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Castelo Branco: “Bienal Internacional de Artes e Ofícios” promete afirmar artesanato, património e inovação como “motores de desenvolvimento económico e cultural” do município português
A cidade de Castelo Branco, na região Centro de Portugal, acolhe, nos dias 4 e 5 de setembro, no Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco (CCCCB), a primeira edição da “Bienal Internacional de Artes e Ofícios”, iniciativa organizada pela Câmara Municipal de Castelo Branco, através da Divisão de Museus e Cultura, e integrada na programação do “Festival Sabores de Perdição”, que decorrerá entre 3 e 6 de setembro.
A Bienal nasce na sequência da inclusão de Castelo Branco na “Rede de Cidades Criativas da UNESCO”, distinção atribuída em 31 de outubro de 2023, na categoria “Artesanato e Artes Populares”, reconhecimento internacional alcançado graças ao “valor patrimonial, artístico e identitário” do “Bordado de Castelo Branco”, uma das manifestações mais emblemáticas da cultura portuguesa e elemento central da identidade albicastrense.
Ao longo de dois dias, especialistas nacionais e internacionais, investigadores, artesãos, representantes institucionais, organismos públicos, instituições de ensino superior e cidades pertencentes à “Rede de Cidades Criativas da UNESCO” discutirão políticas públicas, inovação, empreendedorismo, internacionalização, cooperação entre territórios, preservação dos saberes tradicionais, renovação geracional e o papel das artes e dos ofícios enquanto “instrumentos de desenvolvimento económico, turístico e cultural”.
Além dos debates e conferências, a programação integrará visitas ao Museu dos Têxteis, ao Centro de Interpretação do Bordado de Castelo Branco, a exposição “O Mundo Bordado à Mão” e iniciativas de demonstração artesanal ao vivo.
Uma Bienal que “consolida a estratégia de crescimento internacional” de Castelo Branco
Em entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis, Sónia Abreu, chefe da Divisão de Museus e Cultura da Câmara Municipal de Castelo Branco, considera que a Bienal representa a evolução natural da estratégia que o município tem vindo a desenvolver desde que passou a integrar a “Rede de Cidades Criativas da UNESCO”.
“A ‘Bienal de Artes e Ofícios’ vem na linha de continuidade do desenvolvimento desta participação do município de Castelo Branco na ‘Rede das Cidades Criativas’. Temos uma programação que está alocada a esta chancela e, dentro dessa programação, está também o desenvolvimento desta ‘Bienal Internacional de Artes e Ofícios’”, referiu esta responsável, que aproveitou para recordar que o município já promoveu anteriormente outras iniciativas internacionais associadas à distinção da UNESCO.
“Já se fizeram outras atividades, nomeadamente o ‘Encontro Internacional de Cidades Criativas e Desenvolvimento Sustentável’, o ‘Fórum Ibero-Americano das Cidades Criativas’ e, agora, este foi o desenvolvimento natural das atividades que estão muito ligadas às cidades criativas”, sustentou.
Na sua perspetiva, mais do que organizar um congresso especializado, o objetivo consiste em “criar um espaço permanente de diálogo entre cidades, instituições e especialistas”, promovendo a “circulação de conhecimento e a partilha de experiências”.
“A ideia aqui é sobretudo partilhar experiências, divulgar boas práticas e ligar todas as cidades do país que estão também associadas às Cidades Criativas”, frisou, realçando que, apesar de Castelo Branco integrar a categoria de “Artesanato e Artes Populares”, a organização optou por envolver também cidades pertencentes a outras categorias da Rede UNESCO, assinalando tratar-se de um “valor acrescentado” para o certame.
Castelo Branco quer transformar distinção da UNESCO numa “ferramenta de desenvolvimento económico”
Ao longo da entrevista, Sónia Abreu defendeu que a classificação de Castelo Branco como “Cidade Criativa da UNESCO na categoria Artesanato e Artes Populares” representa muito mais do que um reconhecimento internacional. Para Sónia, esta distinção deve funcionar como um “instrumento de desenvolvimento económico, turístico e cultural, envolvendo toda a comunidade e reforçando o posicionamento do concelho no panorama internacional”.
De acordo com Sónia, um dos maiores desafios passa precisamente por “fazer compreender à população o verdadeiro significado da chancela atribuída pela UNESCO e o potencial que esta encerra para o território”.
