Atualidade
FIXANDO alerta para custos elevados e falta de mão de obra para limpeza de terrenos
Portugal enfrenta onda de calor e risco máximo de incêndio e profissionais não conseguem dar resposta a um terço dos pedidos
A subida dos preços praticados e a escassez de profissionais são os principais obstáculos à limpeza de terrenos apontados pelos proprietários, tendo-se registado, este ano, um aumento de preços de cerca de 30€ por serviço, revela a APP FIXANDO, após uma análise a mais de 4.735 pedidos realizados na sua plataforma durante este ano.
Segundo esta análise, a média de preços praticados pelos especialistas em limpeza de matas e terrenos subiu de 329€ por serviço, em 2021, para 360€ este ano, um aumento de 9,4%.
“Ainda que a pandemia tenha provocado uma evidente descida de preços, a recuperação do setor é clara e temos assistido a um aumento progressivo do preço por serviço, com tendência a continuar, por um lado, devido à inflação, por outro, devido à falta de mão de obra qualificada que torna o mercado mais competitivo e permite um ajuste de preços em função da procura”, explica Alice Nunes, diretora de Novos Negócios da FIXANDO.
Recorde-se que, em agosto de 2021, um inquérito conduzido pela FIXANDO revelava que a falta de rendimentos dos proprietários era responsável por 21% dos terrenos que ficam por limpar.
Outros dos problemas apontados na análise da FIXANDO é a falta de profissionais especializados. A mesma responsável adianta que, anualmente, 4 em cada 10 portugueses não conseguem encontrar especialistas disponíveis para limpar os seus terrenos, com a oferta ainda mais limitada em fases de maior procura.
Entre abril e junho deste ano, os especialistas inscritos na FIXANDO apenas conseguiram dar resposta a cerca de 68% dos pedidos realizados, com as maiores disparidades entre a procura e a oferta nos distritos do interior.
A APP, que liga clientes a especialistas de todas as áreas, estima que, com o aumento absoluto da procura no digital e a falta generalizada de mão de obra que existe no país, a percentagem de clientes sem resposta atinga quase os 50% durante os próximos meses.
“É uma situação que poderá agravar-se em 2023, caso não exista uma inversão deste paradigma”. A par do cenário de inflação e de aumento de preços, este cenário poderá pôr em causa a limpeza de muitos terrenos, uma vez que os orçamentos das famílias são cada vez mais limitados.
A verificar-se a tendência, poderão aumentar, não só, o número de incêndios, como o número de multas para os proprietários, alerta o mesmo relatório.
Segundo dados do Ministério da Administração Interna avançados esta semana, este ano já foram realizadas cerca de 11 mil notificações, que deram origem a mais de 800 contraordenações a proprietários que não cumpriram com a limpeza dos seus terrenos.
Para combater a falta de profissionais, a FIXANDO aponta a formação e sensibilização de proprietários para a manutenção recorrente dos terrenos como possíveis formas de solucionar este problema a longo prazo e garantir a segurança do país.
Foto: DR.
Atualidade
Otacílio Soares: “Nosso desafio é fazer com que a proximidade entre Portugal e Brasil se traduza, cada vez mais, em investimentos, empregos, inovação e desenvolvimento para todos”
Otacílio Soares, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira (CCILB), defende que a forte proximidade histórica, cultural e linguística entre Portugal e o Brasil deve ser convertida em relações económicas ainda mais concretas, capazes de gerar mais investimentos, parcerias, negócios e desenvolvimento para ambos os países.
Em entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis, o responsável abordou o papel da CCILB na aproximação entre empresas, investidores e instituições portuguesas e brasileiras, destacando os processos de internacionalização, os setores com maior potencial de cooperação, o posicionamento de Portugal como plataforma de entrada no mercado europeu e as oportunidades de criação de uma rede económica no espaço da língua portuguesa.
Qual tem sido o papel da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira no reforço das relações econômicas e empresariais entre Portugal e o Brasil?
