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Sintra: 31ª Corrida “Fim da Europa” com nova data

Agendada para 06 de fevereiro de 2022

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A Câmara Municipal de Sintra informa que a 31ª edição da “Corrida Fim da Europa” foi reagendada para dia 6 de fevereiro de 2022, no mesmo local e horário, devido à realização das eleições legislativas na data marcada anteriormente.

Esta prova, já na sua 31ª edição, percorrerá ao longo de 17 km a Serra e a Vila de Sintra – Património Mundial da Unesco, uma das paisagens mais emblemáticas e encantadoras de Portugal que há mais de 30 anos acolhe no mês de janeiro milhares de atletas que, ano após ano, se juntam para desafiar o misticismo da Serra de Sintra envolta de uma inigualável beleza natural e de um rico património histórico cultural.

As características únicas desta corrida, conferidas por um conjunto de fatores singulares, como o clima (pelas condições climatéricas mais agrestes que se fazem sentir em Sintra em janeiro), o traçado do percurso, a dureza da prova, a singularidade da riqueza natural e patrimonial aqui encontrada, posiciona-a entre as 10 primeiras no livro “World’s Ultimate Running Races, da Harper Colling Publishers”, que destaca as 500 mais emblemáticas provas do género a nível mundial.

Com partida marcada para as 10h00 na Vila de Sintra, junto à Fonte Mourisca, o percurso passará junto ao Largo Rainha Dona Amélia e seguirá pela Rampa da Penha, Zona Florestal da Peninha, serpenteando a serra de Sintra.

A última parte da corrida tem como pano de fundo o Oceano Atlântico, que servirá também de anfiteatro para a Meta da prova que será colocada mesmo em cima das arribas e junto ao Farol do Cabo da Roca, conhecido mundialmente por ser o ponto mais ocidental do continente Europeu.

A participação está limitada a 3000 atletas e requer inscrição prévia em:

https://www.fimdaeuropa.com/ .

Foto: DR.

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De Angola à Suíça, Olímpia Tomás transforma experiência na enfermagem em mensagem de “prevenção e acolhimento”

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A enfermeira Olímpia Tomás levou ao “Conexão Global Suíça – Edição Setembro Amarelo: Conectar é Acolher”, realizado em Lausanne, uma reflexão construída ao longo de mais de 30 anos de trabalho na área da saúde e marcada por uma experiência profissional que ainda hoje integra a sua memória. Natural de Angola, criada na Alemanha e atualmente residente na Suíça, esta profissional participou no encontro que reuniu, entre 24 e 27 de setembro, participantes ligados à saúde, desenvolvimento humano, literatura, empreendedorismo e comunidade lusófona. A programação esteve centrada, entre outros temas, na valorização da vida, saúde emocional e prevenção do suicídio.

Foi precisamente a saúde emocional de quem trabalha diariamente a cuidar de outras pessoas que marcou a participação de Olímpia em Lausanne. Durante a sua intervenção, a enfermeira recuperou um episódio ocorrido há vários anos, quando trabalhava na área de cardiologia. Segundo relatou, uma paciente jovem morreu após um erro na administração de um antibiótico. No mesmo dia, um colega envolvido na situação morreu por suicídio. Na altura, segundo Olímpia, foi comunicado à equipa que a morte do profissional estaria relacionada com o impacto do sucedido e com o peso emocional que sentiu após o erro.

Ao recordar o episódio perante o público em Lausanne, Olímpia não conseguiu conter as lágrimas. O testemunho trouxe para o centro da sua intervenção uma realidade que, segundo a enfermeira, acompanhou parte do seu próprio percurso profissional: a necessidade de continuar a trabalhar, cuidar dos pacientes e responder às exigências da profissão enquanto experiências emocionalmente difíceis permaneciam guardadas.

A passagem pelo evento levou-a a formular uma pergunta que sintetiza a reflexão que pretendeu deixar junto do público: quem cuida de quem cuida? Para Olímpia, a experiência em Lausanne voltou a evidenciar a necessidade de os profissionais de saúde prestarem atenção à própria saúde emocional, particularmente num setor onde o contacto com doença, sofrimento, perda e situações de elevada responsabilidade faz parte da atividade quotidiana.