“É uma questão que eu tenho refletido muito sobre e tenho conversado com o presidente da Câmara, porque é ele quem tem o pelouro da Cultura e das Cidades Criativas. O facto de termos esta chancela é muito mais do que só dizer ‘somos uma cidade criativa’. É muito mais do que isso. Penso que deveríamos aproveitar este legado, esta chancela que tem muito peso e é tão importante para chamar todos”, acrescentou.
A chefe de divisão de Museus e Cultura admite que continua a existir um trabalho de sensibilização junto da população, para que os albicastrenses “compreendam que esta distinção internacional não constitui apenas um selo institucional, mas uma oportunidade concreta de projeção económica, cultural e turística”.
“É uma chancela que nos pode projetar”, refletiu.
“Bordado de Castelo Branco” deve afirmar-se no “segmento do luxo”
Durante a entrevista, visitamos as instalações do Centro de Interpretação do Bordado e presenciamos as profissionais darem vida a peças exclusivas, que valorizam a tradução local. Precisamente em virtude dessa importância, Sónia Abreu considera que o futuro do “Bordado de Castelo Branco” passa por uma maior valorização económica e por uma aposta clara em mercados de elevado valor acrescentado, sem descurar o trabalho desenvolvido pelas bordadeiras tradicionais. Na sua visão, o “Bordado de Castelo Branco” reúne características que lhe permitem afirmar-se internacionalmente em segmentos ligados ao luxo e à diferenciação.
“Estou absolutamente convicta de que o caminho, neste caso para o Bordado de Castelo Branco, que é o ícone da nossa Cidade Criativa, é o segmento mais virado ao segmento de luxo”, defendeu, acrescentando que é necessário um reforço da presença do bordado em certames internacionais especializados e mercados mais exigentes.
“Precisamos investir mais nessa parte, chegar às feiras de artesanato ligadas ao luxo, aos segmentos mais altos”, salientou. Ainda assim, fez questão de sublinhar que esta estratégia “não implica desvalorizar o trabalho artesanal” desenvolvido diariamente por muitas mulheres no concelho.
“E, claro, sem desvalorizar aquilo que é o bordado que muitas mulheres fazem em casa, mas este bordado certificado em concreto tem que ter um lugar na economia e no segmento do luxo, sem dúvida nenhuma”, argumentou.
Explicar aos albicastrenses o que significa ser “Cidade Criativa da UNESCO”
Mais do que organizar um encontro internacional com especialistas, a Bienal pretende também aproximar a população do projeto UNESCO e esclarecer o significado da classificação atribuída ao município. Sónia Abreu alega que continua a existir alguma “dificuldade” em explicar à comunidade o verdadeiro alcance desta distinção.
“O objetivo é que no fim desta Bienal as pessoas sintam que é muito importante para nós, albicastrenses, ter essa distinção, porque eu vejo nas ruas as pessoas perguntarem-se: ‘O que é isto, ser uma ‘Cidade Criativa da UNESCO?’. Era esta a mensagem que eu gostava que passássemos durante o evento”, admitiu Sónia, que acredita que existe um forte sentimento de pertença em torno do Bordado de Castelo Branco, independentemente das preferências estéticas individuais.
“Não há nenhum albicastrense que não tenha gosto em falar daquilo que é o seu património”, enfatizou, acrescentando que sempre que alguém identifica Castelo Branco, a associação ao bordado surge de forma praticamente imediata.
Para esta chefe de Divisão na autarquia albicastrense, uma “Cidade Criativa da UNESCO” não pode resumir-se exclusivamente ao bordado, razão pela qual pretende igualmente “valorizar outras formas de artesanato existentes no concelho”.
“Nesta Bienal, em concreto, vamos focar-nos naquilo que nos elevou à categoria de Cidade Criativa da UNESCO, que são o Artesanato e as Artes Populares, como o bordado, mas a ideia depois, é também apoiar e promover outras formas de artesanato que existem na cidade”, realçou.
Nesse sentido, a organização promoverá, em paralelo com a Bienal, “A Criatividade e os Ofícios”, espaço instalado no âmbito do “Festival Sabores de Perdição”, onde artesãos de diferentes áreas desenvolverão demonstrações ao vivo e contacto direto com os visitantes.
“Vamos chamar outros artesãos, que vão estar no local a trabalhar ao vivo, a partilhar experiências, a deixar as pessoas mexerem, meterem ali as ‘mãos na massa’, porque nós achamos que é também esse o caminho”, disse.