A Câmara procura transformar a proximidade histórica e cultural entre Portugal e o Brasil em relações empresariais concretas. Os dois países têm uma ligação muito forte, mas isso, por si só, não é suficiente para gerar negócios. É preciso aproximar as empresas certas, facilitar o acesso à informação e ajudar os empresários a compreender as particularidades de cada mercado. Nesse sentido, a CCILB atua como uma ponte entre empresas, investidores, associações empresariais e entidades públicas dos dois países. Promovemos encontros, missões, seminários e contatos institucionais, sempre com o objetivo de criar relações de confiança e oportunidades que possam se transformar em investimentos, parcerias e novos negócios. Nosso papel também é ajudar a reduzir a distância prática entre os dois mercados. Embora falemos a mesma língua, existem diferenças na legislação, na tributação, na cultura empresarial e na forma de negociar. Muitas vezes, uma orientação correta no início evita erros, custos e perda de tempo.
Neste período de férias de verão, na Europa, e de inverno, na América do Sul, que ações estão sobre a mesa em termos empresariais por parte da CCILB para aproximar os dois territórios?
O período de férias pode ser um bom momento para refletir e planejar. Muitas decisões empresariais importantes começam justamente quando temos mais tempo para avaliar novos mercados, rever estratégias e pensar com um pouco mais de tranquilidade. Na CCILB, estamos trabalhando na preparação de novas iniciativas para o segundo semestre, com encontros empresariais, ações de networking, seminários e atividades voltadas à internacionalização. Também estamos fortalecendo nossos comitês, que permitem tratar de forma mais especializada temas como tecnologia, inovação, turismo, comércio exterior, sustentabilidade, arbitragem e investimentos. Queremos ampliar a aproximação com câmaras de comércio, federações empresariais e entidades de promoção de investimentos dos dois países. A ideia é que essas relações institucionais resultem em agendas práticas, com empresas interessadas, oportunidades identificadas e acompanhamento posterior. Também continuaremos dando atenção ao Acordo Mercosul-União Europeia, que poderá abrir uma nova etapa nas relações econômicas entre Portugal e o Brasil. Precisamos preparar as empresas, especialmente as pequenas e médias, para entenderem as oportunidades e as exigências desse novo cenário.
De que forma a CCILB apoia empresas portuguesas e brasileiras nos processos de internacionalização, entrada nos respectivos mercados e criação de parcerias?
O primeiro apoio é ajudar a empresa a compreender o mercado no qual pretende entrar. Internacionalizar não significa apenas encontrar um cliente ou distribuidor. É necessário conhecer a legislação, os aspectos tributários, os canais de distribuição, os custos logísticos, a concorrência e a cultura empresarial local. A CCILB procura orientar as empresas e aproximá-las de profissionais, entidades e potenciais parceiros que possam apoiá-las em cada etapa. Não substituímos os especialistas, mas ajudamos o empresário a encontrar as pessoas certas e a chegar ao mercado com mais segurança. Também promovemos encontros empresariais, missões e eventos setoriais, nos quais as empresas podem apresentar seus projetos, conhecer potenciais parceiros e estabelecer relações de confiança. Esse trabalho é especialmente importante para as pequenas e médias empresas, que nem sempre possuem estrutura própria para fazer uma prospecção internacional. Entendemos que o trabalho da Câmara não termina na apresentação entre duas empresas. Sempre que possível, procuramos acompanhar a evolução dos contatos e contribuir para que uma primeira conversa possa se transformar em uma parceria efetiva e duradoura.
Que setores apresentam, atualmente, maior potencial para aprofundar o comércio, o investimento e a cooperação empresarial entre os dois países?
Existem oportunidades em diversos setores. Tecnologia, inovação, energia, infraestrutura, turismo, agronegócio, alimentos e bebidas, saúde, setor farmacêutico, construção civil, mercado imobiliário, logística e serviços financeiros estão entre as áreas com maior potencial. Portugal desenvolveu competências importantes em energias renováveis, turismo, tecnologia, engenharia, gestão de infraestrutura e serviços. O Brasil, por sua vez, possui escala, recursos naturais, capacidade industrial, produção agroalimentar e um mercado consumidor muito expressivo. Quando essas competências são combinadas, surgem oportunidades interessantes para os dois lados. Também vejo grande potencial na economia digital, na inteligência artificial e nos serviços prestados internacionalmente. São áreas nas quais a dimensão geográfica deixou de ser uma barreira tão relevante. O setor de alimentos e bebidas merece atenção especial. Portugal tem produtos de grande qualidade e o Brasil oferece um mercado amplo, embora ainda existam desafios tributários, logísticos e regulatórios. Em sentido inverso, produtos brasileiros podem utilizar Portugal como ponto de entrada e de valorização no mercado europeu.