A temática enquadrou-se nos objetivos do encontro realizado em Lausanne, cuja programação incluiu palestras, talk shows, testemunhos, momentos de reflexão e partilha de experiências. A iniciativa foi desenvolvida no âmbito do “Setembro Amarelo”, com uma agenda dedicada à saúde emocional, prevenção do suicídio e reconstrução de projetos de vida, reunindo participantes provenientes, nomeadamente, da Suíça, de Portugal e do Brasil.

A experiência levada ao encontro está ligada a um percurso profissional de mais de três décadas. Olímpia Tomás tem 50 anos, nasceu em Angola e cresceu na Alemanha, país onde realizou a sua formação em enfermagem. Ao longo da carreira trabalhou em diferentes hospitais e áreas da saúde na Alemanha e na Suíça. Atualmente exerce funções num hospital suíço e trabalha também no Spitex, sistema de prestação de cuidados de saúde ao domicílio, acompanhando pessoas que necessitam de assistência de enfermagem nas suas próprias casas, incluindo situações que exigem cuidados de proximidade e acompanhamento paliativo.

Paralelamente à atividade profissional, Olímpia está a aprofundar a formação na área da menopausa e da saúde da mulher. O interesse nasceu também da própria experiência. Depois de ter sido submetida a uma histerectomia devido a miomas, com preservação dos ovários, começou posteriormente a identificar alterações relacionadas com a transição para a menopausa. Apesar da experiência acumulada enquanto enfermeira, percebeu que também tinha dúvidas sobre o processo.

Essa experiência levou-a a questionar as dificuldades enfrentadas por mulheres sem formação na área da saúde. Para Olímpia, a perimenopausa e a menopausa continuam muitas vezes associadas apenas aos afrontamentos e ao fim da menstruação, apesar de poderem estar acompanhadas por alterações do sono, cansaço, dificuldades de concentração, alterações de humor, ansiedade, dores articulares ou secura vaginal, entre outros sintomas. A enfermeira ressalva, porém, que alterações verificadas nesta fase da vida não devem ser automaticamente atribuídas à menopausa, sendo necessária uma avaliação adequada.

É neste contexto que Olímpia pretende desenvolver uma nova vertente do seu percurso, direcionada para o acolhimento, informação e futuro acompanhamento de mulheres durante esta fase da vida, em articulação com outros profissionais de saúde. A prevenção, o autocuidado e a informação surgem como componentes dessa abordagem.

A enfermeira defende ainda uma visão integrativa dos cuidados, sem estabelecer uma oposição entre medicina convencional e abordagens complementares. Depois de mais de 30 anos de experiência profissional, sublinha o papel dos tratamentos médicos, mas considera que fatores como alimentação, atividade física, sono, saúde emocional e educação para a saúde devem fazer parte da avaliação global do paciente.

A própria história familiar contribuiu para esse olhar. Nascida em Angola, Olímpia cresceu num ambiente em que a mãe recorria a plantas e ervas. Mais tarde, experiências familiares aumentaram o seu interesse por uma abordagem mais abrangente dos cuidados. Na prática profissional, dá como exemplo o acompanhamento de pessoas com diabetes, no qual considera que a atenção não deve estar limitada à medicação, mas incluir hábitos de vida e educação para a saúde.

A saúde da mulher tornou-se, assim, uma extensão do percurso desenvolvido na enfermagem. Olímpia resume a orientação que pretende imprimir a esta nova etapa através da mensagem “Nenhuma mulher deve caminhar sozinha”. Para a profissional, ser escutada e sentir que os sintomas são levados a sério são elementos importantes no acompanhamento das mulheres, juntamente com o acesso a informação, profissionais de saúde e, quando necessário, apoio psicológico.

As redes familiares, de amizade e entre mulheres podem igualmente desempenhar um papel neste processo. A experiência acumulada na enfermagem ensinou-lhe, segundo explicou, que cuidar não se limita à administração de medicamentos ou à realização de procedimentos clínicos. A escuta, a informação, a educação para a saúde e a presença junto do paciente integram também o acompanhamento.

