de incapacidade, do cansaço emocional, da falta de sentido para viver e do afastamento das relações. Entre os imigrantes, esse sofrimento pode ser intensificado pela distância da família, pelas dificuldades de adaptação, pela solidão e pelos desafios culturais. É importante compreender que pedir ajuda não é sinal de fraqueza. É um ato de coragem. Em 2010, o pesquisador austríaco Thomas Niederkrotenthaler apresentou o conceito do Efeito Papageno, que demonstra como histórias de superação, livros, palestras e testemunhos podem exercer um efeito protetor diante do comportamento suicida. Esse conceito reforça aquilo que acreditamos no projeto “Chamadas para Gerar”: histórias têm poder de salvar vidas. Quando uma pessoa percebe que outra conseguiu atravessar a dor e reencontrar sentido para viver, ela passa a acreditar que também pode reconstruir a própria história.
De que forma o projeto pretende estabelecer uma rede internacional entre Suíça, Portugal e Brasil, garantindo continuidade para além da programação de setembro?
O encontro de setembro representa apenas o início de um movimento muito maior. Nosso propósito é construir uma rede transnacional que conecte a comunidade lusófona da Suíça, de Portugal e do Brasil por meio do acolhimento, da formação, da prevenção e do fortalecimento emocional. Queremos criar conexões permanentes entre profissionais, empresários, terapeutas, psicólogos, escritores, empresários e mulheres comprometidas com a promoção da vida. O projeto “E.L.A.S. – Foram Chamadas para Gerar” reúne 52 mulheres, 52 histórias, 52 sementes e 52 legados. Cada uma dessas mulheres será uma multiplicadora. Mulheres que levantarão outras mulheres. Mulheres curadas ajudando mulheres em processo de cura. Essa é a força da multiplicação. É assim que nasce um legado.
Como está definida a programação do evento e onde ele será realizado?
O encontro acontecerá durante três dias, no mês de setembro, em Lausanne, na Suíça, reunindo participantes da comunidade lusófona da Suíça, Portugal e Brasil. A programação contará com palestras de vários Países inspiradoras, talk shows trazendo temas sobre a preservação, rodas de conversa, momentos de testemunhos, lançamentos de livros, partilhas de experiências, espaços de networking e ações voltadas à promoção da saúde emocional, da prevenção do suicídio e da reconstrução de projetos de vida. Mais do que um evento, este será um chamado à vida. Porque acreditamos que toda pessoa foi criada para gerar. Gerar esperança. Gerar cura. Gerar propósito. Gerar legado. E, quando chegar a sua estação, florescer e dar o seu fruto no tempo certo.
O que significa este evento?
Prevenção também é informação, discernimento e proteção. Quando falamos em prevenção, não estamos nos referindo apenas à saúde mental e emocional. Também falamos sobre proteger sonhos, projetos de vida e pessoas que, muitas vezes, se encontram emocionalmente vulneráveis. Nos últimos seis anos, ouvindo mulheres de diferentes países, conheci histórias profundamente marcantes. Mulheres que carregavam o sonho de ser mães e que investiram tudo o que tinham: venderam carros, utilizaram suas economias, comprometeram apartamentos, anos de trabalho e toda a poupança na esperança de realizar esse sonho. O filho, porém, é o resultado de um processo. É o fruto. E, muitas vezes, procuramos fora aquilo que primeiro precisa ser fortalecido dentro de nós. Em sua dor e no desejo legítimo de gerar uma vida, muitas mulheres acreditam que, pagando mais, o filho finalmente virá. Infelizmente, algumas acabam encontrando pessoas ou serviços que se aproveitam dessa vulnerabilidade, oferecendo falsas promessas, alimentando expectativas irreais e provocando enormes perdas emocionais, financeiras e familiares. Em muitos casos, não apenas o patrimônio é abalado, mas também casamentos, relacionamentos e a esperança. Essa mesma realidade também pode ser observada em outros contextos. Autores, escritores, empreendedores e profissionais que desejam colocar seu “filho” no mundo – um livro, um projeto, um negócio ou uma missão de vida – muitas vezes são atraídos por promessas de sucesso imediato, mentorias sem resultados, contratos abusivos, tarifas desproporcionais e estratégias de marketing que exploram justamente quem está mais fragilizado. Movidas pelo propósito, essas pessoas investem tudo o que possuem acreditando que estão dando um passo em direção ao seu chamado. Em vez de encontrarem orientação responsável, encontram exploração, endividamento, frustração e, muitas vezes, desistem do legado que sonharam construir durante anos. Por isso, também queremos promover informação, consciência e discernimento. Acreditamos que gerar um legado exige preparo, ética e relacionamentos saudáveis. Nenhum sonho deve ser construído sobre manipulação, falsas promessas ou exploração financeira. O “filho” – seja um filho biológico, um livro, um projeto, uma empresa ou uma missão de vida – é fruto de uma longa gestação. Ele merece nascer em um ambiente seguro, cercado por pessoas comprometidas em fortalecer, orientar e servir, e nunca em explorar quem decidiu responder ao seu chamado. Nossa proposta é incentivar uma cultura de colaboração, transparência e responsabilidade, para que cada pessoa possa lançar sua semente no mundo com segurança, confiança e liberdade, transformando seu propósito em legado, sem abrir mão da sua dignidade, da sua saúde emocional e dos valores que sustentam sua caminhada.