Como pode Portugal assumir-se como plataforma de entrada das empresas brasileiras na União Europeia e, em sentido inverso, apoiar as empresas portuguesas interessadas no mercado brasileiro?
Portugal reúne condições muito favoráveis para ser uma plataforma de entrada das empresas brasileiras na União Europeia. Há proximidade cultural, facilidade de comunicação, segurança jurídica, boa infraestrutura, profissionais qualificados e acesso a um mercado europeu com centenas de milhões de consumidores. Mas Portugal não deve ser visto apenas como uma porta de entrada. Pode ser uma base para a estruturação, gestão e expansão das operações brasileiras na Europa. Uma empresa pode instalar aqui sua sede europeia, adaptar produtos às normas da União Europeia, contratar profissionais e desenvolver uma estratégia para outros mercados. No sentido inverso, o Brasil oferece às empresas portuguesas escala e acesso a um dos maiores mercados do mundo. É também uma plataforma para outros países da América do Sul. Naturalmente, o mercado brasileiro exige preparação. É necessário compreender a tributação, a regulamentação, as diferenças regionais e a dinâmica comercial do país. A CCILB pode contribuir justamente nessa ligação, aproximando empresas e instituições e ajudando a identificar parceiros locais confiáveis. Em uma internacionalização, escolher bem os parceiros é tão importante quanto escolher o mercado.
De que forma a CCILB tem ampliado a sua atuação à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e que oportunidades identifica no espaço econômico da CPLP?
A língua portuguesa é um patrimônio comum e também pode ser um ativo econômico. A CPLP reúne países em diferentes continentes, com recursos, mercados e necessidades muito diversos. Essa diversidade cria oportunidades em áreas como infraestrutura, energia, agricultura, saúde, educação, tecnologia, turismo e serviços financeiros. A CCILB vem procurando ampliar o diálogo com representantes diplomáticos, instituições e empresários dos demais países de língua portuguesa. Nosso objetivo é contribuir para que Portugal e o Brasil também funcionem como pontos de conexão para negócios com a África, a Ásia e outras regiões onde a língua portuguesa está presente. Ainda existem desafios importantes, como financiamento, logística, segurança jurídica e conhecimento dos mercados locais. Por isso, é fundamental trabalhar com instituições confiáveis e projetos bem estruturados. Mais do que imaginar um mercado único, devemos construir uma rede econômica de língua portuguesa, baseada em informação, confiança, mobilidade empresarial e cooperação. Há um potencial muito grande que ainda não foi plenamente aproveitado.
Quais são as prioridades da CCILB para os próximos anos e que iniciativas estão previstas para aproximar empresários, instituições e investidores de Portugal, do Brasil e dos restantes países da CPLP?
Nossa prioridade é tornar a Câmara cada vez mais útil para seus associados e para as empresas que desejam atuar entre esses mercados. Isso significa oferecer informação relevante, promover encontros objetivos e criar condições para que as relações institucionais gerem resultados empresariais. Pretendemos fortalecer os comitês setoriais, ampliar as missões empresariais e realizar eventos sobre temas estratégicos, como o Acordo Mercosul-União Europeia, inovação, tecnologia, sustentabilidade, turismo, comércio exterior, investimentos e arbitragem. Também queremos aumentar a cooperação com câmaras de comércio, federações empresariais, universidades, embaixadas, agências de promoção de investimentos e entidades de apoio à internacionalização. Essa articulação é essencial para dar escala e continuidade às iniciativas. Outro objetivo é ampliar a presença da CCILB junto aos países da CPLP, aproximando empresários e investidores e identificando projetos concretos de cooperação. Em resumo, queremos uma Câmara aberta, dinâmica e próxima das empresas. Portugal, Brasil e os demais países de língua portuguesa possuem relações históricas muito fortes. Nosso desafio é fazer com que essa proximidade se traduza, cada vez mais, em investimentos, empregos, inovação e desenvolvimento para todos.