Olímpia ainda não publicou qualquer livro, mas admite transformar no futuro parte da sua experiência profissional e pessoal em escrita. O objetivo seria abordar temas relacionados com o cuidado, autocuidado, prevenção e saúde da mulher, recuperando aprendizagens acumuladas durante mais de três décadas de trabalho entre a Alemanha e a Suíça.

A participação no “Conexão Global Suíça” acabou, porém, por colocar uma questão anterior a qualquer futuro projeto. Ao recordar em Lausanne a morte da jovem paciente e o suicídio do colega, Olímpia confrontou-se novamente com a dimensão emocional de uma profissão construída em torno do cuidado. O encontro deixou-lhe a perceção de que cuidar dos outros exige também reconhecer os próprios limites e procurar apoio quando necessário.

Foi essa reflexão que levou consigo de Lausanne. Depois de mais de 30 anos a acompanhar pacientes em hospitais e no domicílio, Olímpia Tomás reconhece que o autocuidado continua a ser um processo em construção. A pergunta que lançou durante o encontro permanece como síntese da sua participação e como tema de reflexão para quem exerce profissões ligadas ao cuidado: quem cuida de quem cuida?

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Pedro Sequeira regressa de Portugal com propostas para a cultura santomense

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O escritor santomense Pedro Sequeira esteve em Portugal entre 19 de agosto e 9 de setembro, numa visita que incluiu encontros literários, contacto com leitores e autores e participação num programa da RTP. Com os romances “Leonor” e “O branco e a preta”, passou pelas feiras do livro do Porto e da Venteira, na Amadora, e participou num Jantar de Poesia.

Em entrevista à Agência Incomparáveis, faz o balanço da viagem e destaca a receção às suas obras, a troca de experiências com outros escritores e a motivação que levou consigo para continuar o trabalho em São Tomé e Príncipe.

Os contactos estabelecidos durante a visita abriram, segundo o autor, possibilidades de cooperação nos campos da edição, da poesia e do teatro. Entre propostas ainda em estudo e contactos que pretende manter, Pedro Sequeira reflete sobre as dificuldades de publicar e sobre o papel destes encontros na circulação da literatura santomense.

Entre 19 de agosto e 9 de setembro esteve em Portugal com uma agenda que passou por diferentes cidades e encontros. Que balanço faz desta passagem pelo país e quais foram os momentos que mais marcaram esta experiência?

Foi enriquecedor e uma injeção de novas energias. Os momentos mais marcantes foram as diferentes participações nos diversos eventos culturais e literários. Tive a oportunidade de visitar pela primeira vez a Feira do Livro do Porto, este magnifico evento literário e cultural, que é organizado num espaço que é um convite a preservação da natureza; a minha participação no Jantar de Poesia em que declamei, tal como outros poetas presentes; a minha presença na Feira do Livro de Venteira, na Amadora, em que vendi alguns livros, conversei sobre as minhas obras literárias com leitores curiosos, conversei com diversos autores, sobretudo com a escritora Sara Timóteo que é uma pessoa fantástica, afável e com uma fonte de energia inesgotável.

Que agenda teve em Portugal? E como foram essas experiências?

Eu tive uma agenda cultural bem rica em Portugal. No dia 28 de agosto eu, ao convite da APP – Associação Portuguesa dos Poetas, participei no “Jantar de Poesia”. O evento foi realizado no Hotel Vila Galé Collection Arcos (Hotel dos Poetas) acompanhado de uma tertúlia. Participei, no dia 29 de agosto, na Feira do Livro do Porto que decorreu nos Jardins do Palácio de Cristal, no Norte de Portugal. Participei, no dia 30 de agosto, na Feira do Livro da Venteira, que se realizou na Avenida Conde Castro Guimarães, na freguesia de Venteira, concelho de Amadora. Participei, ainda, nos estúdios da RTP, no dia 1 de setembro, no programa televisivo “À Tarde no Kubico”. Foram, todas elas, experiências enriquecedoras. Estar com gente da cultura, em particular com pessoas da literatura é sempre gratificante e transformador.

A Feira do Livro do Porto e a passagem por outras feiras colocaram-no em contacto direto com leitores, autores, editores e agentes culturais. Que receção encontrou nestes espaços?