Programa aposta na “reflexão, inovação e cooperação” entre cidades criativas
Ao longo dos dois dias, 4 e 5 de setembro, a “Bienal Internacional de Artes e Ofícios” reunirá participantes de renome, alguns já confirmados, como representantes diplomáticos do Brasil e de Cabo Verde, a cônsul honorária de Cabo Verde para os distritos de Castelo Branco, Guarda e Viseu, Sofia Lourenço, o diretor-geral da Direção-Geral das Artes (DGArtes), Américo Rodrigues, a chefe de Divisão de Cadastro, Inventário e Classificação do Património Cultural, I.P., Maria Antónia Amaral, da A.CERTIFICA, atualmente o único organismo de certificação acreditado pelo Instituto Português de Acreditação (IPAC) para a certificação de produções artesanais tradicionais, Associação Portugal à Mão – Centro de Estudos e Promoção das Artes e Ofícios Portugueses, do Centro de Formação Profissional para o Artesanato e o Património (CEARTE), da Escola Superior de Artes Aplicadas do Instituto Politécnico de Castelo Branco (ESART-IPCB) e representantes de diversas cidades portuguesas integradas na Rede de Cidades Criativas da UNESCO, entre outros nomes.
“O que esperamos é que, mais do que um momento de reflexão, todos consigamos identificar medidas públicas de proteção e de valorização destes recursos culturais de cada território e, nomeadamente, do território de Castelo Branco”, ressaltou Sónia Abreu, que não deixa de mencionar que “preservar uma tradição não significa mantê-la inalterada, mas garantir a sua capacidade de adaptação às exigências contemporâneas”.
“Estas artes têm que ser contemporâneas. Se queremos que estas artes continuem a vingar, há aqui um momento em que elas têm que dar o salto”, atentou Sónia Abreu, que considera que essa evolução já começou a concretizar-se através da colaboração estabelecida entre o município e a Escola Superior de Artes Aplicadas do Instituto Politécnico de Castelo Branco, cujo trabalho será igualmente apresentado durante a Bienal.
“Os cursos de licenciatura e mestrado na área do design têxtil têm sido um aporte muito interessante para a questão do desenvolvimento do Bordado de Castelo Branco”, avançou, apesar de reconhecer que a introdução de novas abordagens continua a gerar diferentes sensibilidades.
“Claro que isto levanta muitas questões. Há muitas pessoas que não concordam, mas eu acho que, enquanto houver discussão, o tema está sempre a correr bem. Quer dizer que estamos a evoluir. As discussões são boas, nós temos que partir pedra, trocar ideias”, admitiu esta responsável, que comentou ainda sobre a diversidade institucional presente na Bienal para abrir o diálogo sobre diferentes perspetivas relativamente à valorização do património.
A ideia é que a Bienal possa “conjugar a reflexão científica com experiências práticas, aproximando especialistas, artesãos e visitantes num mesmo espaço de partilha e valorização do património cultural”.
“Cidades Criativas da UNESCO” representadas em Castelo Branco
O segundo dia da Bienal, 5 de setembro, será particularmente dedicado ao universo das “Cidades Criativas da UNESCO”, reunindo municípios portugueses pertencentes a diferentes categorias da rede internacional, como Barcelos, Caldas da Rainha, Idanha-a-Nova, Braga, Covilhã, Santa Maria da Feira ou Matosinhos.
De acordo com Sónia Abreu, esta opção pretende demonstrar que a criatividade pode assumir diferentes expressões e constituir um verdadeiro instrumento de desenvolvimento territorial.
“Vão estar representadas as categorias música, gastronomia, artesanato e artes populares, artes digitais e design, e isso é muito interessante para as pessoas perceberem que esta questão das “Cidades Criativas” pode ter uma dimensão enorme”, acrescentou.
Património, turismo e internacionalização caminham lado a lado
A distinção atribuída pela UNESCO é encarada pelo município como uma oportunidade para reforçar a promoção internacional de Castelo Branco, afirmando o património cultural imaterial como fator de diferenciação territorial e de desenvolvimento económico.
“Sem dúvida que é uma oportunidade. A promoção territorial através deste tipo de práticas, desta questão das artes tradicionais, é muito importante para o município”, realçou, destacando que “a valorização do património não deve limitar-se à preservação dos monumentos”, devendo, de igual modo, “transformar os saberes tradicionais num motivo de visita e de descoberta do território”.
“Nós percebemos que o património é muito importante, as pessoas virem ao território para ver monumentos, isso é muito importante, mas devem vir também pelo artesanato”, salientou Sónia Abreu, que avaliou que o artesanato possui uma capacidade muito própria de promover um território, permitindo que os visitantes levem consigo um elemento identitário que prolonga a ligação estabelecida durante a visita.