Ígor Lopes
Atualidade
“Tenho algum cuidado com a palavra “referência”, mas também não fujo ao que venho construindo”, explicou cantautor português Eddie
O percurso de Eddie, nome artístico de Edgar Pinto, ultrapassa há muito a dimensão de um “simples” cantor. Ao longo de mais de 20 anos, construiu uma carreira como compositor, produtor, fundador da EP-Produções Musicais e membro de algumas das mais prestigiadas instituições ligadas à indústria musical, acumulando distinções internacionais em Madrid, Hollywood, Los Angeles e, mais recentemente, Nova Iorque (Distinção Especial “Artista Influente na Música e Cultura Latina”). No centro desse percurso continua, contudo, a mesma convicção: o sucesso resulta de tempo, disciplina, trabalho e autenticidade.
Em entrevista à Agência Incomparáveis, o artista português revisitou os bastidores da construção do álbum “Todo a Su Tiempo”, fala das renúncias e escolhas que marcaram a sua carreira, reflete sobre a forma como encara o reconhecimento internacional e explica por que motivo continua a privilegiar a humildade e a aprendizagem permanente, mesmo depois de alcançar um lugar de destaque no panorama musical ibero-americano.
Ao longo da conversa, Eddie sublinhou ainda a relação entre Portugal, Espanha, a Lusofonia e a América Latina, o papel da produção musical no seu percurso, a responsabilidade de integrar organismos internacionais como a Recording Academy e a Latin Recording Academy e os desafios que continua a estabelecer para o futuro, numa carreira que considera estar longe de concluída.
O projeto “Todo a Su Tiempo” levou cinco anos a ser construído e chegou a mais de 20 milhões de plays, streams e visualizações. Quando olha para este percurso, que parte da caminhada considera que o público ainda não conhece: o trabalho, as renúncias, os silêncios ou as decisões que ficaram fora dos palcos?
Hoje é difícil falar do público como uma entidade única e estanque. Há públicos diferentes: quem acompanha há anos, quem chega por uma canção, quem descobre o trabalho por um vídeo, uma rádio, uma entrevista ou um palco. O alcance pode ser grande e, ao mesmo tempo, muito parcial. Mesmo depois de uma longa jornada, continuo a chegar a novos ouvintes. Posso ter tocado numa sala importante ou passado por uma rádio, uma televisão ou um festival e, no dia seguinte, noutro contexto, haver pessoas a ouvir-me pela primeira vez. Isso agrada-me, mantém-me atento, vivo e com os pés no chão. Por isso, quando olho para este percurso, penso sobretudo na parte que se vê de fora: as canções, os vídeos, os concertos, as entrevistas, os prémios e os resultados. Por trás de tudo isto existe uma parte menos exposta, que é a do silêncio. “Todo a Su Tiempo” levou cinco anos a ser construído, mas esses cinco anos não nasceram do nada. Trazem uma história de vida, muitos anos de música, estúdio, palco, viagens, investimento pessoal, dúvidas, escolhas difíceis e muita aprendizagem. Este álbum tem esse nome por alguma razão. Não foi feito à pressa, nem para responder a uma moda ou a uma tendência. Houve músicas que ficaram para trás, ideias que precisaram de amadurecer e momentos em que tive de parar para perceber se cada passo fazia sentido para mim. Também houve renúncias: tempo pessoal, tranquilidade, oportunidades e até alguns caminhos que talvez fossem mais rápidos, mas não eram necessariamente os meus. Talvez a parte menos conhecida seja essa: continuar a construir quando ainda não há aplauso, quando ainda não há palco, quando ainda não há números para mostrar. No meu caso, muita coisa também se construiu nesses dias em que ninguém estava a ver. Quem escuta a canção pode não conhecer todos os bastidores, mas percebe quando ela não nasceu por acaso.