Encontrei uma receção muito calorosa. Há uma espécie de sede para com o que é africano, e, em particular, para com o que é santomense, que ainda é muito, quase que totalmente desconhecido, apesar dos laços históricos, linguísticos e culturais existentes entre Portugal e São Tomé e Príncipe. É talvez algo que eu não devesse dizer, mas confesso que até sinto-me mais especial cá em Portugal em alguns ambientes, mais do que no meu próprio país. Aqui há uma acentuada valorização do escritor e das suas obras.

Que livros da sua autoria trouxe consigo?

Para Portugal, levei dois dos meus romances: “Leonor” (que é o meu primeiro romance, lançado no ano 2016), pela Chiado Editora, e “O branco e a preta” (meu último romance lançado no ano 2025), pela In-Finita Editorial.

Durante esta agenda conheceu também obras, autores e projetos desenvolvidos em Portugal. Que trabalhos despertaram mais a sua atenção e que aprendizagens ou referências leva consigo dessa aproximação ao meio literário e cultural português?

Tive oportunidade de conhecer diversas obras literárias, comprei vários livros para aumentar o repertório literário, conheci vários escritores, alguns que estão a entrar agora para o mundo da literatura enquanto escritores, o que foi bastante gratificante porque podemos trocar lágrimas e sorrisos juntos, falando dos nossos desafios e das nossas caminhadas neste imenso, doce e amargo mundo literário. A grande referência que levo do meio literário cultural português é a valorização da cultura em geral e da literatura em particular. São muitos eventos a serem realizados ao mesmo tempo em diferentes cidades e freguesias, sobretudo no mês de agosto que é, por excelência, um mês reservado às férias das pessoas de uma forma geral. Em todos os eventos literários e culturais há engajamento do poder local, o que revela a sensibilidade que têm para com a cultura advindo da certeza que têm sobre a importância da cultura em geral e da literatura em particular.

Em Lisboa participou num jantar, onde esteve acompanhado pela presidente da Associação Portuguesa de Poetas (APP). Que significado teve esse encontro e que contactos, diálogos ou possibilidades de cooperação surgiram a partir dessa iniciativa?

Sim, participei num jantar onde desfrutei da companhia da presidente da Associação Portuguesa de Poetas, a honrosa presidente Rose Pereira. Foi uma experiência memorável, a presidente é uma pessoa incrível, extraordinariamente simpática. Estar com a presidente de uma organização desta dimensão é sempre algo de muito proveitoso. Ela apresentou-me a diversos participantes do jantar. A minha alegria foi imensa porque nunca tive num ambiente rodeado de tantos poetas. Parecia que tudo era versos – até os manjares que foram deliciosos. Conheci uma escritora que já participou numa obra literária ligada a São Tomé e Príncipe. O jantar funcionou como uma luz; deu-me várias ideias de diversos tipos de eventos literários a serem organizados em São Tomé e Príncipe. No contacto com a presidente abordamos diferentes formas de interações com a APP, tanto de forma individual, como institucional, através da UNEAS – União dos Escritores e Artistas Santomenses, organização da qual faço parte. Ficou estabelecido o contacto permanente com a APP, e ficou ainda aberta a possibilidade de vir a participar nos grandes eventos e iniciativas literárias e culturais que a APP organiza. Fiz o convite para a presidente da APP vir a São Tomé, convite este que foi aceite de bom grado, e ficou a promessa de juntos trabalharmos para a efetivação da mesma visita.

Ao longo destas semanas, que pessoas, instituições ou projetos considera que poderão transformar-se em novas pontes entre Portugal e São Tomé e Príncipe, seja no campo da literatura, do teatro, do Direito, da educação ou da cultura?