Como exemplo da projeção internacional já alcançada pelo Bordado de Castelo Branco, Sónia recordou um episódio recente envolvendo um investigador japonês especializado na seda, convidado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
“Estive em Castelo Branco com um professor do Japão que vinha dar aulas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Ele está ligado à investigação da seda. Apesar de existir a possibilidade de visitar outros centros ligados ao trabalho da seda em Portugal, o investigador fez questão de incluir Castelo Branco no seu percurso, precisamente pelo prestígio internacional do bordado. A professora que estava com ele quis levá-lo a Freixo de Espada à Cinta, mas ele disse: ‘Eu quero ir a Castelo Branco’”, acrescentou.
Episódios desta natureza, para Sónia, demonstram que o “Bordado de Castelo Branco” ultrapassou as fronteiras nacionais, tornando-se um elemento reconhecido em contextos científicos e culturais internacionais.
“Foi incrível porque como é que, de repente, um professor catedrático de uma universidade no Japão já ouviu falar de Castelo Branco”, assinalou.
Na sua opinião, essa notoriedade deverá ser aproveitada para consolidar o concelho enquanto destino cultural e turístico.
“Mais do que aos investigadores, é aos turistas em geral. Acho que isto pode ser um polo de atração”, concluiu.
Novas gerações são “determinantes” para garantir o futuro do património
Outro dos temas que Sónia Abreu considera prioritários prende-se com a necessidade de aproximar as novas gerações do património cultural, defendendo um reforço da mediação cultural como instrumento de valorização dos saberes tradicionais.
“Para nós, a mediação cultural é urgente e muito importante para a nossa cidade”, defendeu, acrescentando que a melhor forma de criar públicos passa por trabalhar diretamente com as crianças, estabelecendo desde cedo uma ligação emocional ao património local. Na sua visão, essa relação tende a prolongar-se no tempo e acaba por envolver também as famílias.
“Se eu levar uma criança a um museu e estabelecer um laço emocional qualquer com ela, certamente vai para casa e vai exigir que os pais vão com ela àquele sítio porque foi ali que ela viu, sentiu e aprendeu”, exemplificou.
Apesar dos esforços já desenvolvidos, admite que o município ainda possui margem para crescer nesta área, nomeadamente através da criação de equipas especializadas e da dinamização de novos projetos.
“Nós, aqui na cidade, no município, ainda temos essa lacuna. Temos que trabalhar muito mais”, reconheceu. Ainda assim, sugere que nem todas as respostas têm necessariamente de partir da estrutura municipal, defendendo o estabelecimento de parcerias com profissionais e entidades que possam contribuir para esse trabalho.
“Podemos não ter as condições, não sabermos tudo ou não temos que ter especialistas em todas as áreas, mas podemos ter pessoas na cidade, ou que queiram vir para a cidade trabalhar connosco, para estabelecer essas parcerias”, vincou.
Artesãos assumem “papel ativo” na valorização do património
Ao longo da preparação da Bienal, a Câmara Municipal de Castelo Branco tem mantido contacto permanente com os artesãos do concelho, encontrando, segundo Sónia Abreu, uma “forte disponibilidade para participar nas iniciativas promovidas pelo município”.
“O feedback que nós temos é sempre positivo. Assim que contactamos as pessoas, a primeira coisa que elas nos dizem é: ‘Sim, contem comigo. Podem absolutamente contar comigo para o que for necessário’”, revelou. Uma colaboração que não se limita à Bienal, mas sempre que Castelo Branco participa em feiras de artesanato ou noutras ações de promoção.
“O município consegue mobilizar facilmente os artesãos locais. Depois, vamos ajustando. Quando vamos, por exemplo, a feiras de artesanato, convocamos os artesãos da cidade e nunca ficamos sem dar resposta às feiras. Temos sempre alguém para levar”, referiu, garantindo que esta disponibilidade “mostra que os artesãos estão envolvidos” e “reconhecem a importância da estratégia que o município tem vindo a desenvolver” em torno da valorização do património cultural.
Participação é gratuita, mas sujeita a inscrição obrigatória
A participação na “Bienal Internacional de Artes e Ofícios” em setembro será gratuita, encontrando-se aberta a todos os interessados, embora sujeita a inscrição prévia devido à capacidade limitada do auditório do Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco.
As inscrições podem ser efetuadas através de formulário próprio no seguinte link:
https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScDxASco71nQy1jCHIm-o5SqzxmmZZAYr1dM6eF-ky6eKONjQ/viewform
Um convite para descobrir Castelo Branco através do património, da gastronomia e da criatividade
No final da nossa reportagem, Sónia Abreu deixou um convite para que visitantes de todo o país aproveitem a Bienal como “ponto de partida” para conhecerem o património, a identidade cultural e a oferta turística de Castelo Branco.