Ao longo de mais de duas décadas de carreira, passou por estúdios, palcos, rádios, televisões, prémios e reconhecimento internacional. Que sacrifícios foram necessários para chegar a este patamar sem perder o controlo criativo, a identidade artística e a ligação às suas origens?
Mais do que falar de sacrifícios de forma dramática, prefiro falar de escolhas exigentes. No meu caso, estes anos não se fizeram apenas de inspiração. Houve disciplina, investimento, persistência e foco, mesmo quando a visibilidade e o retorno nem sempre corresponderam ao esforço colocado. Sendo artista, compositor, produtor e tendo passado tantos anos dentro de estúdios, acabei por olhar para cada projeto como um todo. Não penso apenas na canção isoladamente; penso na produção, interpretação, imagem, direção artística e na forma como tudo chega ao público. Isso dá-me autonomia, mas também aumenta muito a responsabilidade. O lado criativo e de estúdio é talvez o que me surge de forma mais natural. O lado mais exigente é muitas vezes a gestão humana e operacional de um projeto independente: coordenar pessoas, prazos, sensibilidades, decisões e recursos. Nem sempre existe uma estrutura grande por trás, e isso leva-me a estar em muitas frentes. Houve momentos em que foi preciso abdicar de descanso, tempo pessoal e tranquilidade para proteger uma visão. Não vejo isso como queixa. Faz parte da escolha. A música tem-me dado muito, mas pede entrega, consistência e capacidade de não me dispersar. Talvez um dos maiores desafios tenha sido manter foco e identidade sem fechar a minha música numa só linguagem. Ao longo do meu percurso cruzei-me com projetos, estilos, artistas e sensibilidades muito diferentes, e tudo isso alargou a minha forma de ouvir, criar e pensar a música. O meu caminho tem sido encontrar coerência dentro dessa diversidade, sem transformar a música numa fórmula.
Os prémios recebidos em Madrid, Hollywood, Los Angeles e Nova Iorque colocaram o seu trabalho num circuito internacional onde estão alguns dos grandes nomes da música. Como gere esse reconhecimento sem o transformar em vaidade, mantendo a humildade e a consciência de que a carreira continua em construção?
Reconheço o valor desses prémios e tenho orgulho neles. Não os vejo como um detalhe: dão peso ao percurso, reforçam credibilidade e mostram que o trabalho conseguiu sair do seu lugar de origem para ser escutado noutros contextos. Ao mesmo tempo, nenhuma distinção encerra uma carreira; faz-me continuar com mais critério. Também sei que ganhar um prémio não significa que toda a gente fique automaticamente a saber. A atenção está muito fragmentada entre públicos, países, meios e plataformas. Para mim, o reconhecimento também existe fora dos prémios: numa rádio, em palco, entrevistas, colaborações ou no respeito de alguém do meio artístico que reconhece valor no projeto. Ter passado tantos anos em estúdio e ter-me cruzado com grandes nomes da música ajuda-me a pôr as coisas em perspetiva. Por mais importante que seja uma etapa, há sempre trabalho a fazer: na canção seguinte, no próximo palco, no próximo projeto.
“Todo a Su Tiempo” parece traduzir uma ideia de maturação, paciência e persistência. Em que medida este álbum representa não apenas uma fase musical, mas também uma forma de estar na vida e na indústria, num tempo em que muitos artistas são pressionados a produzir depressa e a responder ao algoritmo?
“Todo a Su Tiempo” tem muito de vida antes de ser apenas um título de álbum. Eu acredito no trabalho, na preparação, na persistência e em fazer a minha parte. Ainda assim, há coisas que só acontecem quando encontram o momento certo. Na música sinto o mesmo: cada canção tem a sua maturação e a sua razão para chegar. Tenho uma relação muito própria com os discos e as canções. Não gosto de lançar só para cumprir calendário ou alimentar plataformas. Hoje é preciso comunicar, estar presente, perceber a indústria e acompanhar o ritmo das coisas. Faço parte dessa realidade, procuro apenas que a pressa não mande mais do que a própria música. Para mim, uma música chega melhor quando sinto que está pronta e que a posso levar ao público com convicção. Nem sempre é possível controlar todos os calendários, porque também há oportunidades, compromissos e pressões naturais do mercado. Ainda assim, tento não perder esse critério. Prefiro que uma canção chegue um pouco mais tarde, mas chegue com sentido.