Eu tive diversas conversas com vários autores culturais que poderão se transformar em novas pontes entre Portugal e São Tomé e Príncipe. A título de exemplo, a presidente da APP quer firmar uma parceria com a UNEAS, ao ser concretizada aumentaria significativamente as conexões entre os poetas desses dois país e muitas atividades poderão ser realizadas em conjunto. A responsável da editora In-Finita Editorial, Adriana Mayrinck, quer publicar livros de mais autores santomenses, o que iria nos ajudar bastante devido às dificuldades editoriais que, sobretudo, os novos autores santomenses enfrentam para poderem publicar os seus trabalhos. Relativamente ao teatro também temos boas notícias; neste momento temos a Adozia Cristo, que é uma atriz santomense pertencente ao grupo teatral “Demos”, grupo presidido por mim, a fazer uma residência artísticas com o grupo teatral português o Bando. Há fortes possibilidades para que o mesmo grupo possa se deslocar a São Tomé e Príncipe no próximo ano para apresentarem o espetáculo “1001 Noites”, com a irmã santomense em que Adozia Cristo será a protagonista. De salientar que esta mesma peça está a rodar em Portugal numa séria de espetáculos em que esta mesma atriz santomense faz o papel de irmã santomense. Conheci também os organizadores da Feira do Livro da Venteira que manifestaram um grande interesse em realizar as feiras de livros em São Tomé, algo que abracei com carinho e vamos estudar as formas de materializarmos a mesma ideia.

Regressou a São Tomé e Príncipe depois de quase três semanas em Portugal. De que forma esta experiência poderá reverberar no seu trabalho e que novos projetos, livros, iniciativas culturais ou parcerias poderão nascer a partir das conexões construídas durante esta passagem?

De diversas formas. Eu não posso dizer que sou o mesmo, depois de tomar parte destas experiências. Estes contactos com as pessoas e instituições em Portugal deram-me mais motivações para continuar. No meu país, ser escritor não é missão fácil, mas as diferentes conversas com os autores, sobretudo os iniciantes, fizeram-me ver que eu não estou sozinho, que os mesmos também enfrentam imensas barreiras, que o mundo literário é um mundo para os perseverantes- eu sou perseverante, escrever é a minha missão de vida. Em termos de iniciativas culturais também fez-se luz para mim. Podemos realizar atividades mais informais e com nomes menos coloquiais, por exemplo – Jantar de Poesia – com este nome surgiu em mim diversas nomenclaturas para os eventos culturais e literários a serem organizados em São Tomé e Príncipe.

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Elly Poloni: dos palcos europeus à luta pela saúde e à escrita da própria história

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A carreira nos palcos, a experiência de emigrar e os desafios de saúde estiveram no centro do testemunho de Elly Poloni no “Conexão Global Suíça”, em Lausanne, no passado dia 25 de setembro. No encontro dedicado ao tema “Setembro Amarelo: Conectar é Acolher”, que acolheu uma grande comunidade lusófona nas instalações da Eglise du Centre, esta profissional natural do Brasil participou num formato de talk show e falou sobre os últimos quatro anos da sua vida como paciente oncológica. Residente na Suíça desde 1995, apresentou um percurso que começou nos concursos e na moda em Brasília, passou por 26 anos de dança na Europa e continua nas palestras e na escrita da sua biografia.

Natural de Brasília, capital do maior país da América do Sul, Eliane Leite Silva, conhecida artisticamente como Elly Poloni, é filha de Moisés Martins Silva, pernambucano, e de Divina Rodrigues Leite, goiana de Pirenópolis. Em declarações à Agência Incomparáveis, identifica-se também como esteticista, massagista holística, micropigmentadora e professora de etiqueta. A atividade artística ocupou uma parte da sua vida profissional, através de apresentações em que levou o folclore brasileiro a públicos na Suíça e noutros países europeus.

A relação com o palco começou na escola, num período marcado pela “timidez” e por episódios de “bullying”. Elly recorda que, aos seis anos, foi exposta perante a turma depois de a professora não lhe permitir ir à casa de banho. Seguiram-se comentários de colegas sobre a sua aparência física, que contribuíram para que evitasse participar nas atividades escolares.

Uma professora de artes incentivou-a, mais tarde, a integrar uma apresentação. A experiência permitiu-lhe estar diante de outras pessoas sem sentir o “julgamento que enfrentava no quotidiano”. Depois, num concurso de dança, encontrou numa máscara uma forma de se apresentar com “maior liberdade”.

“Aquela máscara me fez muito forte porque eu me escondi atrás dela”, recordou. Inspirada nos movimentos de rock do pai, venceu o concurso e começou a envolver-se mais nas atividades da escola.