“O convite que eu faço às pessoas é que venham a Castelo Branco, que participem neste evento. O que vamos ter aqui é um painel de oradores muitíssimo interessante, que vai falar não só sobre as questões relacionadas com o ‘Bordado de Castelo Branco’, mas sobre o património imaterial, as tradições no geral. Não deixem de estar presentes”, apelou.
Ainda no âmbito da Bienal, os visitantes poderão participar na programação gastronómica do “Festival Sabores de Perdição”, conhecer produtos endógenos do território e contactar com a nova rota gastronómica do concelho.
Uma vida dedicada ao património cultural albicastrense
À frente da Divisão de Museus e Cultura da Câmara Municipal de Castelo Branco, Sónia é conhecida por ser uma profissional cuja ligação ao património da cidade começou muito antes de assumir as atuais funções.
Licenciada em História da Arte pela Universidade de Coimbra, iniciou o seu percurso profissional precisamente num museu que atualmente integra os equipamentos culturais municipais, experiência que continua a considerar “determinante” na construção da sua identidade profissional. Durante esse período, reconheceu a influência marcante de uma responsável que acompanhou os seus primeiros anos de trabalho.
“Tive a felicidade de ter uma ‘super’ diretora e uma mentora que me ensinou não só aquilo que dizia respeito aos museus, mas também a ser uma profissional humilde, empenhada, empática e, até hoje, eu tenho essa dívida de gratidão com ela”, frisou.
Posteriormente a sua vida levou-a “por outros caminhos diferentes”, exercendo funções como professora e integrando, atualmente, o quadro do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), “sem nunca perder a ligação ao património cultural da sua terra”.
Natural de Castelo Branco, explica que apenas deixou a cidade durante o período necessário para concluir a formação universitária.
“Eu sou albicastrense, nascida e criada, e costumo dizer que só estive fora o tempo estritamente necessário para fazer a minha formação e regressar a correr à casa. Eu vivi seis anos em Coimbra, onde estudei, tirei o curso de História da Arte e depois estive sempre por aqui. Nunca me imaginei a viver noutro sítio, nunca me imaginei a criar a minha família noutro sítio. A minha ligação afetiva ao território mantém-se inalterável”, contou.
Uma relação que se estende também ao marido, que, apesar de não ser natural de Castelo Branco, adotou igualmente a cidade como sua.
“Tive a felicidade de casar com um homem que, apesar de não ser de Castelo Branco, é hoje um albicastrense de coração e gostamos muito de estar aqui”, enfatizou.
“Não trocaríamos o sossego do Interior por nada deste mundo”, finalizou Sónia Abreu.
Ígor Lopes
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Funchal é palco do VII encontro “Homenagem às Migrações”
A Associação Diáspora no Mundo (ADNM) promove nesta próxima sexta-feira, 11 de setembro, às 20h, no Auditório do Jardim Municipal do Funchal, o VII Encontro “Homenagem às Migrações”, uma celebração da diversidade cultural que caracteriza a Madeira.
O evento reunirá mais de 16 representações de comunidades estrangeiras residentes em terras portuguesas, num espetáculo que pretende dar voz às diferentes culturas através da música, da dança, das tradições e das expressões artísticas.
Entre os convidados estão Alebrije – Folclore Mexicano em Portugal, Patche Di Rima, da Guiné-Bissau, Roni de Melo, do Brasil, e a dupla internacional Sandra&Ricardo, acompanhada pelos seus músicos, entre outros grupos e artistas residentes em Portugal.
Ao longo da noite estarão representados Brasil, Cuba, Venezuela, Egito, Inglaterra, República Dominicana, Guiné-Bissau, México, França, Chile, Argentina, África do Sul, Roménia, Espanha e Itália, numa verdadeira viagem cultural por diferentes partes do mundo.

“O Encontro “Homenagem às Migrações” é uma celebração da diversidade que diariamente enriquece a nossa Região. É um momento de encontro entre culturas, histórias e pessoas, que nos recorda que a diferença nos aproxima e que cada comunidade tem um contributo único para a construção de uma Madeira mais inclusiva, plural e solidária”, afirmou Lúcia Gomes, presidente da ADNM.
Com o apoio da Câmara Municipal do Funchal, o evento tem entrada livre e está aberto a toda a comunidade, convidando madeirenses, migrantes e visitantes a celebrar juntos a riqueza das diferentes culturas que hoje fazem parte da Região.