O seu percurso cruza Portugal, Espanha, a Lusofonia e a América Latina, com uma identidade luso-ibérica que não procura “folclorizar” a origem nem diluí-la no mercado global. Como encontra esse equilíbrio entre pertencer a um território cultural e, ao mesmo tempo, dialogar com públicos de vários países?
Reconheço-me muito nesse cruzamento e nessa ideia de ponte entre lugares, culturas, línguas e formas diferentes de sentir a música. Nasci em Portugal, mas o meu percurso não ficou fechado ao lugar onde nasci. Fui vivendo, viajando, trabalhando e criando em contacto com outros lugares, sobretudo Espanha, com uma ligação forte a Madrid e à Andaluzia, e também com a Lusofonia e o universo latino. Não nasceu de uma estratégia; faz parte da minha vida. A Lusofonia tem uma dimensão familiar, afetiva e musical. Espanha entrou no meu percurso por presença real, trabalho, amizade, palco, estúdio e tempo vivido. A América Latina foi surgindo pela língua, pelas canções, pelos media, pelas colaborações e pelo diálogo natural com públicos que sentem a música de forma próxima. O equilíbrio está em deixar que essa vida apareça naturalmente na música.
Além de cantautor, é produtor, fundador da EP-Produções Musicais, membro votante da Recording Academy e da Latin Recording Academy, integra a Academia de la Música de España e a Sociedade Portuguesa de Autores. Como vive a responsabilidade de ser referência em várias esferas da música sem perder a inquietação de quem continua a aprender?
Vejo essa dimensão como parte do percurso que tenho vindo a construir. São mais de duas décadas de estúdio, produção, canções, palco, trabalho com outros artistas, academias e contacto com vários lados da música. Reconheço o peso desse caminho, mas prefiro vivê-lo como responsabilidade e não como estatuto. Tenho algum cuidado com a palavra “referência”, mas também não fujo ao que venho construindo. A EP-Produções Musicais foi decisiva nessa história. Não foi apenas um estúdio, embora essa tenha sido a face mais visível. A partir de 2006 aproximou-me da indústria musical e fez com que muitos artistas, editoras e profissionais conhecessem melhor o meu trabalho como produtor e a minha forma de acompanhar projetos. Mais tarde, esse percurso também alimentou a minha fase autoral e artística. Produzir passa muito por ouvir, perceber o que cada canção pede e criar as condições certas para que a música aconteça. As academias e associações acrescentam outra dimensão, porque ser membro votante e participar em estruturas ligadas a compositores, produtores, engenheiros e autores faz-me olhar para a música para além do meu próprio trabalho: a autoria, a qualidade técnica, os direitos dos criadores e as novas gerações. A inquietação continua porque a forma de fazer, produzir e comunicar música está em constante transformação. As tecnologias, o mercado e as formas de chegar ao público obrigam-me a rever formas de trabalhar sem perder critério. Cada canção e cada colaboração trazem uma dinâmica própria. Posso ter mais estrada e experiência acumulada, mas isso não me dispensa de estar atento e, muitas vezes, recomeçar.
Depois de prémios, reconhecimento internacional, milhões de visualizações e uma trajetória construída com tempo, que novos desafios ainda o movem? O que falta conquistar, não apenas em números ou distinções, mas em verdade artística, impacto cultural e legado?
O que me move é continuar a crescer, aprender, viajar, tocar, criar e levar o meu trabalho a novos lugares. Tudo o que já aconteceu até aqui conta, mas não substitui a vontade de fazer mais e melhor.
Depois de uma canção estar produzida e chegar ao público, começa outra etapa: perceber como ela vive depois, por uma rádio, um palco, outro país ou na memória de quem a recebe. Esse impacto interessa-me muito, porque nem tudo o que conta cabe numa estatística.