Ígor Lopes
Atualidade
São Paulo: Pedro Ramos reforça presença luso-brasileira no CONARH 2026
O especialista português em gestão de pessoas e recursos humanos, Pedro Ramos, participou no CONARH 2026, realizado de 18 a 20 de agosto no São Paulo Expo, na maior cidade da América Latina, localizada no Brasil. A sua intervenção institucional ganhou destaque pela “moderação de conteúdo internacional” e pelo “contacto direto com milhares de profissionais e visitantes no maior evento de gestão de pessoas da América Latina e o segundo maior do mundo”. Promovido pela Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH Brasil), o CONARH 2026 decorreu sob o conceito “Cidade do RH” e colocou em debate temas como “liderança, inteligência artificial, saúde mental, inovação e novas formas de trabalhar no futuro”.
Pedro Ramos integra o Conselho Empresarial da ABRH Brasil e o Comité do CONARH, evento que, nesta edição, reuniu mais de 120 palestrantes, contou com mais de 300 stands e múltiplos espaços de conteúdo e experiências dedicados ao futuro do trabalho e à gestão de pessoas.
Um dos momentos de maior atenção do público durante a participação de Pedro Ramos, que é também presidente da Sociedade de Excelência Luso-Brasileira (SELB), aconteceu na tarde do terceiro dia do congresso, com a moderação da sessão “Cases Orientais: Insights para as Empresas Brasileiras”, ao lado de Carla Caracol, outra profissional portuguesa de renome. O painel trouxe uma perspetiva internacional sobre “aprendizagem organizacional, comunicação e superação de desafios empresariais”, reforçando o “caráter global do CONARH 2026” e a capacidade do evento para “aproximar diferentes geografias e culturas de gestão”.
Na sessão, Ranjan Kumar Mohapatra, convidado da Índia, sublinhou a importância da “aprendizagem contínua nas organizações” e da capacidade de “transformar conhecimento em ação rápida”, num contexto empresarial cada vez mais exigente e imprevisível. Já Mohamed Isa, convidado do Bahrein, partilhou reflexões sobre “comunicação, qualidade das relações e a necessidade de superar os vários “Everest” presentes na vida das empresas e das lideranças contemporâneas”.
Para além da intervenção no palco, Pedro Ramos autografou o livro “Gestão de Pessoas de A a Zen”,da sua autoria, durante o terceiro dia do evento.
Ambiente internacional
A edição de 2026 apresentou uma estrutura alargada de experiências, incluindo auditório principal, espaços dedicados a inteligência artificial, laboratórios interativos, festival do trabalho e arenas temáticas, “refletindo a evolução do RH para um papel cada vez mais estratégico, humano e orientado para resultados sustentáveis”.
Sob o tema “Brasil Global: o futuro da gestão é humano”, o evento consolidou a relevância internacional do debate sobre “talento, cultura, liderança e transformação organizacional”.
Fontes indicam que a participação de Pedro Ramos no CONARH 2026 “reforça o seu posicionamento como uma das vozes de referência na liderança, desenvolvimento humano e aproximação entre Portugal e Brasil na área da gestão de pessoas”. A presença em São Paulo evidencia também o “contributo crescente de profissionais lusófonos nos grandes fóruns internacionais dedicados ao futuro do trabalho”.