Apresentado por Carlos Nené Pereira, com esta iniciativa, a ADNM reafirma o seu compromisso com a valorização da diversidade cultural, a integração das comunidades migrantes e a promoção do diálogo intercultural, transformando o Funchal num verdadeiro ponto de encontro entre culturas.
Ígor Lopes
Atualidade
Lisboa: Diplomacia brasileira celebra relações com Portugal durante festa pelos 204 anos da Independência do Brasil
A Embaixada do Brasil em Lisboa celebrou, no dia 7 de setembro, o 204.º aniversário da Independência do Brasil com uma receção realizada na Residência Oficial do Embaixador da República Federativa do Brasil em Portugal, Raimundo Carreiro, e da embaixatriz Maria José de Ávila. A cerimónia decorreu entre às 18h e às 20h e reuniu autoridades portuguesas e brasileiras, representantes do corpo diplomático, membros da comunidade luso-brasileira e convidados institucionais.
O programa incluiu a execução dos hinos nacionais do Brasil e de Portugal pela Banda da Armada, com interpretação de Taiana Froes, seguida da intervenção do embaixador e de um momento de confraternização. Entre os presentes esteve o ex-Presidente da República portuguesa Marcelo Rebelo de Sousa, que acompanhou parte da cerimónia ao lado de Raimundo Carreiro.
À margem das celebrações, Raimundo Carreiro concedeu uma entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis e fez um balanço da evolução das relações entre Brasil e Portugal durante os quatro anos em que tem estado à frente da representação diplomática brasileira no país. Para o embaixador, cada celebração do 7 de Setembro realizada durante a sua missão tem permitido “acompanhar um processo contínuo de aproximação bilateral”.
Segundo Carreiro, a relação entre os dois países tem vindo a tornar-se mais estreita, com reflexos na presença da comunidade brasileira, no diálogo entre autoridades e nas relações económicas. O diplomata sublinhou que esta aproximação deve também ser compreendida a partir do percurso histórico iniciado com a própria Independência e com o posterior reconhecimento português da soberania brasileira.
Na entrevista, Raimundo Carreiro recordou que o reconhecimento ocorreu num contexto particular, marcado também pela relação familiar entre D. João VI e D. Pedro I. Segundo o embaixador, tratou-se de um reconhecimento entre pai e filho, acrescentando que o entendimento estabelecido naquele período apontava para uma união destinada a permanecer. O diplomata associou esse percurso histórico ao atual nível das relações bilaterais. Considerou que, ao longo dos 204 anos de independência brasileira, Brasil e Portugal procuraram construir uma relação assente na proximidade, que hoje se manifesta através da mobilidade das pessoas, da cooperação institucional, dos negócios e da presença crescente dos brasileiros na sociedade portuguesa.
O embaixador destacou ainda o papel desempenhado por Portugal no processo de aproximação comercial entre o Mercosul e a União Europeia. Segundo Carreiro, Portugal esteve entre os países europeus que apoiaram o entendimento e defenderam a conclusão do acordo, sendo também um dos Estados que poderão beneficiar do aumento das oportunidades de comércio e investimento entre os dois blocos.
O Acordo de Parceria entre o Mercosul e a União Europeia foi assinado em 17 de janeiro de 2026 e estabelece uma área económica que reúne aproximadamente 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto combinado superior a 22 biliões de dólares. A aplicação provisória do Acordo Provisório de Comércio começou em 1 de maio de 2026, enquanto prosseguem os procedimentos previstos para a entrada em vigor definitiva dos diferentes instrumentos jurídicos.
Para Raimundo Carreiro, a aproximação entre os dois blocos ultrapassa a dimensão comercial e representa também uma afirmação do multilateralismo num contexto internacional marcado por tensões económicas e geopolíticas. Neste cenário, Portugal ocupa, segundo o diplomata, uma posição relevante na ligação do Brasil ao espaço europeu, enquanto o Brasil assume igualmente uma função de ligação portuguesa à América do Sul.
Ao recordar os principais momentos da sua missão em Lisboa, o embaixador referiu ainda as comemorações do bicentenário da Independência, em 2022, quando o coração de D. Pedro I foi transportado de Portugal para o Brasil no âmbito das celebrações dos 200 anos, e as iniciativas que assinalaram, em 2025, os dois séculos do estabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países e do reconhecimento português da Independência brasileira.