Sendo artista independente, tenho consciência de que nem sempre os recursos acompanham a dimensão das ideias. Gostava de poder levar algumas produções mais longe, com maior impacto cénico, mais estrutura e mais presença ao vivo. Tenho também muita vontade de ir em promoção e em concerto a mais países da Lusofonia, especialmente ao Brasil, onde sinto uma relação bonita através das redes e de algumas canções que tiveram muito boa receção. Também gostava de aprofundar ligações na América Latina e nos Estados Unidos, com alguns pontos naturais como Miami, Puerto Rico ou Nashville, e, mais à frente, regressar à Ásia.
Quanto ao legado, não penso nisso como monumento. Gostava que um dia, quem olhasse para o conjunto das minhas canções, discos, imagens, colaborações e produção percebesse uma história real, com fases, línguas e influências diferentes, mas reconhecível como minha.
Ígor Lopes
Atualidade
“Portugal atrai perfis muito diferentes de estudantes internacionais”, afirma estudante brasileiro em Portugal
A integração no ensino superior português constitui um dos principais desafios para quem chega ao país para iniciar uma formação académica na Europa, envolvendo não apenas a adaptação aos métodos de ensino, mas também a construção de relações com colegas e a inserção num novo ambiente social e cultural.
É a partir da sua própria experiência enquanto estudante brasileiro em Portugal que Bruno Miranda e Silva, 20 anos, natural de Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais, e residente em Lisboa, tem acompanhado estas questões, conciliando os estudos no terceiro ano do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa com as funções de coordenador de política internacional na Associação Académica de Ciências Económicas e Políticas (AACEP) e de coordenador do Comité Jovem da Câmara de Comércio-Indústria Luso-Brasileira.
Em entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis, este responsável abordou os desafios de integração dos estudantes internacionais, os fatores que devem pesar na escolha de uma universidade portuguesa, as diferenças entre os sistemas de ensino superior de Portugal e do Brasil e a importância da participação em estruturas académicas, associativas e jornalísticas.
Na perspetiva de um estudante estrangeiro, quais são as principais dúvidas antes de iniciar uma licenciatura em Portugal e que preparativos considera indispensáveis para a adaptação académica e pessoal?
Antes de iniciar qualquer curso em Portugal, é indispensável que se verifique a estrutura do curso e o tipo de pessoas que lá estudam. A questão envolve sempre o problema da integração entre os estudantes da faculdade, ou seja, as relações que lá serão cultivadas. Quando entrei na faculdade, tinha grandes dúvidas da forma com a qual seria tratado, até com duvidas de se a própria faculdade que escolhi seria a certa para mim. Logo, quando o ano letivo começou, fiz questão de andar com as pessoas que se vestiam igual a mim, mesmo assim, as primeiras semanas da faculdade implicam uma tentativa de integração similar àquela de entrar em uma escola nova, onde não se conhece ninguém.
Que perfis de estudantes internacionais procuram atualmente as universidades portuguesas e quais são os principais fatores que pesam na escolha de Portugal como destino de formação?
Creio que Portugal atrai perfis muito diferentes de estudantes internacionais. No caso dos brasileiros, pesa bastante a língua, a proximidade cultural, a segurança, a qualidade de vida e a possibilidade de estudar numa universidade europeia sem diferença de língua gritante como no restante da europa. Além disso, muitos jovens procuram Portugal já pensando numa trajetória mais internacional, seja através de intercâmbios, de um mestrado ou de uma futura experiência profissional na Europa. Já, acho importante não escolher Portugal apenas porque parece ser um destino mais fácil para quem fala português. A decisão deveria ter em consideração a qualidade da universidade, se o curso for do seu agrado e as oportunidades que são dadas pela faculdade. A escolha da faculdade é tão importante quanto a escolha do próprio país.
Com base na sua experiência, o que funciona bem no acolhimento e na integração dos estudantes estrangeiros nas instituições de ensino superior portuguesas e o que ainda precisa de ser melhorado?