Outro momento ocorreu quando um profissional visitou a escola para selecionar jovens para uma sessão fotográfica. Elly não esperava ser escolhida, mas ficou entre as selecionadas.

“Ele viu algo em mim que eu não enxergava”, contou. Segundo o seu relato, as fotografias alteraram a forma como era vista pelos colegas e contribuíram para uma mudança na sua relação com a própria imagem.

Os concursos abriram caminho ao trabalho como modelo. Começou por vencer uma competição na comunidade onde vivia, ganhou o “Garota Brasil” e ficou em terceiro lugar no “Miss Brasília”. Vieram depois os desfiles e as campanhas publicitárias. Trabalhou também na Manchete, tradicional revista no Brasil, como telefonista, após formação nessa área, e participou em pequenas vinhetas de publicidade. No Rio de Janeiro, concorreu ao “Garota Manchete” e ao “Garota Pantera”, associado a Ricardo Amaral.

Foi através de contactos estabelecidos no Rio de Janeiro que surgiu a primeira viagem à Suíça. Elly chegou como turista e ficou temporariamente em casa de uma conhecida ligada à exploração de um restaurante. Nesse período, conheceu o homem com quem viria a casar. Regressou ao Brasil, manteve o contacto por telefone e, posteriormente, instalou-se na Suíça, levando a filha.

A adaptação trouxe dificuldades relacionadas com o “frio, a distância da família e o isolamento em casa”. Elly relata que a participação numa festa latina lhe permitiu conhecer um grupo de dança brasileiro, ao qual se juntou. Os ensaios e as apresentações ajudaram-na a criar relações e a inserir-se no país.

“Comecei a me conectar, a me inserir no mundo aqui na Suíça”, explicou.

A dança passou a integrar a sua vida profissional durante 26 anos. Participou em grupos e escolas de samba, apresentando manifestações da cultura brasileira dentro e fora da Suíça. Foi musa da “Unidos Pelo Samba”, em Lausanne, e recebeu os títulos de “Princesa” e de “Rainha da Corte da Suíça”, no âmbito do “Intercâmbio Cultural Mais Brasil”.

A carreira como modelo incluiu capas das revistas Light, Brasil-Night, Hochzeit e Braut Hochzeit, além de campanhas publicitárias para a Mary’s, ligada ao segmento de vestidos de noiva. Contou ainda com a oportunidade de trabalhar com a estilista e artista plástica Suelli Bomfim.

O percurso nos palcos estendeu-se a produções no Opernhaus Zürich, a Ópera de Zurique, além de participar em montagens como “Macbeth” e “Electra”, acrescentando uma dimensão à carreira que, na nossa entrevista, Elly descreve sobretudo através da “dança, do samba e da divulgação do folclore brasileiro”.

Entre os reconhecimentos, Elly destaca o “Troféu Destaque” recebido em 2018 das mãos de Roberto Miguel Rey Júnior, conhecido como Dr. Rey, cirurgião plástico e apresentador brasileiro. Em 2024, voltou a ser distinguida com o mesmo troféu, desta vez entregue por Rodrigo Faro, famoso apresentador brasileiro. A cerimónia dessa edição realizou-se em abril, no hotel The Dolder Grand, em Zurique.

Em 2022, venceu a premiação “Melhor do Brasil na Europa”, na categoria “Show e Entretenimento”. O prémio foi entregue por Rafael dos Santos, idealizador do evento e diretor da “High Profile Magazine”, e por Luiza Brunet, numa cerimónia no “Gustave Eiffel Lounge”, na Torre Eiffel, em Paris. Elly foi ainda agraciada, em 2023, com a premiação “Força, Seu Nome é Mulher”, movimento de empoderamento e empreendedorismo feminino, fundado por Patrícia Sarinho.

Elly recorda também a coroação por Adele Fátima quando recebeu o título de “Rainha da Corte” do “Intercâmbio Cultural Mais Brasil”, uma iniciativa que associa a Milton Cunha, carnavalesco, cenógrafo, psicólogo, professor universitário e comentarista de carnaval brasileiro, apresentando a coroação como “um dos momentos de reconhecimento do seu trabalho na Europa”.