Ígor Lopes
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FUNCEX passa a “Observador Consultivo” da CPLP
A Fundação de Comércio Exterior e Relações Internacionais (FUNCEX), com sede no Rio de Janeiro, Brasil, passou a integrar a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) na categoria de “Observador Consultivo”, após decisão aprovada pelo Conselho de Ministros da organização durante a XXXI Reunião Ordinária, realizada no dia 19 de agosto, em Díli, Timor-Leste. Na resolução oficial, a instituição surge com a designação Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior, nome que esteve na origem da atual FUNCEX, entretanto alterado para corresponder às atuais atividades lideradas pela fundação em nível global. A decisão inclui a fundação brasileira entre 14 entidades de Angola, Brasil, Moçambique, Portugal e Timor-Leste que receberam o estatuto.
A entrada da FUNCEX no quadro de “Observadores Consultivos” cria um canal institucional para a fundação no espaço lusófono, em um momento em que a organização brasileira tem ampliado a atuação internacional por meio da FUNCEX Europa, em Portugal, e da FUNCEX Mercosul, desde o Uruguai. A estrutura posiciona a instituição em um eixo que envolve Brasil, Mercosul, União Europeia, países africanos de língua portuguesa e outros mercados ligados à CPLP. A fundação completa, em 2026, 50 anos de atividade.
Para o presidente da FUNCEX, Antonio Carlos da Silveira Pinheiro, a presença no espaço lusófono insere-se no processo de internacionalização desenvolvido pela instituição. Ao abordar a estratégia da fundação para a CPLP, o responsável afirmou que “a criação da FUNCEX Europa abriu um eixo estruturante de articulação com países lusófonos”. Na mesma linha, definiu como objetivo “posicionar a Fundação como ponte técnica entre América do Sul, África lusófona e União Europeia”.
A atribuição da categoria de “Observador Consultivo” reforça, neste contexto, uma relação que vinha sendo construída pela FUNCEX com instituições e mercados de língua portuguesa. A fundação mantém presença em Portugal desde 2022, por meio da FUNCEX Europa, e tem desenvolvido iniciativas direcionadas à aproximação entre empresas, governos e instituições. Antonio Carlos da Silveira Pinheiro já havia assinalado que Portugal pode atuar como porta de entrada de empresas brasileiras no mercado europeu, mantendo simultaneamente ligações com o Brasil, o Mercosul e os países da CPLP.
A estratégia ganha também dimensão econômica diante da aproximação entre o Mercosul e a União Europeia. A FUNCEX tem associado a sua atuação em Portugal à preparação de empresas e instituições para novas condições de comércio e investimento, incluindo exigências regulatórias, regras de origem, sustentabilidade e padrões técnicos. A fundação defende uma atuação articulada entre a sua estrutura no Brasil, a FUNCEX Europa e a FUNCEX Mercosul, procurando estabelecer conexões entre a América do Sul, o mercado europeu e o espaço de língua portuguesa, além de reforçar o seu papel no ramo da internacionalização, tendo ainda anunciado, nas últimas semanas, aposta no campo da Inteligência Artificial em prol da melhor compreensão do ambiente do mercado externo, com foco nas empresas brasileiras que desejam exportar.
Esta aproximação à CPLP por parte da FUNCEX não começou com a decisão de Díli. Em declarações anteriores sobre a expansão internacional da fundação, Antonio Carlos da Silveira Pinheiro já apontava para uma atuação conjunta com a Comunidade, associando a presença europeia da FUNCEX às relações entre União Europeia e Mercosul e à cooperação com os países lusófonos. A fundação tem igualmente participado de iniciativas institucionais relacionadas com a Confederação Empresarial da CPLP e com entidades portuguesas ligadas ao financiamento, investimento e internacionalização empresarial.
A categoria de “Observador Consultivo” constitui um dos mecanismos utilizados pela CPLP para integrar organizações da sociedade civil, instituições acadêmicas, entidades empresariais e organismos especializados na atividade da Comunidade. O modelo permite aprofundar a cooperação por meio das estruturas e comissões temáticas existentes, que abrangem áreas como economia, empresariado e investimento, educação, ciência e tecnologia, meio ambiente, energia, assuntos do mar, infraestruturas, administração e políticas públicas. A própria CPLP considera essas entidades instrumentos de participação da sociedade civil na dinâmica da organização.