Isto tende a depender da instituição. Muitas faculdades dão liberdade aos estudantes de formarem os seus núcleos, seja de estudantes de determinados países como o Brasil ou de cariz político. No meu caso, a minha faculdade acredita que isso é contraproducente, quando falamos de núcleos de estudantes brasileiros, com o objetivo de os integrar, cria uma dinâmica onde não se integram, uma endogamia social, fazendo com que fiquem todos juntos, assim, terminam por não se integrar. Creio que esta é uma visão compreensível, onde a faculdade, por não deixar que isto aconteça, faz uma ‘arquitetura da escolha’, criando a oportunidade para que os alunos tenham que conviver uns com os outros, além dos seus moldes sociais, culturais ou mesmo de suas preferências pessoais (politicas ou hobbies).
Qual é a importância de concluir os estudos superiores em Portugal para o percurso académico, profissional e internacional de um estudante brasileiro?
Há uma grande importância em terminar os estudos superiores em Portugal. Mas a questão do Mestrado é muito mais importante. Aqui em Portugal, se se tenciona aqui ficar, é um dos mais importantes diplomas de ter, há uma grande competitividade para os empregos nas áreas escolhidas pelo aluno. Já, se os estudantes brasileiros tencionam voltar ao Brasil, um diploma Português tem um peso elevado, em comparação ao título de igual valor no Brasil, já que o universitário tem experiência no exterior, assim tendo mais competitividade no mercado de trabalho brasileiro.
Que diferenças identifica entre os sistemas de ensino superior de Portugal e do Brasil, nomeadamente nos métodos de avaliação, na relação com os docentes, na carga de trabalho e na participação dos estudantes?
Em Portugal, o ensino superior demanda bastante autonomia por parte do estudante, tanto na organização das leituras como na preparação para provas, trabalhos e apresentações. A relação com os professores costuma ser próxima e a participação do aluno depende muito da sua iniciativa, seja em associações, conferências, jornais universitários ou outras atividades fora da universidade (no seu cotidiano). Uma diferença em relação ao Brasil está também no financiamento do ensino superior. No Brasil, as universidades públicas não cobram ‘propinas’ (mensalidade, em português do Brasil), enquanto em Portugal mesmo as instituições públicas cobram ‘propinas’, e os valores podem ser mais elevados para estudantes internacionais, chegando a 12.500 euros por ano. Para quem vem de fora, esse custo deve ser levado em conta juntamente com as despesas de moradia, transporte e alimentação.
Na sua opinião, que ideias preconcebidas sobre estudar em Portugal não correspondem à realidade e que informação deveria ser transmitida aos jovens antes de tomarem essa decisão?
Creio que as ideias concebidas sobre o estudo em Portugal estão ligadas à inclusão das pessoas. Não foram raras as vezes que estudantes brasileiros foram vítimas de xenofobia ou preconceitos, mas nem todos os professores e nem todos os alunos são assim, longe disso. A maior parte dos estudantes portugueses tem um fascínio sobre a cultura brasileira, e acolhem de braços abertos todos os alunos que estudam em solo luso. Os portugueses são um povo aberto por natureza, logo, não são mal-humorados como se acredita no Brasil ou no restante dos países da lusofonia.
Fale-nos sobre a sua experiência ao escrever para o jornal da faculdade e por pertencer ao diretório académico.
Escrever para o jornal da faculdade é uma bênção, ter a oportunidade de me expressar sobre temas diversos, debatendo e discutindo assuntos que são caros para mim, recomendo a todos. No jornal da faculdade, me foco principalmente sobre questões ligadas à América Latina, com um olhar especial pelo Brasil e pelos processos internos, mesmo assim, comento de vez em quando, sobre os resultados eleitorais nos países da América Latina. Quanto à Associação Académica de Ciências Económicas e Políticas (AACEP) da Universidade Católica Portuguesa, como coordenador de política internacional, o meu foco vai além das fronteiras da América Latina, comentando ou organizando eventos e publicações sobre assuntos de interesse. A participação em um espaço que engloba todas as faculdades de Portugal, assim tendo já viajado para o sul do país com o objetivo de promover iniciativas da nossa Associação Académica, com, neste caso, foco na Europa.
Ígor Lopes
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