Carreiro afirmou que acompanhar estes acontecimentos durante a sua missão representa uma “responsabilidade institucional e pessoal”, considerando que o posto de embaixador do Brasil em Portugal possui uma dimensão particular pela história partilhada pelos dois países.
Para Raimundo Carreiro, este percurso demonstra a continuidade de uma relação que, mais de dois séculos depois da separação política, permanece em processo de aproximação e consolidação.
Discurso oficial destacou relações bilaterais
Na abertura de seu discurso oficial, no início da noite, Raimundo Carreiro destacou o significado da celebração e a relação entre Brasil e Portugal.
“É uma grande satisfação recebê-los na Residência Oficial da Embaixada do Brasil em Lisboa para a celebração dos 204 anos da Independência do Brasil. A execução dos hinos nacionais do Brasil e de Portugal simboliza a amizade e o respeito que unem os nossos dois países”, declarou.
Ao abordar as relações bilaterais, o embaixador brasileiro recordou o bicentenário das relações diplomáticas e ressaltou o momento atual da parceria entre as duas nações.
“No ano passado, celebrámos o bicentenário do estabelecimento das relações diplomáticas entre Brasil e Portugal. Foi uma oportunidade para recordarmos a nossa trajetória comum, construída ao longo de dois séculos, e para projetarmos o futuro da parceria que une as duas nações. Em 2026, esse espírito de celebração continua a inspirar o fortalecimento dos laços entre os nossos dois países. O intenso diálogo político, o crescente intercâmbio cultural, a vitalidade das nossas diásporas e a expansão dos vínculos económicos mostram que Brasil e Portugal vivem um momento de consolidação das relações bilaterais”, destacou.
Na sequência, Raimundo Carreiro mencionou os contatos políticos e institucionais mantidos entre Brasil e Portugal.
“Em novembro passado, o primeiro-ministro português Luís Montenegro realizou uma visita ao Brasil para participar na COP30, em Belém. Em abril deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou Lisboa e reuniu-se com o primeiro-ministro e com o Presidente da República Portuguesa. Os laços de amizade entre os parlamentos continuam também a estreitar-se. Em abril, o Congresso Nacional brasileiro recebeu uma delegação da Assembleia da República Portuguesa, liderada por José Cesário. Em julho, recebemos em Lisboa o presidente do Supremo Tribunal Federal do Brasil, ministro Edson Fachin. As reuniões realizadas contribuíram para reforçar a cooperação entre os órgãos judiciais, tanto no plano bilateral como no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa”, assinalou.
Um dos pontos centrais do discurso foi a presença da comunidade brasileira em Portugal.
“Os brasileiros já representam cerca de 5% da população de Portugal. A sua presença é parte integrante da vida económica, social, académica e cultural portuguesa. A comunidade brasileira tem uma ligação muito forte com a sociedade portuguesa, favorecida pela língua comum, pelas afinidades culturais e pelos valores partilhados que aproximam os nossos povos. Essa realidade não nos impede de reconhecer os desafios que ainda persistem e de continuarmos a trabalhar em conjunto com as autoridades portuguesas para melhorar a integração da comunidade brasileira”, considerou o diplomata.
No plano econômico, Raimundo Carreiro referiu-se ao acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia como um marco para as relações entre as duas regiões.
“A entrada em vigor do acordo provisório de comércio entre o Mercosul e a União Europeia representa um marco histórico para as duas regiões, com reflexos positivos e duradouros para as relações do Brasil e também de Portugal. Depois de mais de duas décadas de negociações, inauguramos uma das maiores áreas de integração económica do mundo, com cerca de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto conjunto superior a 22 biliões de dólares. O apoio de Portugal foi decisivo para demonstrar que este acordo pode ser benéfico para ambas as partes”, declarou.
Segundo o embaixador, o acordo amplia as possibilidades para empresas portuguesas no mercado sul-americano.
“Fortemente integrada nas cadeias de valor europeias, a economia portuguesa passa a dispor de um canal ampliado para um mercado de aproximadamente 272 milhões de consumidores do Mercosul. Num cenário global marcado pela fragmentação e pela incerteza, esta parceria representa também um reforço do multilateralismo”, avaliou.
Raimundo Carreiro dedicou ainda parte do discurso às eleições gerais brasileiras de 2026 e à participação dos eleitores residentes em Portugal.
“No dia 4 de outubro, o Brasil realiza eleições gerais. Cerca de 158,7 milhões de pessoas estão habilitadas a votar. Em Portugal, são cerca de 135 mil eleitores brasileiros, o que representa aproximadamente 15% dos eleitores inscritos no exterior. Lisboa e Porto são, respetivamente, o primeiro e o terceiro maiores colégios eleitorais brasileiros fora do Brasil”, informou.