Além da FUNCEX, receberam a categoria de “Observador Consultivo” a Associação das Comunidades Luso-Asiáticas, APCA, de Timor-Leste; a Associação Internacional das Comunidades de Língua Portuguesa, CLPI, a Confederação do Desporto de Portugal, o Panathlon Clube de Lisboa e a Universidade de Lisboa/Colégio Tropical, de Portugal; a Associação de Educação de Jovens e Adultos de Nampula, ASEJANA, e o Instituto Nacional de Saúde de Moçambique; e, por Angola, a Associação de Mulheres Marítimas e Portuárias e Actividades Conexas de Angola, AMMPACA-WIMANGOLA, e o Fórum Empresarial dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, FE-PALOP.
Do Brasil, além da FUNCEX, receberam o estatuto o Centro de Educação Ambiental e Preservação do Património da Universidade Federal do Paraná, o Fórum das ONG/Aids do Estado de São Paulo, FOAESP, o Fundo Brasileiro de Educação Ambiental, FunBEA, e o Instituto Espinhaço – Biodiversidade, Cultura e Desenvolvimento Socioambiental. A resolução oficial contabiliza, assim, cinco entidades brasileiras entre as 14 admitidas nesta reunião. Um momento acompanhado de perto pelo Embaixador Juliano Nascimento, representante permanente do Brasil junto à CPLP.
A decisão foi tomada durante a XXXI Reunião Ordinária do Conselho de Ministros da CPLP, realizada sob a presidência de Bendito dos Santos Freitas, ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Timor-Leste. Participaram os ministros dos Negócios Estrangeiros e das Relações Exteriores, ou os respectivos representantes, de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, além da secretária-executiva da CPLP, embaixadora Maria de Fátima Jardim.
Novas resoluções
A reunião de Díli teve uma agenda que ultrapassou a entrada dos novos “Observadores Consultivos”. Os ministros analisaram e aprovaram documentos relacionados com a implementação do Acordo sobre a Mobilidade entre os Estados-Membros, o balanço da Visão Estratégica da CPLP 2016-2026 e a preparação da estratégia para 2027-2033, a situação na Guiné-Bissau, a aplicação da Convenção Multilateral de Segurança Social, a operacionalização da Década da Juventude da CPLP 2026-2036 e o reforço da resposta a desastres climáticos.
Foram ainda tratadas resoluções relacionadas com saúde pública, por meio do Programa Frátria, com o Programa CPLP Audiovisual, a Rede de Arquivos Nacionais, a criação de uma rede sobre alimentação, nutrição e saúde escolar e a elaboração da Agenda Estratégica para a Consolidação da Cooperação Econômica na CPLP para o período de 2028 a 2032. O Conselho analisou igualmente matérias orçamentárias e de auditoria referentes ao Secretariado Executivo e ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa. Foram aprovadas ainda a Declaração sobre os 30 anos da constituição da CPLP e a declaração sobre a consolidação do Estado de Direito Democrático e os desafios da Comunidade.
Para a FUNCEX, a nova condição institucional insere a fundação diretamente em uma “plataforma multilateral que reúne países distribuídos por quatro continentes e onde a cooperação econômica passou a assumir uma presença crescente na agenda”.
“A fundação chega a este espaço com estruturas no Brasil, na Europa e no Mercosul e com uma estratégia direcionada para internacionalização, inteligência de comércio exterior, formação e aproximação institucional e empresarial. O estatuto aprovado em Díli cria, desta forma, uma ligação formal entre a experiência acumulada pela FUNCEX no comércio exterior brasileiro e a agenda de cooperação da CPLP. Num cenário marcado pelas relações entre Mercosul e União Europeia e pela procura de novas ligações econômicas com África e o espaço lusófono, a fundação passa a integrar a rede de entidades chamadas a contribuir para projetos e iniciativas da Comunidade. Como tenho defendido, a atuação deverá manter-se ligada ao Brasil, a Portugal, ao Mercosul e aos países da CPLP, procurando transformar cooperação institucional em projetos e resultados”, disse à nossa reportagem o presidente da FUNCEX, Antonio Carlos da Silveira Pinheiro.
O evento contou ainda com a presença do primeiro-ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão; de Maria de Fátima Jardim, secretária-executiva da CPLP; do ministro dos Negócios Estrangeiros, Comunidades e Defesa Nacional de Cabo Verde, Manuel Augusto Lima Amante da Rosa, e de Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, entre outras autoridades.
Ígor Lopes
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