Saúde como foco, além dos palcos

Em Lausanne, especificamente nas últimas semanas, a sua intervenção centrou-se sobretudo na saúde e no período em que reduziu a presença nos palcos. Elly explica que quis partilhar a experiência oncológica e aquilo que a tem ajudado a enfrentar o tratamento.

“Eu decidi falar sobre a minha saúde porque em quatro anos eu estou passando por desafios de saúde”, afirmou, sublinhando que o objetivo “foi transmitir força a pessoas que atravessam situações semelhantes”.

No seu testemunho, destacou a “fé, os pensamentos e a atividade física” como dimensões do seu apoio pessoal durante este processo. A participação no encontro permitiu-lhe também ouvir outras histórias. Refere que encontrou inspiração nas intervenções das restantes participantes e na possibilidade de “reunir mulheres com experiências, profissões e origens diferentes”.

A ligação entre mulheres é um dos temas que procura levar às suas intervenções públicas. Elly define a “sororidade” como uma relação de “apoio e de partilha”, que pode continuar mesmo à distância, através da Internet. Agradece à empresária Ana Poltera, organizadora do evento em Lausanne, o convite para integrar o encontro e destaca a possibilidade de “criar relações entre mulheres que procuram desenvolver as suas atividades e os seus projetos”.

Essa perspetiva traduz-se, na sua visão, na disponibilidade para ajudar através de palavras e ações.

“Eu posso estar pronta a ajudar o próximo com uma palavra, com uma ação”, observou. Ao mesmo tempo, diz procurar relações que “contribuam para o crescimento pessoal e para a troca de experiências”.

A vida na Suíça é também abordada a partir da experiência familiar. Elly valoriza a “segurança” que sente no quotidiano e a possibilidade de os filhos “usufruírem de espaços públicos e da natureza”. Ao recordar a comunidade onde cresceu no Brasil, refere dificuldades relacionadas com a “pobreza e a criminalidade”, realçando que “procurou construir para a família uma realidade diferente”.

Agenda preenchida e atuais projetos no velho continente

Entre os próximos compromissos, prevê participar na “Gala Força, Seu Nome é Mulher”, idealizada por Patrícia Sarinho, onde voltará a ser homenageada.

A escrita é a etapa seguinte desse percurso. Elly prepara uma biografia que deverá ser lançada em fevereiro de 2027, e manifesta a intenção de a apresentar no Salão do Livro de Genebra. Segundo apurámos, o livro reunirá “memórias de infância, a experiência no Brasil, a mudança para a Suíça, a carreira artística e os desafios de saúde”.

Ainda durante a nossa entrevista, referiu estar a concluir um tratamento de quimioterapia, mantendo a participação em palestras e a preparação do livro.

“Eu não penso na dor, eu penso só na solução, na saúde”, declarou.

Depois de décadas a apresentar a cultura brasileira nos palcos europeus, procura agora partilhar o seu percurso através da palavra e da escrita.

Uma história de superação e sonhos realizados

Ao recordar a infância, Elly Poloni descreve uma menina que sonhava ser modelo, miss e dançarina, mas cuja timidez era agravada pelo bullying na escola. Em casa, encontrava espaço para se expressar: dançava diante da porta do frigorífico, que usava como espelho, imitava Madonna e criava personagens. As imagens do Carnaval na televisão alimentavam o desejo de, um dia, ocupar também um palco.

A seleção para uma sessão fotográfica, após a visita de um “olheiro” à escola, ajudou-a a mudar a forma como se via. Para ela, os episódios de bullying diminuíram e começou a reconhecer capacidades que antes desvalorizava. A participação em concursos de dança e de beleza, seguida das oportunidades na moda, permitiu-lhe enfrentar a vergonha e construir o percurso que acabaria por levá-la à Europa.

Hoje, Elly associa essa transformação à decisão de “avançar, apesar do medo”. Ao partilhar a sua história, procura transmitir a outras mulheres e jovens a importância de reconhecerem o próprio valor e de não deixarem que o julgamento alheio determine as suas escolhas.

A menina que dançava em casa tornou-se uma artista que encontrou nos palcos, e agora também na palavra, uma forma de se expressar e contar o seu percurso. Certamente, será uma vida que dará um livro, muito em breve.

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