Ao tratar dos próximos grandes eventos internacionais no Brasil, Raimundo Carreiro destacou a realização da Copa do Mundo de Futebol Feminino da FIFA em 2027.
“O Brasil terá muito orgulho em receber o Campeonato do Mundo de Futebol Feminino da FIFA em 2027. Será a décima edição do torneio e a primeira realizada na América do Sul. Convido todos a visitarem o Brasil no próximo ano e a acompanharem de perto este grande evento”, afirmou.
O embaixador acrescentou que a realização da competição também deverá contribuir para discussões sociais.
“Realizar o Campeonato do Mundo de Futebol Feminino no Brasil representa um reconhecimento da força crescente da modalidade e do potencial das mulheres no desporto. É também uma oportunidade para colocar em debate questões sociais importantes, como o combate à violência e à desigualdade de género”, enfatizou.
Na parte final do discurso, Raimundo Carreiro voltou a destacar o estágio das relações bilaterais e a necessidade de continuidade do trabalho diplomático.
“Temos muito a celebrar no relacionamento entre Brasil e Portugal, mas assumimos também o desafio de continuar a trabalhar para concretizar as oportunidades que se abrem na nossa parceria bilateral”, ponderou.
O diplomata também mencionou a nova ligação aérea anunciada pela companhia brasileira GOL entre o Rio de Janeiro e Lisboa.
“A nova ligação direta entre o Rio de Janeiro e Lisboa será a primeira da companhia entre o Brasil e a Europa e representa mais uma ponte aérea entre dois países aproximados pela história e pelo afeto”, salientou.
Raimundo Carreiro citou ainda a ampliação da presença do Banco do Brasil em Portugal, com foco no atendimento a cidadãos, empresas e investidores, classificando a instituição como “uma ponte financeira entre os nossos dois países”.
A intervenção terminou com uma referência direta à data comemorativa e à relação bilateral.
“Viva a Independência do Brasil e a amizade entre Brasil e Portugal”, concluiu Raimundo Carreiro.
Recorde-se que Raimundo Carreiro apresentou as suas credenciais em Lisboa em março de 2022 e esta foi a quarta celebração do Dia da Independência realizada durante a sua gestão diplomática em Portugal.
Ígor Lopes
Atualidade
“IX Mercado da América Latina” regressa ao Estoril com três dias dedicados à cultura latino-americana
A Casa da América Latina em Lisboa e a Câmara Municipal de Cascais organizam, entre os dias 11 e 13 de setembro, a nona edição do Mercado da América Latina, na FIARTIL – Feira Internacional de Artesanato do Estoril, a oeste de Lisboa, com uma programação dedicada à cultura, ao empreendedorismo e à participação de toda a família.
O evento, cujos bilhetes serão colocados à venda em breve, regressa pelo nono ano consecutivo à FIARTIL, reunindo durante três dias diferentes expressões culturais dos países da América Latina e criando um espaço de encontro entre comunidades e público.
Na sexta-feira, 11 de setembro, o mercado estará aberto entre as 18h e as 23h30. No sábado, 12 de setembro, o horário será das 12h às 23h30, enquanto no domingo, 13 de setembro, o recinto funcionará das 12h às 21h.
A programação inclui artes plásticas e artesanato, permitindo dar visibilidade a diferentes manifestações artísticas e produtos associados às tradições latino-americanas.
A gastronomia tradicional terá também um lugar de destaque, com especialidades que permitem conhecer a diversidade de sabores e práticas culinárias existentes entre os vários países da região.
A música e a dança ao vivo completam a componente cultural do mercado, proporcionando momentos de animação e convívio ao longo dos três dias.
A iniciativa contará ainda com um espaço dedicado às crianças, onde serão desenvolvidas várias atividades dirigidas ao público mais jovem.
Além da vertente cultural, o Mercado da América Latina apresenta uma dimensão ligada ao empreendedorismo e à integração económica, procurando apoiar pequenos empresários migrantes que vivem em Portugal e que pretendem testar ou consolidar os seus projetos.
Este apoio permite aproximar os empreendedores do público e criar oportunidades para a divulgação de produtos, serviços e iniciativas desenvolvidas pelas comunidades migrantes, contribuindo para a consolidação dos seus projetos no país.
A iniciativa enquadra-se numa missão de aproximação entre comunidades e de divulgação das tradições da América Latina, associando a valorização cultural à promoção da economia e do empreendedorismo latino-americano em Portugal.
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